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Epidemiologista diz que 'vírus Bolsonaro é mais grave que coronavírus'

Por Luiz Augusto Erthal


Eduardo Costa é doutor em epidemiologia

“O vírus Bolsonaro é mais grave que o coronavírus e vai continuar matando gente mesmo depois que a epidemia passar”. A afirmação, feita em entrevista exclusiva ao TODA PALAVRA, é do médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Costa, que identifica no atual governo uma letalidade - gerada por uma política econômica anti social e pela eliminação de direitos trabalhistas - potencialmente maior do que as trágicas consequências imediatas do coronavírus.

A troca de ministros da Saúde - nesta sexta-feira (15) o ministro Nelson Teich pediu demissão, 28 dias após suceder o ministro Luiz Henrique Mandetta - não seria algo em si extraordinário, segundo ele, sendo comum mais de um ou mesmo dois ocupantes passarem pelo cargo em um mesmo governo.

O fato “inédito”, no seu entender, é que essas mudanças tenham acontecido no auge de uma epidemia, dentro de um espaço inferior a 30 dias e pela insólita razão de um presidente da República, que não é médico, querer impor aos dois ministros a prescrição de um medicamento - a cloroquina - cuja eficácia não foi sequer comprovada.

“Essas coisas costumam acontecer [pedidos estranhos de um presidente a ministros] no escurinho do cinema. O caso é que nós temos um presidente aloprado”, exclamou Eduardo Costa, respeitado tanto pelas pesquisas nas suas especialidades afins como também como gestor público de saúde, que ocupou por duas vezes o cargo de secretário estadual de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, nos governos de Leonel Brizola, e foi o titular da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde, no governo Dilma.

Mestre em saúde pública e doutor em epidemiologia pela Universidade de Londres, Eduardo Costa atuou como consultor, a convite da Organização Mundial da Saúde (OMS), voltado à implementação de vigilância epidemiológica e do programa de erradicação da varíola na Índia, em 1973.


Eduardo Costa elogiou os centros de quarentena criados em Niterói pelo prefeito Rodrigo Neves em dois Cieps

Combater com inteligência - o caso Niterói

Na situação vivida hoje pelo Brasil - no patamar de 200 mil casos confirmados e 15 mil óbitos causados pela covid-19 - ele preconiza uma ação que vá além do simples isolamento social, baseada na inteligência. “É preciso acompanhar, monitorar e tomar as atitudes necessárias onde elas sejam exigidas, sobretudo em um país com tantas diferenças regionais e das dimensões do Brasil. É o que chamamos de vigilância epidemiológica” defende.

“O confinamento, ou lockdown, simplesmente, é apenas punição. É preciso conversar com as comunidades e conhecer suas necessidades específicas”, recomenda, comparando o combate à epidemia a uma campanha de vacinação:

"Os dois métodos - vacina e distanciamento - separam as pessoas por meios distintos. Ambos diminuem a possibilidade de uma pessoa infectada transmitir para outras. A vacina porque, ao cria uma barreira imunitária, inviabilizando a transmissão. O isolamento, afastando as pessoas uma das outras e, assim, impedindo a transmissão."

Eduardo Costa cita a cidade de Niterói como um exemplo de ação sanitária eficiente, baseada em estratégia e inteligência. Ele elogiou a iniciativa do prefeito Rodrigo Neves (PDT), por exemplo, de criar, no espaço de dois Cieps, centros de quarentena para pessoas infectadas - sobretudo moradores de favelas e casas precárias - que não possam se isolar no seu próprio ambiente, sob risco de contaminar os demais.

Ministério da Saúde sem protagonismo

No entanto, a inexistência de uma coordenação diretiva a nível nacional impede, no seu entender, o desenvolvimento de ações coordenadas. “O Ministério da Saúde perdeu o protagonismo e não tem condições mais de coordenar nada”, lamenta.

De formação política trabalhista, ele atribui à ausência de um projeto nacional-desenvolvimentista para o Brasil atual a incapacidade do país de produzir, por exemplo, respiradores e principalmente testes contra o coronavírus, ficando na dependência da importação desses produtos. Ele questiona, ainda, decisões que considera desproporcionais, como a compra, anunciada antes de sair por Nelson Teich, de 48 milhões de testes.

“Para quê? A Coreia do Sul, que tem uma população em torno de 50 milhões de pessoas, mapeou o país aplicando 200 mil testes. Aqui, com cinco milhões de testes já teríamos condições de conhecer o desenvolvimento da epidemia”, argumenta.

Porém, diante da incapacidade do Ministério da Saúde de coordenar as ações de combate à epidemia, resta, segundo ele, esperar que estados e municípios sejam eficientes em suas ações pontuais.


No mundo inteiro, durante a pandemia de Gripe Espanhola, máscaras passaram a fazer parte do vestuário

Epidemia pode derrubar governo

Eduardo Costa diz que tem dedicado seus dias em isolamento social para estudar mais a fundo a epidemia da Gripe Espanhola, que assolou o mundo nos anos 10 e 20 do século passado. E a lição mais imediata é de que “epidemias e instabilidade política caminham juntas”, sendo inevitável que o país saia diferente ao final do surto. “Acho que esse governo não tem como sobreviver”, opina.

Venceslau Brás: carreira política encerrada pela epidemia

Segundo ele, a epidemia da Gripe Espanhola deixou seus legados. No campo político, sepultou a carreira do então presidente, Venceslau Brás, que não voltou mais a se eleger. Na medicina, Eduardo Costa diz que o grande aumento de doenças cardiovasculares nos anos 40 e 50 é atribuído por muitos pesquisadores a sequelas provocadas pela Gripe Espanhola.

“Mas também houve um legado positivo”, argumenta. “Durante a I Guerra Mundial, quando a epidemia se espalhou pelos campos de batalha, descobriram que o quinino - medicamento usado no combate à malária - exercia um efeito antitérmico sobre os pacientes e pensaram que poderia curar a doença, assim como alguns pensam hoje em relação à cloroquina. Não curava nada, assim como a cloroquina, mas disso decorreu, por decreto do presidente Venceslau Brás, a criação do Departamento de Produção de Medicamentos, dedicado principalmente à produção do quinino e que veio a se transformar nos dias de hoje na Farmanguinhos. Nos fundos do castelo do Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, no Rio, tem uma ala que ainda hoje é conhecida como o “prédio do quinino”, por conta dessa história.”

Eduardo Costa, que também foi assessor tecnológico da Presidência da Fiocruz e coordenador-geral do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde, ligado àquela instituição, além de diretor da própria Farmanguinhos, espera que algum legado positivo também fique depois de passada a pandemia do coronavírus, como a criação de uma carreira única para os profissionais de saúde, “que estão morrendo aqui mais do que em qualquer outro lugar”.


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