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Che: o mundo precisaria de um líder assim, hoje?


Em 14 de junho de 2020, Ernesto Guevara de la Serna, o revolucionário nascido na Argentina, médico, escritor, estrategista e companheiro de luta de Fidel Castro, faria 92 anos.

Heinz Dieterich, sociólogo alemão radicado no México e Gonzalo Fiore Viani, analista político argentino, analisaram para a Sputnik International o fenômeno Che e o significado de seu legado para a América Latina e para o mundo.

Não seria exagero dizer que no século XX, Che se tornou um ícone revolucionário global, continuando no século XXI a suscitar admiração e crítica, não deixando ninguém indiferente.

Admirado e odiado

"Desde os tempos antigos, os homens admiram os heróis, pessoas cujas ações transcendem as do ser humano comum: na coragem, nas conquistas, nas ideias nobres e na disposição de sacrificar suas vidas por seus ideais e valores. Quando um herói morre defendendo sua causa ou uma causa do povo, ele se torna imortal, um mártir. Ou, como se diz hoje, um ícone", afirmou Dietrich, que foi ex-conselheiro de Hugo Chávez.

Segundo Dieterich, este é realmente o caso de Che Guevara, que morreu tentando transformar a América Latina "em um subcontinente democrático, próspero e pacífico para o povo".

Gonzalo Fiore Viani concorda, referindo que "uma das coisas que tornam Che Guevara tão especial é que ele lutou e morreu por seus ideais".

"Mesmo tendo já alcançado o poder em Cuba, decidiu partir, indo primeiro para o Congo e depois para a Bolívia, com o objetivo de fazer uma revolução em todo o mundo", observa Viani, para quem a morte precoce de Che e o fato de a ter enfrentado com grande dignidade também contribuiu para sua lendária imagem.

Embora reverenciado por seus apoiadores, Che é vilipendiado com a mesma intensidade por seus antagonistas.

O historiador britânico Nigel Jones o apelidou de "assassino esquálido e totalitário tirano que permanece o emblema icônico dos idealistas ignorantes de todo o mundo", lamentando de seguida que ainda hoje seja visto como um herói.

Viani relembra que seus compatriotas argentinos de direita o demonizam, por ser um símbolo do movimento de esquerda e guerrilheiro do final dos anos 60 e inícios de 70 no país.

Isso não surpreende Dieterich, para quem "a demonização e assassinato deste homem pelas classes dominantes era inevitável, como foi inevitável com Jesus, Gandhi, Malcolm X e assim por diante".

Como um médico se transformou em líder guerrilheiro?

Nascido em uma família argentina de classe média de origem hispano-irlandesa, ele provavelmente teria sido um bom médico, embora sua saúde precária pudesse ter lhe imposto certas limitações de atividade. No entanto, escolheu um destino completamente diferente.

"Além das influências socialistas de sua família, particularmente de sua avó [e pai comunista], houve quatro experiências de vida fundamentais que converteram Che no revolucionário lutador pela liberdade tal como o conhecemos", explica Dieterich:

primeiro, o fato de sofrer de asma, que o importunava desde a infância, e que o tornou sensível ao sofrimento de outras pessoas. Por isso, ele havia parado de estudar engenharia, optando por seguir a carreira médica;

segundo, sua famosa viagem de motocicleta da Argentina ao México, em 1953, que lhe revelou as terríveis injustiças, o racismo, a desigualdade e o chauvinismo, que haviam convertido a América Latina em uma distopia controlada por capitalistas, proprietários de terras semifeudais e corporações multinacionais, em meio ao domínio sempre presente dos Estados Unidos; terceiro, o golpe contrarrevolucionário da CIA contra o governo guatemalteco social-democrata moderadamente reformista do coronel Arbenz, em 1954, e que mostrou em primeira mão a Guevara que todos os países da América Latina eram no fundo, "repúblicas da banana", controladas pelos EUA; finalmente, quando trabalhava em um hospital público na Cidade do México como médico especialista, conheceu dois exilados cubanos, primeiro Raul e depois Fidel Castro. Ele aceitou o convite de Fidel para se tornar o médico da planeada expedição guerrilheira a Cuba, tendo mesmo sido nomeado comandante de uma nova coluna de guerrilheiros, de tal forma ficou Castro impressionado por suas qualidades.


Che Guevara (Foto/ Museu Che Guevara, em Havana/Perfecto Romero/Domínio público)

Presença de Che ainda é sentida em Santa Clara

De acordo com Viani, podemos afirmar que Che "é mais amado em Cuba do que na Argentina".

"Em Cuba ele é representado quase como um santo e, mesmo não tendo nascido lá, foi adotado como cubano", disse Viani.

Por isso, "ele é considerado, junto com José Martí e Fidel Castro, como um dos pais fundadores da nação. Ele é ainda mais amado do que Castro porque Che morreu jovem e não teve nenhuma responsabilidade em alguns dos fracassos posteriores e contratempos econômicos da revolução", defendeu Viani.

Recordando suas observações pessoais, Viani observa que a presença de Che pode ser sentida em todos os cantos da ilha, mas especialmente na cidade de Santa Clara, "lugar onde ocorreu sua mais famosa batalha contra a ditadura de Batista".

"Seus restos mortais estão na cidade, no Mausoléu Che Guevara, e as pessoas de lá contam histórias sobre a época em que seus pais o ajudaram ou quando o viram caminhar pelas ruas da cidade", destacou.

Inquestionavelmente, a luta e a imagem de Che influenciaram grandes movimentos revolucionários em todo o mundo no século XX.

"O impacto de Che, por exemplo, não pode ser separado da guerra do Vietnã", observa Dieterich, acrescentando que "ele inspirou movimentos estudantis e de protesto em todo o mundo, juntamente com o Partido Pantera Negra nos EUA, o movimento de libertação das mulheres, o movimento de direitos civis e as guerras de libertação nacional na Indochina".

Resumindo, "Che foi a personificação de um jovem rebelde lutando contra uma velha ordem petrificada, em uma missão histórica de criação de um 'homem novo' em uma nova sociedade socialista", explica o sociólogo, acrescentando que o legado do comandante também teve impacto nos jovens da contracultura dos anos 60, sendo o que Jim Morrison foi na guerra cultural e Malcolm X e Martin Luther King na guerra política contra o sistema capitalista.

Apesar de admitir que Che ainda é admirado em alguns setores, Dieterich observa que agora, época das redes sociais, o revolucionário já não influencia mais as massas como no século passado.

"Será que o mundo precisa de líderes políticos carismáticos hoje? Sim, mais do que nunca", afirmou Dieterich.

"Com o capitalismo atual gerando um ambiente global cada vez mais caótico e social-darwinista, líderes com ideais humanitários e valores sólidos são mais necessários do que nunca. Eu acho que as figuras políticas mais carismáticas hoje são Xi Jinping e Vladimir Putin, já que Fidel Castro, Nelson Mandela e Hugo Chávez se foram", concluiu o sociólogo.


Fonte: Sputnik

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