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Há 66 anos o povo brasileiro perdia Getúlio Vargas


Há 66 anos morria, no dia 24 de agosto, o presidente Getúlio Vargas, fundador do Trabalhismo brasileiro, criador do salário mínimo, do Ministério do Trabalho e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), Getúlio é também o estrategista principal do projeto desenvolvimentista brasileiro baseado no desenvolvimento autônomo e independente do país.

Com um tiro no peito, desferido dentro de seu quarto de dormir, no Palácio do Catete, o presidente Vargas pôs fim a sua vida e à tentativa golpista de tomada do poder - que viria a se concretizar dez anos depois, em 1964, com a deposição de um de seus herdeiros, o presidente João Goulart.

O ato heroico e dramático ainda é o maior marco político do Brasil. Em sua homenagem, o TODA PALAVRA reproduz, a seguir, o artigo "O Homem do Século", do ex-presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho, e a Carta Testamento de Getúlio Vargas.


O Homem do Século

por Barbosa Lima Sobrinho*


É natural que ao final do século os jornais e revistas procurem indicar as personagens que mais se sobressaíram nesse espaço de tempo.

Perguntado por um jornal de São Paulo qual seria, na minha opinião, o homem do século no Brasil, não hesitei ao responder: Getúlio Vargas. Sei que ainda existem resistências ao nome, sobretudo quanto ao seu primeiro período, depois de assumir o poder através da Revolução de 30.

Resistências mais dirigidas à sua polícia política que procurou afastar, de forma arbitrária, os que se opunham ao seu governo.

Uma arbitrariedade, diga-se, em bem menor escala do que as praticadas pelo posterior regime militar, num período que se tornou popularmente conhecido como os “anos de chumbo”. E leve-se em conta, a favor de Getúlio Vargas, que ele governou em meio à ascensão do nazismo, que ameaçava inclusive o Brasil, e à conturbação geral provocada pela Segunda Guerra Mundial.

Nesse clima de convulsão, tanto interna como externamente, Vargas não só administrou como implantou os pilares de uma nova sociedade e, diga-se o que disser, modificou a estrutura básica do país. Não preciso ir longe. Revejo em estudo meu, publicado em 1980, frases pertinentes: “Parece-me interessante acentuar, à margem da Revolução de 30, o que poderia classificar como a evolução do nacionalismo de Getúlio Vargas.

Como homem de fronteira, teria tido, de início, um nacionalismo de frases feitas, um nacionalismo retórico, terreno próprio para multiplicações de flores de oratória. Um nacionalismo que o levaria a apresentar-se como voluntário para a luta contra a Bolívia, no momento em que surgia o episódio para o domínio do Acre, um litígio, talvez, menos com os bolivianos do que com os donos do Bolivian Syndicate”.

Já a plataforma de 2 de janeiro de 1930 (que viria se tornar realidade), lida pelo então candidato Vargas na Esplanada do Castelo, incluía alguns pontos de um programa de desenvolvimento econômico do país. Queria o aproveitamento do carvão nacional. Dava ênfase à utilização gradual das quedas-d’água. Defendia o emprego do álcool-motor, adicionado em percentagens razoáveis aos óleos importados do exterior. Invocava a subdivisão da terra. Condenava as indústrias artificiais que dependessem da importação de matéria-prima estrangeira. E afirmava que “o surto industrial será lógico, entre nós, quando estivermos habilitados a fabricar, se não todas, a maior parte das máquinas que lhe são indispensáveis”.

Daí, concluía, “a necessidade de não continuarmos a adiar, imprevidentemente, a solução do problema siderúrgico.  Não é só o nosso desenvolvimento industrial que o exige: é, também, a própria segurança nacional, que não deve ficar à mercê de estranhos na constituição dos seus mais elementares meios de defesa.”

Vale notar que, por menores que fossem os recursos, o seu pensamento era sempre tão grande ou maior que o país. Afirmativo, peremptório como quando dizia, na Bahia, que “quem entrega o seu petróleo, aliena a sua própria independência”. E, ao mesmo tempo, confessa que não é contrário ao capital estrangeiro, até deseja que ele venha. Mas o que não aceita é “a entrega de nossos recursos naturais, de nossas reservas, ao controle de companhias estrangeiras, em geral a serviço do capital monopolista”. Porque “o que é imprescindível à defesa nacional, o que constitui alicerce da nossa soberania, não pode ser entregue a interesses estranhos...”

Na sua passagem pela presidência, com os dois períodos, o de 30 a 45 e o de 50 a 54, nota-se claramente que vai acumulando conhecimento e evoluindo no seu nacionalismo econômico.

Devo dizer que não fui eleitor de Getúlio Vargas, preferindo Júlio Prestes em 1930 e Cristiano Machado em 1950. Uma condição que me confere liberdade maior para, agora, estar escolhendo-o como homem do século. Ensinou-me a história a visão mais ampla, que corresponde também ao pensamento sempre maior do estadista. E daquele país despovoado de gente e ideias, como se dizia, amesquinhado numa política subalterna do café-com-leite, abrimos o foco  da lente e divisamos hoje uma nação vibrante e pujante, a oitava economia do mundo, com uma opinião pública dada vez mais influente e também (por que não?) progressivamente pensando mais alto.

Se no minuto histórico presente predomina uma política liberal de retrocesso e dependência, se somos obrigados a ver aberrações ridículas como as de um ministro da Fazenda criticando o FMI por pretender ter algum foco social, se nos revoltamos contra as perseguições aos pobres funcionários e aposentados, se temos que engolir declarações indignadas contra uma decisão unânime do Supremo, contrariando até o mais elementar sentido de convivência democrática, se ainda restam louvações às privatizações espúrias, tudo isso que aí está presente, não devemos esquecer que esses são apenas alguns efêmeros instantes, diante da estrada maior do tempo. E é nessa visão maior, nessa grande estrada da história, que vejo Getúlio Vargas como o homem do século. O presidente que deu nova face ao Brasil a ponto de que algumas recaídas eventuais não serão suficientes para mudar-lhe o destino. Um futuro grande, audacioso e generoso, com o qual, ensinou Vargas, todos estamos comprometidos, como elevação maior do espírito nacional. E afinal, ele tinha total razão quando, na sua carta testamento, afirmava que deixava a vida para entrar na história, talvez antevendo que só ele, o tempo, poderia ter condições de coloca-lo no seu justo e merecido patamar.

*Ex-Presidente da Associação Brasileira de Imprensa Artigo publicado no “Jornal do Brasil” de 10/10/1999.



A Carta Testamento


Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

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