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Morre ex-deputado Délio dos Santos, defensor dos desvalidos


O ex-deputado federal Délio dos Santos (sentado à direita) em reunião com presos políticos / Arquivo Aníbal Philot

O ex-deputado federal Délio dos Santos, 95 anos, morreu nesta terça-feira (01), na Casa de Saúde Santa Lúcia, no Rio, onde estava internado desde sexta-feira no CTI, apresentando um quadro grave de pneumonia. Segundo sua filha, a escritora e jornalista Valéria Villela, ele aguardou por atendimento médico na sexta-feira, das 13 às 23 horas, no posto de saúde de Unimed de Copacabana.

Délio dos Santos atuou como advogado na defesa de presos políticos e foi um dos fundadores do MDB, ingressando depois da redemocratização do PDT. Ele se notabilizou como um defensor dos desvalidos e foi, junto com Sérgio Ricardo, um dos responsáveis pelo movimento que assegurou a permanência dos moradores do Vidigal, evitando a remoção da favela para a construção de hotéis de luxo junto à Avenida Niemeyer.

Em sua homenagem, os moradores batizaram de Rua Délio dos Santos a principal via da comunidade. O TODA PALAVRA publica, a seguir, artigo do jornalista Apio Gomes sobre o velho combatente popular.


Rua Deputado Délio dos Santos. Por quê?

Por Apio Gomes


Ao assistir um jogo de futebol ou ler sobre uma notícia política, é impossível alguém com mais de 70 anos não ser saudosista. Mesmo aqueles torcedores não fanáticos, que iam à geral do Maracanã para assistir a qualquer jogo, independente dos times; ou direitistas, udenistas e esquerdistas que se digladiavam – com o uso da retórica, sem o assassínio do vernáculo – nas arenas dos sindicatos, diretórios acadêmicos, centros sociais, ou mesmo no ápice das tribunas parlamentares. Foi esta tela que se abriu à minha frente, quando Maria José Latgé pediu-me que escrevesse, para o Movimento de Aposentados e Pensionistas e Idosos do PDT, sobre a biografia de Délio dos Santos. Eu trabalhava no escritório de campanha de Saturnino Braga ao governo do Estado, pelo PMDB, em 1980 e seu entorno, quando conheci aquela figura de voz calma e de baixo tom, que, sem qualquer alarde comum aos políticos coroados, se apresentou, sentou-se e conversamos como velhos companheiros. Naquele fervilhante período que antecedeu as eleições gerais de 1982, encontrei muitas vezes com o deputado Délio dos Santos; mais ainda depois de nossa diáspora para o PDT, naquele movimento antichaguista, de negação ao Arco da sociedade. Mas a própria participação política afasta companheiros – de luta ou de viagem – que vão semear as boas sementes em searas distantes. Na maioria das vezes, estão mais próximas que a gente possa pensar. Por sorte, lembrei-me de uma excelente entrevista de Sérgio Ricardo a Daniela Aragão, da qual me aproprio de um trecho para uma boa causa. Mais que qualquer laudatária biografia, uma citação contextualizada deste magnífico produtor cultural, que ajudou a nos dar o norte de luta, nas décadas de 1960 e 1970, pode definir Délio dos Santos. https://www.acessa.com/cultura/arquivo/musica/2017/05/02-entrevista-com-compositor-cineasta-sergio-ricardo/ “Sérgio Ricardo: … No fim dos anos sessenta, a ditadura resolveu botar a favela abaixo. Mas, soube-se que não era só porque desejava se limpar o morro. Na verdade tinham vendido para uma construtora estrangeira, que iria fazer vários hotéis aqui na Niemeyer. No entanto, essa informação vazou e todos nós ficamos sabendo que iriam fazer a remoção, que aconteceria em função disso. Daniela Aragão: E o seu barraco estava entre os que seriam removidos? Sérgio Ricardo: Exatamente. O meu e de todos os demais moradores. A partir dessa iminência de desmonte, a nossa associação que estava amorfa renasceu. Tentamos juntar a população. Um tal de Pernambuco, que era um dos personagens da associação, juntou a turma toda e rapidamente tínhamos um aglomerado de gente disposta a encarar o problema. Mas como iríamos encarar, via exército? Armas? O jeito seria ganhar na justiça. Argumentei com os colegas, que eu conhecia uma forma de chegar ao Sobral Pinto, que era o maior advogado do país. Chamei o Sobral e ele mandou um tal de Bento Rubião, pois ele não tinha condições de subir o morro. Ele era mulato e com toda a disposição para enfrentar essa empreitada. Sobral comunicou ao povo que teriam que fazer uma solicitação de permanência Aí a turma toda assinou o papel e inclusive tinha um personagem importante nessa história, que era o deputado Délio dos Santos. Ele havia aberto uma CPI no congresso contra as remoções. Então tudo se juntou. Depois de terem destruído quinze barracos, mas parou por aí. A partir desse momento a remoção foi extinta. Eu que já morava num deles, juntei o pessoal da música para fazer um show num colégio de Freiras aqui do lado. O colégio cedeu o espaço para fazer o show “Tijolo por tijolo”, para angariar fundos destinados a compra de tijolos, para eles construírem os barracos. Deixar de ser madeira para começar a virar tijolo, pois ganhamos a posse da terra. Então o Vidigal pertence aos moradores”. Aldir Blanc cumpriu sua etapa de vida; Sérgio Ricardo cumpriu sua etapa de vida; Délio dos Santos cumpriu sua etapa de vida. Mais uma vez constato: estamos perdendo para a mediocridade.



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