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Em campo, os pernas de pau da política

Atualizado: Jun 21


O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, com Jair Bolsonaro (Foto: Carolina Antunes/PR)

Por Luiz Augusto Erthal


A história não é nova. Sempre que governantes precisam dos holofotes do povo o futebol se vê transformado em um jogo de interesses arbitrados pelos instintos políticos. Foi assim durante os anos de chumbo, quando o ditador-presidente Emílio Garrastazu Médici, declaradamente flamenguista e gremista, comparecia à tribuna de honra do Maracanã de radinho de pilha colado ao ouvido, como qualquer torcedor da geral, enquanto carrascos torturavam e matavam nos porões da ditadura.

Eram tempos sombrios que desencorajavam qualquer manifestação pública contrária. Hoje, quando o Brasil, com mais de um milhão de contaminados e quase cerca de 50 mil mortos, assume o epicentro da pandemia mundial de coronavírus e o Rio de Janeiro se torna um dos lugares mais pestilentos do planeta, o presidente Jair Bolsonaro e o prefeito carioca Marcelo Crivella recorrem novamente ao futebol como uma cortina de fumaça que os separe da tragédia em curso. Mas, com as masmorras fechadas, eles o fazem mantendo uma segura distância do povo, que nem aos estádios pode comparecer.

Como em uma tabelinha entre pernas de pau, eles invadem a área do futebol – em especial o carioca – de forma desengonçada. De um lado do ataque está o prefeito, um César dos tempos modernos que se acha o dono dos jogos e determina que comecem – como fez no início da semana – ou terminem – como determinou neste sábado (19) – sem um mínimo de coerência científica ou respeito pela gravidade da situação vivida em sua cidade. Muito menos pelos profissionais envolvidos e pelos saudosos torcedores.

Tabelando do outro lado do ataque está Jair Bolsonaro, que, a exemplo dos generais-ditadores – cujas patentes inglórias ele jamais alcançará –, tem se apropriado em diversas ocasiões do manto sagrado rubro-negro em toscas demonstrações de populismo barato. Sem poder se assenhorar de instituições como o Flamengo, que só podem existir no coração do povo, ele consegue cooptar facilmente o presidente do clube, Rodolfo Landim, para uma vendeta pessoal.

Por trás da Medida Provisória 984, que altera a Lei Pelé e transfere para os mandantes dos jogos a autonomia para negociar os direitos de transmissão – preciosíssimos em tempos em que só se admite futebol com portões fechados – está o desejo de Bolsonaro de frustrar as negociações comerciais da TV Globo, cujo jornalismo vem fustigando sem tréguas o seu governo na condução desastrosa da política sanitária contra a epidemia de coronavírus e as posições antidemocráticas dele e de seus apoiadores, que pregam a volta da ditadura e o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

Bolsonaro manobra os dirigentes de Flamengo e Vasco, duas grandes forças do futebol brasileiro, que apoiam isoladamente sua decisão unilateral na redação da MP que altera a Lei Pelé, mas não detém poderes imperiais, como o decidir com o polegar sobre a vida ou a morte, como os antigos Césares. A TV Globo acionou seus advogados para fazer valer os direitos adquiridos em contratos previamente firmados, colocando a realização de partidas de futebol sob forte insegurança jurídica.Por outro lado, clubes do Brasil inteiro estão se unindo de forma inédita contra a invasão de campo da política. No Rio, Fluminense e Botafogo, dois bastiões em defesa da vida, mantêm a firme posição de se opor à volta do futebol enquanto as ameaças do coronavírus permanecerem presentes na sociedade brasileira. Mas também pelo país afora clubes se unem contra a intervenção política no futebol, a ponto de Grêmio e Internacional, dois radicais adversários, fecharem uma inusitada aliança contra a MP de Bolsonaro.

São as defesas robustas do futebol brasileiro dispostas a deter o ataque dos pernas de pau.

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