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Um Carandiru no coração de Niterói

Entre duas grandes agências bancárias, o nº 327 da Amaral Peixoto está completamente às escuras

 

Amaral Peixoto, 327. O endereço do medo

Batizado originalmente como N. S. da Conceição, o prédio número 327  da Avenida Amaral Peixoto, no coração de Niterói, já trocou de nome algumas vezes, em clara tentativa de construir uma nova reputação a cada identidade diferente que assumia. Já foi Edifício Rio-Niterói e agora exibe na testeira da galeria principal de acesso uma placa com o nome de Edifício Amaral Peixoto. Alguns moradores, amedrontados, porém, se referem a ele como Carandiru, em referência ao presídio inóspito e macabro de São Paulo que, em 2 de outubro 1992, protagonizou a maior chacina do sistema prisional brasileiro.
Quem se aventurar passar além das galerias térreas – como fez a reportagem do TODA PALAVRA - vai descobrir, com ajuda de uma lanterna, já que a luz do prédio está cortada pela Enel, a razão da comparação. Boa parte dos apartamentos dos cinco primeiros andares, de um total de 12, foi invadida por traficantes e marginais de diferentes facções. Como um quartel central do crime, o prédio recebe, segundo policiais e moradores, o fruto da maioria dos roubos e assaltos que ocorrem no Centro da cidade.
Os poucos habitantes honestos desses primeiros pavimentos escondem-se atrás de grossas grades de ferro, reforçando o aspecto de um presídio às avessas, onde os bandidos estão livres e as pessoas de bem vivem enjauladas. O odor de urina e sujeira dos corredores infétidos provoca náuseas. Quem já entrou em uma cadeia saberá identificar esse cheiro. Há lixo por toda parte, tanto nas áreas comuns quanto nos apartamentos abandonados, cujas portas ficam escancaradas. Em alguns deles existem colchões espalhados pelo chão, utilizados por usuários de craque e outras drogas.
O morador que guiou o jornal em meio à escuridão de um fim de tarde sem luz, fazendo lembrar o roteiro de um trem fantasma, alertou que se evitasse alguns cantos dos corredores em razão da grande infestação de ratos nesses locais. À medida que o tempo passava e a noite chegava a nossa visita ficava cada vez mais desaconselhável. Ao nos depararmos com a porta de um apartamento por cuja fresta vazava a claridade da luz elétrica, o guia, nervoso, mandou, em uma frase, encerrarmos o tour: “Vamos dar o fora daqui!” A luz, de ligação clandestina, indicava, segundo ele, atividade de criminosos no lugar.
O corte da energia, segundo esclarecido em nota pela companhia, foi uma medida preventiva para evitar um incêndio iminente devido às péssimas condições das instalações elétricas do prédio, conforme constatou a reportagem (leia detalhes na página seguinte). Mas, segundo o jornal também apurou, os “gatos” são feitos, em troca do pagamento de uma taxa, por pessoas despreparadas, que se arriscam nos postes da rua, fazendo as ligações clandestinas diretamente da rede elétrica.
O bombeamento da água para os apartamentos também depende dessas ligações ilegais. Com o fornecimento da Águas de Niterói também interrompido, em razão da inadimplência do condomínio, os moradores teriam feito um poço artesiano, segundo informaram, para abastecer o prédio. 
Guerra de facções
Segundo, também, relatos de moradores, pelo menos três facções criminosas estariam estabelecidas em andares diferentes do edifício. Esses pontos no Centro seriam extensões das bases do tráfico na cidade, como nos morros do Estado e do Cavalão. Embora as atividades criminosas tenham sido reduzidas em função da falta de energia, há informações de que os grupos rivais travam uma guerra dentro do prédio, com tiroteios frequentes e assassinatos. Corpos de vítimas dos confrontos seriam retirados de lá em sacos plásticos.
Na terça-feira, dia 2 de abril, policiais da 76ª DP deram uma batida no prédio e prenderam um homem conhecido como Índio por porte ilegal de armas. Ele tinha um revólver calibre 32, além de dois facões, e seria um "estica" no tráfico do Morro do Estado na Amaral Peixoto.
Moradores mais antigos dão conta de mais de 20 mortes criminosas ocorridas no prédio nos últimos anos. Essa contagem viria desde o tempo em que os quatro primeiros andares do edifício eram ocupados por prostíbulos, protegidos por grupos milicianos que foram expulsos há cerca de cinco anos em uma operação coordenada pelo Ministério Público estadual. A prostituição, no entanto, foi substituída pelas facções, que agora aterrorizam os moradores.

As fotos acima foram todas feitas em condições de total escuridão, utilizando apenas luz do flash da câmera. Inscrições como a da foto de baixo, à esquerda, só se revelaram depois, revisadas no computador. O interior do prédio se assemelha a um presídio, sendo que as pessoas de bem ficam trancadas, prisioneiras do medo. Colchões são usados por viciados em apartamentos abandonados

 

Abandono prenuncia a tragédia iminente

Não é preciso ser eletricista para constatar a ameaça representada pelas instalações elétricas do edifício Amaral Peixoto. Fiações expostas e emaranhadas estão por toda parte, mas é no PC de luz, onde se encontram o transformador e os relógios de cada unidade, que se tem a real dimensão do alto risco de incêndio existente ali. Centenas de fios e cabos elétricos mal fixados se cruzam e formam uma teia assustadora.
O alto potencial de um curto-circuito, que seria o estopim de uma tragédia iminente, levou a Enel a suspender no dia 18 de março o fornecimento de luz, após várias notificações à administração do condomínio para que o sistema elétrico interno, de responsabilidade dos consumidores, fosse todo refeito. Em nota, a companhia justificou que inspeções comprovaram “as péssimas condições das instalações elétricas do condomínio, o que representa risco de incêndio, choque elétrico e curto-circuito. O corte de energia é, portanto, medida preventiva para evitar acidentes no local de acordo com a regulamentação”.
A reforma exigida custaria R$ 180 mil, segundo orçamento apresentado pela administração. Sem recursos, o condomínio optou por fazer a obra por partes, andar por andar, ao custo de R$ 7 mil cada etapa. O problema é o tempo necessário para cumprir esse cronograma, que prolongaria a falta de luz – e suas consequências dramáticas - por vários meses. Apenas nos primeiros dias de corte da energia vários dramas pessoais se sucederam, como o prejuízo financeiro e para a saúde de uma portadora de diabetes, que necessita tomar doses diárias de insulina e perdeu todo o estoque da medicação, guardada em geladeira; ou a história do cadeirante que não pode sair mais do apartamento; ou ainda a de um senhor cardíaco, morador do terceiro andar, que teve de ser tirado às escuras, nos braços de vizinhos, após passar mal.
A solução paliativa, segundo a síndica Carina Mansur, seria um gerador de luz, cuja instalação foi solicitada pelo condomínio à Enel. Até agora, porém, o pedido não foi atendido.
 

Elevadores destruídos e a teia de fios no PC de luz dão ideia do abandono do prédio. O corte de energia, segundo a companhia, foi para evitar um incêndio

 

Taxa do "gato" se torna o comércio da escuridão 

Com a energia cortada pela Enel, a prática de um outro comércio ilegal – além do aluguel de apartamentos invadidos geralmente ao preço de R$ 50,00 a R$ 100,00 por semana – ganhou força nos últimos dias dentro do Edifício Amaral Peixoto: a venda de luz clandestina. Segundo relato de moradores, os responsáveis por essas ligações cobram uma taxa de R$ 50,00 para levar energia  aos apartamentos. Isso pode ser constatado da rua, à noite, observando-se a fachada do prédio, onde se destaca uma ou outra janela iluminada em meio à escuridão das demais.
Apesar da fiscalização da companhia, que por mais de uma vez desfez as ligações clandestinas desde o corte da energia, no dia 18 de março, a prática se repete quase diariamente, normalmente à noite. Sem interferência de fiscais aos sábados e domingos, os finais de semana têm sido iluminados para os que se dispõem a pagar a nova taxa de luz.
Essa, no entanto, não pode ser a opção dos comerciantes que ocupam as lojas das galerias e que reclamam por estarem sem luz, mesmo com as contas pagas à Enel. O gerente de uma lanchonete que fica de frente para a avenida mostrou o comprovante em seu celular de uma conta paga, no valor de R$ 2.149,00. No entanto, ele foi forçado a fechar as portas por falta de condições de trabalho. Ao seu lado, uma outra loja preferiu comprar, por cerca de R$ 3 mil, um gerador para poder continuar trabalhando.
Desalentado, o chaveiro Duoston de Souza, de 68 anos – 50 deles passados diante do seu torno mecânico, dentro de uma das galerias do prédio –, relembra saudoso os anos iniciais que passou ali, quando não havia as ilegalidades de hoje e seu negócio lhe dava retorno satisfatório. Ele diz que, atualmente, há dias em que não consegue fazer uma chave sequer e aguarda apenas concluir o processo da sua aposentadoria para deixar o lugar.
- As pessoas não querem mais entrar aqui dentro mesmo com luz. Imagina sem luz – lamenta. – Para mim isso aqui não tem mais esperança.
 

Taxa do "gato" se torna o comércio da escuridão

O condomínio não tem números precisos, mesmo porque existem muitas unidades invadidas e habitadas clandestinamente, mas acredita-se que, dos 385 imóveis existentes ali, cerca de 160 a 200 estejam ainda ocupadas por seus proprietários ou locatários. Mas muitos dos 1.500 moradores estimados não suportam mais a rotina de subir e descer diariamente até 12 andares de escadas, tarefa dificultada ainda mais pela escuridão que tomou conta do prédio.
É o caso de Misnara Souza, que sofre de insuficiência renal e precisa ser submetida a sessões de hemodiálise a cada dois dias. Mesmo habitando na sobreloja, a moradora, que também enfrenta a obesidade, desistiu do vaivém através das escadas lúgubres. Ela agora passa os dias e noites em uma poltrona colocada na calçada, em frente à galeria principal de acesso ao prédio.
Misnara, porém, não está sozinha na calçada. Grupos de moradores se revezam em vigília sob a marquise da Avenida Amaral Peixoto, incorporados ao cotidiano da principal artéria do Centro da cidade. Entre eles, muitos doentes e inválidos, que ali passam as horas, fugindo ao calor e à insalubridade do interior do edifício. Essas vigílias, porém, cumprem uma outra função, além do escape das adversidades internas: funcionam como um plantão de alerta na eventualidade de violência praticada contra moradores e como forma de reação à paralisia provocada pelo medo que o ambiente incute a todos.
Entre os frequentadores do calçadão também estão Mílton Ferreira, morador do quarto andar, que, assim como Misnara, sofre de insuficiência renal, e José Carlos, do quinto andar, que aguarda uma cirurgia para corrigir uma fratura da coluna vertebral. Mais idosa do que eles,  Ângela Maria Pinto, de 69 anos, também passa horas ali, onde os moradores, inertes, se misturam aos transeuntes apressados, contrastando com o entra e sai das agências da Caixa Econômica Federal, de um lado, e do Banco Itaú, do outro.
Olhar perdido na rua movimentada,  Ângela viaja no tempo ao lembrar de quando alugou o apartamento de número 519, aos 19 anos. “Era um lugar muito bom. Tinha vários escritórios de advogados, embora o prédio fosse mais residencial”, relembra. Com sacrifício, mas confiando na valorização do condomínio, ela conseguiu comprar um apartamento, onde mora, no nono andar. Com o passar do tempo, viu chegar a decadência. Seu antigo conjugado, o 519, hoje está invadido, e ela não alimenta mais esperanças de melhora.
- Agora eu só quero ir embora daqui – desabafa.

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Matéria publicada na edição impressa de abril. Leia a versão digital completa em https://joom.ag/T9fa

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