Árabes se calam pela 1ª vez diante do 'massacre' em Gaza


Ataque aéreo israelense (Reprodução)

O comedimento adotado por alguns países árabes perante os confrontos entre Israel e a Faixa de Gaza demonstram uma postura nunca vista antes na região, e causam revolta entre suas populações.

O conflito entre israelenses e palestinos não é algo novo a ser presenciado na história do Oriente Médio, porém, pela primeira vez, Estados árabes, que sempre expressaram seu apoio à causa palestina, mudam o tom ou se calam em uma nova narrativa tecida após recentes acordos fechados entre esses Estados e Israel.

O relativo silêncio vem de países que "fizeram as pazes" com Tel Aviv em 2020 por meio dos Acordos de Abrãao, que foi amplamente impulsionado durante um amigável diálogo entre Israel e os EUA sob a administração de Donald Trump.

Enquanto a Turquia e o Irã expressam sua indignação com a postura israelense no conflito, outros países que faziam o mesmo em confrontos anteriores como Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Marrocos e Sudão, estão mais contidos e, pela primeira vez na história da região, se dividem em condenar Israel pelos ataques à Faixa de Gaza.

Ao selarem a paz com Estado judeu, EAU, Bahrein, Marrocos e Sudão estão tendo que lidar com a diferença entre sua nova postura e a raiva de seus cidadãos árabes que expressam apoio à causa palestina.

"É extraordinário, nesta posição de negação dos EAU em particular, que eles não tenham feito quase nenhuma crítica ao que está acontecendo em Israel e nos territórios palestinos ocupados. É um sinal da liderança dos Emirados de que [o país] não será desviado dessa aliança crescente, que eles consideram valiosa para planos futuros. Isso inclui combater o Irã, a Turquia […]. Há muito espaço para fazer uma declaração favorável aos direitos dos palestinos, sem endossar o Hamas. E eles não fizeram isso", disse Chris Doyle, diretor do Conselho de Entendimento Árabe-Britânico (CAABU, na sigla em inglês) citado pelo The Guardian.

É importante lembrar que os EAU se encontram em progressivos movimentos diplomáticos ao expandirem políticas de reconciliação, desenvolvendo um recente papel de pacificador no Oriente Médio. Porém, mesmo com essa nova abordagem, Abu Dhabi ainda não se manifestou.

A cobertura do conflito é quase inexistente nos jornais dos EAU, silenciosa no Bahrein e na Arábia Saudita, que ainda não assinou um acordo de paz com Israel, mas deu dicas de que pode fazê-lo, de acordo com a mídia.


Para Mohanad Hage Ali, pesquisador do Carnegie Middle East Center, um think thank no Líbano, há uma discrepância entre a nova política externa adotada por esses países diante do conflito israelo-palestino e a interpretação de sua população, e que isso pode "manchar sua reputação" com outros Estados árabes.

"[Esses governos] estão do lado errado da opinião pública na forma como são vistos e recebidos pelas populações da região árabe. Eles estão tentando seguir uma política externa ativa, ocupando posições que nunca tiveram antes. Eles podem ser vistos como sinônimos da ocupação israelense e da política israelense na região. Isso terá um impacto não apenas em Israel, mas em seus novos aliados árabes. E isso manchará sua reputação", disse o pesquisador citado pela mídia.

Diante do silêncio desses países e sem uma clara perspectiva para o cessar-fogo entre Israel e a Faixa de Gaza, o conflito já ceifou a vida de 212 palestinos, incluindo 61 crianças, e mais de 1.400 ficaram feridos. Em Israel, dez pessoas morreram, incluindo uma criança.

Erdogan pede ajuda ao papa

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, um dos principais rivais do premiê israelense Benjamin Netanyahu, telefonou nesta segunda-feira (17) para o papa Francisco para debater a crise. Segundo nota oficial, Erdogan pediu "um compromisso comum de muçulmanos, cristãos e da humanidade inteira" para parar com o "massacre". As informações são da ANSA.

"Se a comunidade internacional não punir Israel, que comete crime contra a humanidade, com sanções, os palestinos continuarão a ser massacrados", disse o líder turco, ressaltando que o líder católico tem peso "para mobilizar o mundo cristão e a comunidade internacional".

No domingo (16), Francisco voltou a falar sobre o conflito e afirmou sentir "enorme preocupação" com os combates e com a "inaceitável" morte de crianças.

China: "Posição [dos EUA] contrária à consciência humana"

Os EUA ficaram em uma situação de isolamento sem precedentes no Conselho de Segurança (CS) da ONU por sua posição no conflito Israel-Palestina e tomaram uma posição contrária à consciência humana nessa questão, disse nesta terça-feira (18) o porta-voz oficial do MRE chinês.

De acordo com as palavras do porta-voz chinês, Zhao Lijian, o Conselho de Segurança da ONU realizou uma reunião extraordinária relativamente aos confrontos entre Israel e Palestina. A maioria absoluta dos membros do Conselho de Segurança apelaram ao cessar-fogo, a fim de evitar uma crise em grande escala, instaram a proteger a população civil evitando mais vítimas e a iniciar o mais rápido possível um processo de negociações.

Porém, os Estados Unidos bloquearam a aprovação de uma declaração à imprensa por parte da organização. Na última semana, o país já tinha impedido a aprovação de projetos de documentos análogos.

"Os membros do CS consideraram que o Conselho deve apresentar uma declaração e promover negociações israelo-palestinas, no entanto, os Estados Unidos, ao invés de tomar medidas ativas a fim de parar os confrontos, começaram a agravar a situação. Os EUA ficaram em uma situação de isolamento sem precedentes no CS da ONU, tomaram o lado completamente contrário à consciência humana e à moralidade. A comunidade internacional está profundamente desiludida com as ações norte-americanas no conflito israelo-palestino", ressaltou Zhao Lijian.

O diplomata chinês notou que os EUA falam constantemente sobre direitos humanos dos muçulmanos, mas, entretanto, continuam indiferentes perante os direitos dos palestinos.

"[...] Os EUA cuidam apenas de seus interesses [...] Devido ao veto dos EUA, o CS da ONU não é capaz de tomar medidas em relação ao conflito entre Israel e Palestina", acentuou o porta-voz chinês.

Ele apelou aos EUA para tomarem uma posição justa e prestarem apoio ao CS da ONU para aliviar a tensão na região.

A situação na fronteira entre Israel e Faixa de Gaza palestina se agravou em 10 de maio. De acordo com informações mais recentes, dez pessoas, incluindo uma criança, morreram em Israel. O número de palestinos falecidos em resultado de ataques aéreos israelenses atingiu 212, incluindo 61 crianças.


Com a Sputnik

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