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Fiocruz: sem vacina, "abre e fecha" será rotina


(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O movimento de reabertura de diversos setores da economia no Brasil em um momento em que a Covid-19 não dá sinais de arrefecimento deve tornar o "abre e fecha, fecha e abre" uma rotina do Oiapoque ao Chuí, segundo uma pesquisadora ouvida pela Sputnik Brasil.

Desde o início da pandemia, houve divergências entre municípios, estados e a União sobre como lidar com a chegada do novo coronavírus ao país. E a politização da doença, somada a uma falta de uma coordenação organizada, ajudam a explicar o atual momento.

Em entrevista à Sputnik Brasil, a médica pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, Margareth Dalcolmo, avaliou que apenas no período em que Luiz Henrique Mandetta conduzia o Ministério da Saúde, é que houve uma tentativa de organizar as medidas e ações.

"Chegamos a fazer parte de um grupo de assessores na gestão do ministro Mandetta e isto se dissipou depois que o ministro saiu do Ministério da Saúde, de modo que sem dúvida nenhuma fez falta no Brasil essa coordenação harmônica entre todos os Poderes e a comunidade cientifica, a sociedade médica no sentido de prover informações claras à sociedade civil, sem divergências, sem parecer que não haja um consenso entre as recomendações feitas pelo país", disse a especialista.

De um lado, governadores em sua maioria faziam um discurso favorável ao isolamento social, a fim de achatar a curva de expansão do vírus, com orientações claras quanto ao uso de máscaras e álcool em gel. De outro, o presidente Jair Bolsonaro contrariou médicos e acadêmicos, ora não usando máscara, ora provocando aglomerações.

A pneumologista ouvida pela Sputnik Brasil reconheceu que isso causou uma confusão, fazendo com que a sociedade civil recebesse "informações paradoxais de diversas vozes e inclusive do governo federal, totalmente divergentes daquelas informações que nós médicos e a comunidade cientifica vêm prestando".

Vacina e o 'novo normal'

Centenas de vacinas para a Covid-19 estão sendo testadas e produzidas – algumas com testagem em humanos já em andamento. No Brasil, enquanto a acadêmica e políticos trabalham junto a instituições como a Universidade de Oxford, ou um conhecido fabricante da China, os especialistas alertam: pensar que a vacina estará disponível neste ano é ilusão.

De acordo com Margareth Dalcolmo, o novo coronavírus ficará entre nós por bastante tempo ainda. Além de não crer na vacina em 2020, a pesquisadora da Fiocruz afirmou não crer em uma segunda onda. O que ela vê como "novo normal" e o já conhecido "abre e fecha", quando determinados setores da economia acabam fechando ou abrindo de uma semana para outra.

"A vacina é um projeto para o ano que vem, não é para este momento epidêmico. A epidemia é extremamente heterogênea no país, não creio que haverá segunda onda, não há nada que demonstre, [seja] nos países que nos antecederam ou em outros lugares do mundo em que a questão epidemiológica esteja sendo bem controlada", explicou.

"No entanto, no Brasil nós viveremos, a meu juízo, muito tempo ainda com esse abre e fecha, fecha abre das medidas administrativas locais, dado a heterogeneidade da epidemia no país e das medidas também não serem homogêneas em todos os locais, de modo que a minha impressão é de que ainda teremos esse segundo semestre do ano de 2020 com muito problema em todo o Brasil", acrescentou a pneumologista.

O atual momento de reabertura heterogênea pelo país requer, segundo a especialista, uma organização logística. Porém, não se trata apenas de esquemas que envolvam o funcionamento do comércio ou o transporte de insumos. Para Margareth Dalcolmo, é preciso "uma abertura digamos filosófica das pessoas, dos empresários, das universidades, das escolas, de todos os setores que congregam muitas pessoas".

Diante dos mais de 70 mil mortos e da aproximação dos dois milhões de infectados, a especialista ressaltou que o Brasil deve manter os cuidados coletivos, mesmo com a reabertura de vários espaços controversos. Além disso, ela sugere que a ciência e a academia sigam com o seu trabalho, pois há muito o que se descobrir sobre a Covid-19 em terras brasileiras.

"Acho, portanto, que o Brasil poderia neste momento fazer uma revisão conceitual dos procedimentos tomados até hoje, dar continuidade aos estudos epidemiológicos que já estão em curso e que determinam qual é o percentual da nossa população nas diferentes localidades que já foi infectado, que já desenvolveu algum grau de imunidade, mas não sabemos por quanto tempo e, portanto, determinar ou estimar o percentual de população que permanece no estágio que nós chamamos de ser suscetível", concluiu.


Fonte: Sputnik Brasil

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