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Guedes debocha de pobres em comentário sobre arroz


Com os estoques de arroz em baixa devido ao abandono da política de estoques reguladores pelo governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira (15) que "o preço do arroz está subindo porque eles [os pobres] estão comprando mais - está todo mundo comprando mais".

“Os mais pobres estão comprando, estão indo no supermercado, estão comprando material de construção. Então, na verdade, isso é um sinal de que eles estão melhorando a condição de vida”, afirmou Guedes, afirmando que houve uma “enxurrada de dinheiro” paga a famílias de baixa renda durante a pandemia.

No ano, a inflação do arroz acumula alta de 19,25% em 2020 de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mas os aumentos chegam a ser superiores a 50% nos supermercados.

O discurso de Guedes não é único no governo. Cada ministro tem uma versão para justificar o aumento de preços de itens da cesta básica. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou segunda-feira (14) que se trata de um "problema pontual". O próprio Guedes contemporizou a sua fala, enquanto atribuía aos pobres a disparada do preço do arroz, dizendo que "além isso, tem as exportações e subiu o dólar também”. Ou seja, o ministro admite, sem querer admitir, que a escassez do produto e a alta do preço se devem (também) à gula dos empresários do agronegócio que estão aproveitando a alta do dólar e a falta de regulação governamental para exportar mais arroz e faturar mais em dólares.

A prática de estoques reguladores é política econômica que beneficia o consumidor, mas não o produtor, porque os estoques impedem altas especulativas ou desequilíbrios de oferta.

Desmonte

A inflação de alimentos é uma das sequelas da demolição institucional promovida pelo presidente Jair Bolsonaro deste o seu primeiro dia de governo. Um de seus primeiros atos foi a publicação da Medida Provisória 870, que extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). A medida foi confirmada pelo Congresso Nacional em setembro do mesmo ano, com 162 votos contrários e 299 favoráveis.

Em nota, a Ação da Cidadania, criada por Herbert de Souza, o Betinho, definiu a extinção como “um surrealismo ímpar na história do país”, pois a decisão foi tomada no mesmo ano em que o Brasil voltou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil havia saído desse mapa em 2014, graças a uma intensa construção institucional promovida pelo governo de Luis Inácio Lula da Silva desde 2003, quando um de seus primeiros atos foi a criação do programa Fome Zero, junto com a reativação do Consea.

O Consea era um órgão de assessoramento à Presidência da República que tratava do controle social na formulação, execução e monitoramento da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Criado, em 1993, extinto em 1994 e recriado por Lula em 2003, o conselho tornou-se o espaço de diálogo do governo com a sociedade na elaboração participativa de políticas públicas.

A inclusão do direito à alimentação na Constituição, a aprovação da Lei Orgânica, da Política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Plano Safra da Agricultura Familiar, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e o Programa de Aquisição de Alimentos e as compras institucionais de alimentos da agricultura familiar para escolas e outros órgãos públicos são algumas das propostas que surgiram em debates no Consea.

Favorecimento ao agronegócio

Levantamento da Conab aponta que, no período da safra 2019-2020, foram produzidas 257,8 milhões de toneladas, sendo, a maior parte, soja, milho e algodão. Esse volume é 4,5% ou 11 milhões de toneladas superior ao da safra anterior. E em meio à pandemia de Covid-19, a demanda por alimentos está aquecida no mundo.

Não à toa, a JBS, maior produtora de proteína animal do mundo, teve lucro líquido recorde de R$ 3,4 bilhões, entre abril e junho deste ano, auge da pandemia. Salto de 54,8% na rentabilidade em relação ao mesmo período do ano anterior. A Camil, uma das maiores no ramo de alimentos da América do Sul, especializada no beneficiamento de arroz e feijão, mais do que dobrou o lucro líquido entre o primeiro trimestre de 2020 e o mesmo período de 2019: passou de R$ 49,8 milhões para R$ 109,5 milhões (120%).

Desde o início do ano, essas empresas vinham experimentando desempenho acima da média. “E melhorou nos últimos dias, quando a China, que, ao contrário da maioria dos países, registrou crescimento de 10% mesmo com a pandemia, comprou praticamente todo o estoque de arroz nacional. Mas a escassez interna e a alta dos preços só aconteceram porque o governo falhou. Não tinha suficiente estoque regulador”, destaca o economista Cesar Bergo, sócio consultor da Corretora OpenInvest.


Com informações do site do PT

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