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Sociólogo vê negação e servilismo na fala de Bolsonaro


Mal na fita: Jair Bolsonaro grava vídeo do discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU (Marcos Corrêa/PR)

Por Denis Kuck

Discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), realizada nesta terça-feira (22), é "negação da realidade" e "alinhamento servil" aos EUA, disse sociólogo à Sputnik Brasil.

Como manda a tradição, o chefe de Estado brasileiro abriu a conferência, que neste ano ocorreu remotamente devido à pandemia da Covid-19. Em sua fala, Bolsonaro disse que o Brasil é "vítima de de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”.

Segundo o presidente, a região é "sabidamente riquíssima", o que "explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil". Dados recentes apontam níveis recordes de queimadas e desmatamento na Amazônia e no Pantanal.

Para Marcelo Seráfico, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o discurso de Bolsonaro na ONU "reitera as duas linhas de argumento fundantes de sua prática política".

"De um lado, a fuga do trato objetivo dos problemas vividos pelo país, que vão da devastação ambiental, passam pela crise econômica e chegam à crise sanitária. De outro lado, essa simples e direta negação da realidade é acompanhada da reiteração da defesa de uma religiosidade cínica, de uma política econômica que só beneficia grandes empresas, o setor financeiro e o agronegócio, e de um alinhamento servil do país à política externa do governo norte-americana", explicou o sociólogo.

Escalada do conflito com Venezuela

Em sua fala, Bolsonaro disse ainda que seu governo, com medidas econômicas, tinha evitado um "mal maior' durante a pandemia do coronavírus. Ele lamentou as mortes provocadas pela doença e criticou o isolamento social, afirmando que a imprensa "politizou o vírus" e a campanha para a população ficar em casa quase trouxe "caos social".

Ao final do discurso, o presidente fez "apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia".

Para o cientista político Danillo Bragança, pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), um ponto marcante do discurso foi a referência à Venezuela, o que indica que o conflito com o país vizinho "está escalando novamente".

"Além disso, a presença no Brasil do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, caiu muito mal na região. Esses fatores apontam para um reaquecimento dos discursos contra a Venezuela", disse Bragança, que é especialista em segurança e assuntos militares, à Sputnik Brasil.

Bolsonaro acusou o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelo derramamento de óleo na costa brasileira no ano passado.

'Alinhamento grosseiro e primário' aos EUA

Segundo Marcial Suarez, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), o elogio do presidente ao plano elaborado pelos Estados Unidos para o conflito entre Israel Palestina, assim como à mediação norte-americana de acordos entre Israel e alguns países árabes, demonstra fragilidade da política externa brasileira.

"O alinhamento brasileiro à política externa estadunidense é grosseira e primária, ao ponto de Bolsonaro elogiar um acordo de paz sobre a questão palestina, e pasmem novamente, que não contou com a participação da comunidade palestina, mas com países alinhados aos Estados Unidos, como Emirados Árabes, Israel e Bahrein", afirmou o especialista à Sputnik Brasil.

'Mundo fantasioso e persecutório'

Suarez disse ainda que, no plano interno, "ficamos reféns de afirmações no mínimo difíceis de justificar".

Citando a hidroxicloroquina, Bolsonaro disse na ONU que "não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência". Além disso, afirmou que o "insumo da produção" do medicamento tinha sofrido um "reajuste de 500% no início da pandemia".

Sobre os incêndios na Amazônia, argumentou que a "floresta é úmida e não permite propagação do fogo em seu interior". Segundo Bolsonaro, as queimadas são iniciadas no "entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas".

"Desde a hidroxicloroquina até a afirmação de que os índios e caboclos são os responsáveis pelas queimadas em áreas já desflorestadas. A tônica dos discursos do presidente, infelizmente, parece se manter inalterada, variando entre um impressão distorcida dos fatos e uma defesa naturalmente errada de um mundo fantasioso e persecutório. Nessa caminhada tortuosa, o Brasil deixa de ser um ator protagonista no cenário internacional para ocupar uma posição de vassalagem em relação à agenda estadunidense", opinou o professor.

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