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'O filho de dona Oniva', por Mino Carta (texto de 1998)


Brizola e Lula na campanha presidencial de 1998

Neste 21 de junho completaram-se 16 anos da morte de Leonel Brizola. Ex-governador por dois estados - Rio Grande do Sul (1958-1962) e Rio de Janeiro, por duas vezes (1983-1987 e 1991-1995) - e comandante do último levante do povo brasileiro, no movimento que se tornou conhecido como a Cadeia da Legalidade, que garantiu a posse do presidente João Goulart em 1961, Brizola foi o último grande representante do Trabalhismo, cujas conquistas populares os governos Temer e Bolsonaro - e, antes, FHC - tentam destruir. Amargou um exílio de 15 anos depois do golpe militar de 1964 e, voltando ao Brasil, mostrou o caminho da redenção do povo brasileiro através da revolução pela Educação.

Em 1998, Brizola, em um ato de desprendimento político e amor pelo Brasil, aceitou ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva. Lamentavelmente Lula não teve a mesma estatura política quando, em 2018, o PDT tentava construir uma frente eleitoral para derrotar o golpe de 2016, com Ciro Gomes à frente, mas faltando menos de um mês para o pleito o PT lançou Fernando Haddad como candidato próprio, facilitando o caminho de Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

O texto abaixo, escrito pelo jornalista Mino Carta, data de 1998 e foi enviado pelo nosso companheiro de redação Osvaldo Maneschy. O TODA PALAVRA o republica como uma homenagem do jornal à memória de Brizola e uma lição de patriotismo a ser assimilada pelos mais jovens. (N.R.)


O filho de dona Oniva


Por Mino Carta


Me deu vontade de falar de dona Oniva e do mais novo dos seus seis filhos, Leonel. O pai morreu em 1923, quando Leonel tinha um ano. Dona Oniva era de origem portuguesa, baixa e sacudida. Camponesa, sabia tudo da terra e cuidou com dignidade e discernimento dos filhos e da roça. Em Leonel observava um talento especial e por sugestão de um amigo, padeiro e de religião protestante, entregou-o a um jovem pastor metodista e à sua mulher para que os servisse na casa e no templo em troca de ensino de graça: eles acabavam de fundar uma escolinha primária em Carazinho. Hoje Leonel conta que, além de aprender a ler e escrever, virou "um verdadeiro sacristão", Leonel Brizola, esclareço, se ainda não entenderam.

Então desenhou-se em Carazinho uma vocação mística que o tempo e paixões terrenas se encarregariam de apagar. Sobraram lembranças comovidas e um estilo de expor idéias e contar eventos e pessoas que é aquele do pastor e mestre. Não é preciso grande esforço para colher nas falas políticas de Leonel Brizola o ímpeto do pregador que verbera e condena ou o tom macio do pastor que persuade. Ele próprio admite que seu primeiro discurso, recém-eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul, "foi uma pregação", bem como o foram todos os demais, ao longo de uma vida riquíssima, embora às vezes atribulada. Vale perceber, porém, que os timbres de Brizola não mudam, mesmo quando não está no palanque, no vídeo, no microfone. Mesmo quando participa de reuniões nos bastidores. E até nas conversas sobre fatos miúdos do cotidiano, entre amigos.

Essa fidelidade ao estilo fortalece Brizola, confere-lhe uma autenticidade rara, alça-o por sobre a categoria dos histriões da política. Por mais que se diga e faça, ele é o que aparenta ser. Mas tem outras qualidades, a meu ver, que talvez não dispensem o aprendizado do contato direto com a consciência – com Deus, garantia o pastor e mestre – e da improvisação na oração de cada dia, aquela que não está escrita nas páginas do catecismo. Parece-me que Brizola não é do tipo que arrefece, que entrega os pontos. Que desanima e se queixa da vida. Que remói as adversidades e tomba em melancolia. Aos 76, ele continua indo em todas as bolas e achando graça. Brizola ri com gosto, ainda que não gargalhe.

Dona Oniva deve ter sido uma senhora notável. Terminado o primário de Leonel, foi ela quem empurrou o filho adolescente para o estudo em um colégio de Porto Alegre, descoberto em anúncio de jornal. Escreveu uma carta, pedindo esclarecimentos; veio um prospecto prometendo radioso porvir. Dona Oniva juntou as economias e Leonel partiu nos seus deslumbrados treze anos. Chegou e viu que as promessas não se confirmavam. Ainda assim, mentiu para deixar a mãe contente. Avisou: está tudo bem, às mil maravilhas. Trabalhado e estudando, fez um curso técnico de quatro anos e foi operário em uma fábrica de sabão enquanto alcançava o curso colegial. Enfim, formou-se engenheiro e imagino a felicidade de dona Oniva.

Penso em Brizola na sua batalha em curso, para juntar o PDT com o PT. Vejo um político de outros tempos enfrentando as incongruências do nosso turvo presente, a visão imediatista dos próprios correligionários e o inesgotável sectarismo do PT. E fadiga para Schwarzenegger, mas o filho de dona Oniva exibe o seu sorriso tradicional e toca em frente. Deve saber que a última, remotíssima chance de derrotar FHC está em atingir o segundo turno das eleições presidenciais, sem descurar da possibilidade de levar vantagem aqui e acolá nos pleitos estaduais. No Rio, por exemplo, daria até para ganhar, desde que os patrulheiros petistas não tornem inviável a aliança com os pedetistas.

Dona Oniva, o pastor e mestre de Carazinho, os anos duros em Porto Alegre, ensinaram-lhe que a vida está longe de ser uma tertúlia folgazã, conquanto, em qualquer circunstância, mereça ser vivida. Podemos não concordar com algumas, ou muitas das idéias de Leonel Brizola, mas há de se reconhecer nele a têmpera do lutador. A coerência. De minha parte, acredito na qualidade de sua fé. Não é mais aquela da infância, é límpida, contudo. Em primeiro lugar, fé em si próprio, e tal aspecto não me causa mossa, sendo próprio de um eterno aspirante ao poder, que o avalia com precisão porque já o teve. Há mais um ponto, na história. Brizola é um belo espécime de uma categoria de políticos em extinção, personagens notáveis de um país bem mais promissor do que o atual Brasil da imensa, estrepitosa aliança conservadora encabeçada por FHC.

Aludo a figuras que cresceram no embate político contra o pano de fundo da extrema e generalizada confiança no futuro, com excelentes motivos para cultivá-la. Alguns tinham porte natural e cultura de berço. Outros aprenderam pelo caminho e se saíram tão bem quanto os primeiros. Quer dizer, foram tão marcantes e representativos. Ocorrem-me Adauto Lúcio Cardoso e Milton Campos. Gente de trato finíssimo, elegantes na postura e no discurso. Fichas impecáveis, obviamente. Ulysses Guimarães e Tancredo Neves pertencem a este filão e saíram de cena não faz muito tempo. No confronto com estes cavalheiros, Leonel Brizola era adversário à altura. Fosse ele uma flor, hoje o trataríamos com desvelo infinito para conservá-lo pelo maior espaço de tempo possível.

Foi uma época intensa e digna de contemporaneidade do mundo de então. Até Ademar de Barros, digamos, conseguia ser bem mais engraçado do que os gatos e as raposas da política de hoje. É possível, aliás, que, comparado com bichos hodiernos, ele quase se assemelhe aos varões de Plutarco. Mas já não se fazem políticos como antigamente. Agora enfrentamos operações constrangedoras. E, de repente, salta a pergunta fatídica, uma espécie de xeque-mate, a julgar pelo olhar triunfante de quem a formula: "Mas afinal, qual é a alternativa a Fernando Henrique?"

Diga-se que, para o próprio, a pergunta acima não deveria soar como as trombetas da glória.

De verdade, ela contém o conceito do mal menor. Mostra também conformismo, comodismo, conservantismo, egoísmo. Ou, por outra, falta de imaginação e audácia política. Medo. Mas nada de surpresas. Há toda uma geração de políticos brasileiros que se formaram entre o imediato pós-guerra e o golpe de 1964. Ali há quem mereça respeito. Já 64 foi a tragédia e à sua sombra nasceu o rebotalho. Há, ainda, quem invocou o esquecimento para aquilo que pensava antes. Quanto ao filho de dona Oniva, pode ser encontrado onde sempre esteve.


(Publicado no Correio Braziliense, pg. 24, de 19.04.98)

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