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São Januário, o antigo centro dos festejos do 1º de Maio

Atualizado: Mai 3

Getúlio Vargas utilizava o espaço do estádio para a realização de festas cívicas no Dia do Trabalhador


Por Eduardo Gomes


Desfile dos trabalhadores em São Januário no 1º de Maio (Foto: Blog História(s) do Sport)

Esse 1º de maio de 2020 ficará marcado na história pelo cenário atípico que estamos vivendo. Data marcante historicamente por destacar a luta dos trabalhadores em todo o mundo desde o século XIX, hoje não veremos no Brasil as tradicionais festividades, passeatas e demais formas de exaltação das classes trabalhadoras que normalmente ocorrem nesse dia pelo país.


Sempre que se fala do 1º de maio, surge um debate: o feriado busca exaltar o “Dia do Trabalhador” ou o “Dia do Trabalho”? Atualmente, é praticamente unânime a afirmação de que os trabalhadores consideram a primeira opção, já que se trata da valorização das conquistas alcançadas pelos trabalhadores (que no Brasil estão expostas, principalmente, na CLT). Porém, outrora essa narrativa já foi distinta.


Um grande exemplo é quando olhamos para os governos de Getúlio Vargas, primeiramente de 1930 a 1945 e, posteriormente, de 1951 a 1954. Seus mandatos, considerando suas várias fases, foram marcados por políticas trabalhistas em vários aspectos. Vargas valorizava a ideia do “Dia do Trabalho”, colocando em prática parte de seus ideais nacionalistas ligados ao trabalho, a partir da efetivação de eventos cívicos diversos. E onde tais eventos eram realizados? Diferentes espaços foram utilizados para tais fins, valendo apena destacar, dentre esses, aquele que se relaciona diretamente com o campo esportivo carioca e que marcou simbolicamente essa data no governo: o estádio de São Januário.


O Estádio Vasco da Gama, popularmente conhecido como São Januário, pertence ao Clube de Regatas Vasco da Gama e foi inaugurado em 21 de abril de 1927. Era considerado, no momento de sua fundação, como o maior estádio das Américas, fato modificado apenas a partir da inauguração do Estádio Centenario de Montevidéu, construído para a Copa do Mundo de 1930 no Uruguai. Ainda permaneceu como o maior estádio do Brasil até 1940 (quando foi inaugurado o Pacaembu, em São Paulo) e do Rio de Janeiro até 1950 (quando inauguraram o estádio do Maracanã).


Entrevistamos o historiador Maurício Drumond, que atua como pesquisador do Laboratório de História do Esporte e do Lazer da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Sport/UFRJ). Drumond destaca que foi comum Getúlio se utilizar de estádios de futebol como espaços para se festejar o 1º de maio, tendo tais eventos ocorrido em seis oportunidades no já citado estádio de São Januário (1940, 1941, 1942, 1945, 1951 e 1952) e uma vez no estádio do Pacaembu, em São Paulo (no ano de 1944):


Getúlio Vargas teve nos estádios de futebol um dos principais palcos de sua ligação com os trabalhadores do Brasil. Vargas utilizava-se do capital simbólico dos estádios para se aproximar das classes populares, que tinham no esporte um de seus principais elementos de lazer.

Tais eventos festivos e cívicos no 1º de maio, começaram a ser realizados no Estado Novo de Vargas a partir do ano de 1938. A opção de realizá-los em um espaço onde pudesse se conglomerar um maior número de pessoas, como um estádio de futebol, logo foi cogitada pelo governo. Em 1940, o evento foi pela primeira vez realizado em São Januário. Mesmo sendo o Pacaembu em São Paulo um estádio maior e recém inaugurado (o primeiro jogo no estádio paulista ocorreu em 27 de abril de 1940), o fato de São Januário estar localizado no então Distrito Federal, que era a cidade do Rio de Janeiro, foi um dos fatores preponderantes para que Vargas idealizasse tais festejos nesse espaço. Maurício Drumond nos destacou, também, o quanto tais eventos conglomeravam várias atividades e passaram a ser grandiosos para a difusão de uma imagem nacionalista do governo na época, sempre se relacionando com a questão da agenda trabalhista:


Em 1940 a festa do 1º de maio foi levada para São Januário. Cerca de 40 mil pessoas se deslocaram para o estádio, tendo linhas de ônibus e bondes gratuitos sido montadas especialmente para o evento. Em 1941, ocorreu inclusive um jogo entre selecionados de atletas profissionais de times da Zona Sul contra os times da Zona Norte da cidade. Depois de um ano fora dos estádios, as celebrações do 1º de maio ocorreram em 1944 no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, voltando para São Januário no ano seguinte, já demonstrando a proximidade do fim do Estado Novo com o processo eleitoral de 1945 já demarcado.

Quando voltou ao poder democraticamente, ao vencer as eleições presidenciais em 1950, Getúlio Vargas retornou também com as festividades cívicas do 1º de maio nos dois anos que se seguiram, 1951 e 1952. E com isso surge uma grande curiosidade: mesmo com o Maracanã já construído no Rio de Janeiro (tinha sido o principal estádio da Copa do Mundo de futebol masculino, ocorrida em 1950 no Brasil), seu governo optou por manter as celebrações da data no saudoso estádio de São Januário. Drumond nos contou uma possível hipótese explicativa para esse fator:


Ainda que o Maracanã já estivesse em pleno uso, a ligação simbólica de São Januário com Getúlio tornava-o o local mais propício à celebração do evento.

Nos dois anos seguintes, Vargas não mais realizou eventos cívicos no estádio, demarcando o cenário de crise que assolou seu governo até a data de seu suicídio, em agosto de 1954. Porém, em tempos de tanta dificuldade devido a pandemia que estamos vivenciando, relembrar tais histórias que relacionam a política e o esporte com essa data tão importante e simbólica para muitos trabalhadores espalhados mundo a fora, se transforma em um exercício importante para resgatarmos as memórias e lutas identitárias que caracterizam as diferentes classes trabalhadoras historicamente.

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