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As redações sob o ataque do coronavírus

Rafael Moro Martins

Editor Contribuinte Sênior do The Intercept Brasil


Em meio às notícias sobre o impacto do novo coronavírus das últimas semanas, tem um punhado que imagino que passaram batidas por vocês, mas que apontam para um cenário muito ruim para a democracia dos próximos anos.

Vou resumir aqui:

.  o BuzzFeed Brasil pode fechar as portas por falta de dinheiro para manter sua operação.

. Nos EUA, a matriz do Buzzfeed cortou salários para evitar demissões.

. Emissoras com foco em esportes como ESPN norte-americana estão pedindo a jornalistas que abram mão de parte da remuneração. . Por aqui, a rádio Bandeirantes, de São Paulo, suspendeu o contrato de seus comentaristas.

. A Abril, que já foi um dos maiores grupos de mídia do país antes de mergulhar em crise profunda, projeta que a pandemia irá dificultar a saída do atoleiro.

. As empresas de comunicação sediadas em São Paulo (as maiores do país, aí incluídos jornais como Folha, Estadão, Valor Econômico e as editoras Globo, Condé Nast e Caras) podem cortar os salários dos jornalistas em até 70%

A crise das empresas de mídia não é uma novidade que chegou com a pandemia. Ela começou há quase duas décadas, após o estouro da bolha da internet, e se aprofundou à medida que Facebook e Google ganharam força.

Você está lendo essa newsletter num e-mail, possivelmente fornecido pelo Google ou um de seus concorrentes menores, como o Yahoo!. No dia-a-dia, a maioria de nós se habituou a chegar a informações clicando em links no Facebook, no WhatsApp e no Instagram (todos eles de Mark Zuckerberg) ou seguindo indicações do Google ou do Twitter. Os gigantes do mundo virtual se tornaram um novo elo no caminho entre as empresas de mídia e seu público. E, como todo atravessador, mordem parte do dinheiro.

Os anúncios impressos que abarrotavam os cofres das editoras na exata proporção em que engordavam jornais de domingo e revistas semanais viraram fumaça (e com isso parte das publicações vem abandonando o papel na esperança de adiar o próprio fim). Hoje, até os sites de jornalões veiculam publicidade do Google. Que fica com boa parte do lucro.

A crise econômica decorrente do coronavírus – a mais grave desde a recessão pós-1929 – pode ter o efeito de uma bomba nuclear sobre um adversário já exaurido. A quebradeira não vai afetar só a mídia, claro. Mas quem já vinha se segurando como podia vai aguentar um tombo desses?

É aí que entra o risco à democracia. É mais fácil para um governo antidemocrático como de Jair Bolsonaro dobrar empresas de mídia em dificuldades financeiras. Um dos heróis dele, o húngaro Viktor Orbán, asfixiou os jornais independentes, que cobriam o governo com altivez. Em seguida, partidários do ditador os compraram. Para alinhá-los ao governo ou, simplesmente, fechá-los.

Bolsonaro odeia a imprensa. Odeia jornalistas porque eles não dizem o que ele quer. A crise pode ser a oportunidade para que gente como ele consiga que façam isso. Ou que simplesmente deixem de falar, por falta de condições de sobreviverem. Não é um problema unicamente brasileiro. Trump pensa igual – e não é burro como Bolsonaro. Há centenas de políticos assim mundo afora, sonhando com jornalistas e empresas de jornalismo fracos o suficiente a ponto de só conseguirem dizer amém.

Desde que chegou ao poder que Bolsonaro trabalha para enfraquecer o jornalismo brasileiro. O tosco secretário de Comunicação Fábio Wajngarten está irrigando os cofres de grupos de mídia alinhados – Record, SBT, CNN, Rede TV! Mas nem eles têm vida fácil: a Record, braço midiático da Igreja Universal do bispo Edir Macedo, pediu para a justiça suspender os pagamentos que deve em acordos trabalhistas.

Jornais, tevês, sites e jornalismo têm problemas? Claro! Mesmo as publicações das empresas sérias têm erros. Às vezes, avaliamos mal os caminhos a seguir – o exemplo da cobertura estilo fã-clube da Lava Jato é emblemático. 

Mas o mundo seria melhor sem jornalismo? Onde estaríamos acompanhando diariamente informações sobre a crise do coronavírus, o avanço da pandemia, as medidas necessárias para contê-la? Ainda: a crise de 1929 foi seguida pela ascensão do nazi-fascismo. E agora, como será o mundo pós-crise do coronavírus? É melhor vê-lo e tentar entendê-lo pelo filtro do jornalismo corajoso ou pelo discurso oficial?

O coronavírus pode causar um massacre também na imprensa. Mais um massacre que Bolsonaro quer comemorar.


The Intercept Brasil

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