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5G: subalternidade aos EUA ou interesses do Brasil?


Segundo a agência Bloomberg, presidente Jair Bolsonaro cogita banir a Huawei da 5G nacional (Isac Nóbrega/PR)

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, cogita barrar a chinesa Huawei da rede nacional de 5G. Para discutir os desdobramentos dessa possível decisão, a Sputnik Brasil ouviu o pesquisador de Relações Internacionais, Diego Pautasso, que ressaltou a influência de Washington sobre Brasília.

A agência Bloomberg publicou na quinta-feira (15) que o presidente Jair Bolsonaro está cogitando banir a Huawei da futura rede brasileira de 5G, porque vê a China como uma ameaça global à segurança de dados e à soberania brasileira. Segundo a agência, as informações partiram de um importante membro do gabinete presidencial.

A questão da instalação do 5G brasileiro tem sido motivo de ameaças de representantes dos Estados Unidos no Brasil, que seguem a orientação de Washington contra a Huawei e alertam contra "consequências" caso a empresa chinesa implemente sua tecnologia em território brasileiro. Recentemente, representantes da China, a maior parceira comercial brasileira, também deram sinais de que o Brasil pode sofrer pressões de Pequim.

Diego Pautasso, professor do Colégio Militar de Porto Alegre, especialista em Relações Internacionais com foco nos BRICS, acredita que as informações publicadas pela Bloomberg fazem sentido, uma vez que Bolsonaro tem demonstrado "subalternidade" em relação aos desígnios de Washington ao longo de seu governo.

"Acho que é possível que o governo Bolsonaro, dado o alinhamento – e diria até subalternidade – em relação às diretrizes de Washington, venha a proibir a entrada da Huawei no mercado brasileiro, tal como feito por outros aliados dos EUA, notadamente a Grã-Bretanha, Japão e Austrália", afirma o pesquisador em entrevista à Sputnik Brasil.

Pautasso ressalta, porém, que a decisão do Brasil terá um custo e recorda que enquanto a China é responsável por 40% das exportações brasileiras, os EUA não passam de 8% nesse campo. Para ele, "os chineses não aceitarão uma retaliação dessa envergadura sem que isso tenha a sua contraparte diplomática".

Eleições no EUA e 'ilusão' de Bolsonaro

Apesar das pressões e possíveis tendências, Bolsonaro tem afirmado que não tomará decisão sobre o assunto antes dos resultados das eleições presidenciais nos EUA, marcadas para 3 de novembro.

"A questão da reeleição de Donald Trump passa no horizonte diplomático de Brasília, dado que a eleição de Joe Biden pode representar uma mudança de cenário e deixar o governo brasileiro em uma situação problemática. Ou seja, sem o seu aliado preferencial, Donald Trump, e ao mesmo tempo com o litígio diante do seu principal parceiro comercial, que é a China. Talvez esse seja o time [tempo] político que o governo brasileiro esteja dando para que a decisão não tenha custos políticos tão elevados", aponta.

Segundo a publicação da Bloomberg, o membro do gabinete de Bolsonaro acredita que uma eventual retaliação chinesa é improvável, pois a China depende da importação de produtos agrícolas brasileiros. Para Pautasso, essa posição não passa de ilusão.

"O comércio internacional está baseado em um grau alto de interdependência, mesmo as grandes potências dependem de mercados externos, dependem de insumos, dependem de matérias-primas, e mesmo de fluxo de capitais e de tecnologia. Agora supor que a dependência chinesa em relação aos produtos alimentícios e recursos naturais brasileiros seja maior do que a dependência brasileira das importações chinesas, dos investimentos internacionais chineses e mesmo das exportações de manufaturados é uma demasiada ilusão da correlação de forças", avalia o pesquisador especializado nos BRICS.

Para o professor Pautasso, hoje não há dúvidas da importância da avaliação de tecnologias como o 5G sob o ponto de vista da segurança nacional, tendo em vista os diversos escândalos recentes envolvendo espionagem e uso de dados para fins políticos. À Bloomberg, o Ministério das Comunicações brasileiro alegou exatamente que as escolhas do país sobre o 5G são questões de segurança nacional. Apesar disso, o pesquisador aponta que pairam dúvidas sobre os reais interesses por trás da posição brasileira.

"Me parece óbvio que tecnologias estratégicas tenham importância e grande envergadura para a cena geopolítica. Agora resta saber se o Brasil estaria retaliando a Huawei em defesa dos seus interesses estratégicos ou simplesmente submetido a uma lógica que na verdade é irradiada de Washington e não de Brasília", conclui.

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