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Aldir Blanc, a pandemia e o pandemônio

EDITORIAL


Por Luiz Augusto Erthal

Esta segunda-feira começou, como vêm se repetindo os dias, no encadeamento interminável da crise humanitária que no Brasil assume dimensões ainda mais dramáticas pela associação da pandemia ao pandemônio.

Na sequência do ato fascista de domingo, em frente ao Palácio do Planalto, cujo ocupante fez questão de apoiá-lo pessoalmente, Bolsonaro assina, manda publicar em edição extra do Diário Oficial e efetiva com o ato de posse - tudo no espaço de uma hora, na manhã de segunda-feira - a nomeação do novo diretor geral da Polícia Federal. O nome dele não importa muito. É apenas a extensão de Alexandre Ramagem, amigo pessoal da família Bolsonaro, cuja posse nesse mesmo cargo foi impedida, por uma questão de moralidade pública, pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas o show obsceno de domingo, com direito a agressões a jornalistas e palavras de ordem pelo fechamento do Congresso e do STF, teria, ainda, outros desdobramentos, desencadeados pelas bravatas de Bolsonaro, com ameaças veladas à Constituição e à ordem institucional. O pretenso ditador de Rio das Pedras se proclamava ungido pelas Força Armadas para fazer o que bem entendesse e ganhou, também pela manhã, um alto lá do Ministro da Defesa, que afiançou em nota oficial a lealdade dos militares à Constituição e à democracia.

Mas ainda nesta manhã de segunda-feira um elo mais pungente dessa corrente louca, completamente inconcebível para os bêbados sob o viaduto, se rompeu como a corda da equilibrista, deixando-nos a todos em queda livre, como em um sonho angustiante, daqueles em que ficamos aguardando a hora em que iremos nos espatifar no chão.

Pela manhã - splacht! - soubemos que Aldir Blanc morreu, vítima da Covid-19. Ou melhor, vítima do genocídio que assola o povo brasileiro. Nas estatísticas oficiais, era mais um dos 7 mil mortos, até então, desse pesadelo; mas, nos nossos corações, era um ícone da nossa geração, que lutamos contra a ditadura de 64 e reconquistamos a liberdade, a esperança e a certeza - Deus, até bem pouco tínhamos essa certeza! - de que havíamos também sepultado o fantasma do autoritarismo no nosso país.

Ainda de manhã, conversando - como fazemos quase diariamente - com os jornalistas Eucimar Oliveira e Vanderlei Borges, meus camaradas e amigos de uma vida inteira, fui alertado sobre a necessidade de o TODA PALAVRA fazer uma justa homenagem ao Aldir. Concordei e disse que já estávamos providenciando para que a música “O bêbado e a equilibrista” - hino da luta pela Anistia - fosse tocada na capa do portal do jornal, cada vez que a página fosse carregada, e que publicaríamos um obituário do Aldir, como fizemos.

Mas erramos no peso e peço desculpas, aqui, a todos os nossos leitores.

Aldir merecia mais do que o obituário padrão que publicamos, mais do que uma de suas 500 músicas tocando no site, mais do que as declarações do seu parceiro de toda vida João Bosco, que também publicamos, mais do que a nota do Ministro da Defesa, mais do que a nomeação do diretor sem nome da Polícia Federal. Ele merecia a primeira página inteira e um obituário que não tivemos a coragem de escrever porque nos dói voltar ao passado e perceber que podemos estar fracassando na missão, que julgávamos realizada, de reconquistar a democracia para o nosso país.

Aldir merecia a primeira página inteira também porque não foi derrotado só por um vírus, mas por um governo cruel, genocida, que abandona o seu povo à própria sorte deliberadamente e potencializa os efeitos funestos dessa doença, renegando a ciência, sonegando a assistência oportuna, conclamando oficialmente a população a transgredir a única recomendação capaz de frear a mortandade - o isolamento social - preconizada pela Organização Mundial da Saúde.

Maior tem sido o custo do pandemônio bolsonarista do que da pandemia de coronavírus em nosso país. Sendo assim, Aldir não é vítima. É mártir. Assim como o são os milhares de brasileiros mortos. Mártires cujas vidas ajudarão a deter, pelo preço da própria tragédia nacional, a loucura daqueles que dão de ombros e dizem “e daí?”, os quais devemos denunciar a cada dia, sem trégua e sem medo.


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