Áudio: ministro diz que favorece pastores por ordem de Bolsonaro


O ministro da Educação, Milton Ribeiro, e o pastor Gilmar Santos (Reprodução)

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, declarou em uma reunião que o governo federal dá prioridade de liberação de verbas a prefeituras cuja negociação foi feita por dois pastores evangélicos sem cargo no Executivo.

O chefe da pasta disse, ainda, que atende a uma ordem do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os dois religiosos atuam em um esquema informal para obter recursos do Ministério da Educação.

A conversa foi gravada e obtida pelo jornal Folha de S.Paulo.

"Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar", afirmou o ministro durante o encontro, do qual participaram prefeitos e os dois pastores.

Ainda de acordo com a publicação, os dois intermediários se chamam Gilmar Santos e Arilton Moura — ambos têm bom trânsito na esfera federal desde o começo do governo Bolsonaro.

Pelo menos desde janeiro de 2021, a dupla tem negociado verbas federais com prefeituras para obras de escolas, quadras esportivas, creches e compra de equipamentos tecnológicos.

Os pedidos para liberação de recursos seriam negociados em hotéis e restaurantes de Brasília.

Em seguida, os pastores entrariam em contato com o ministro Milton Ribeiro, que usa o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia da pasta controlada por políticos do centrão, para empenhar as verbas federais. O Orçamento do Fundo para 2022 é de R$ 45,6 bilhões, dos quais R$ 18,5 bilhões estão reservados para transferências a estados e municípios. É nesta fatia dos recursos que estão os valores transferidos a prefeituras cujos mandatários participaram de reuniões com o titular do ME, por intermédio dos pastores, que se apresentam como presidente e assessor da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil, respectivamente.

Na reunião cuja conversa foi gravada, Ribeiro discute questões do orçamento da pasta, cortes de recursos para a educação e liberação de dinheiro para as obras.

Embora não tenham cargo oficial, os pastores Gilmar e Arilton estavam presentes no encontro.

Na gravação de áudio, o ministro comenta ainda sobre um "apoio" que ele pediria em troca da liberação das verbas.

"Minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar. Então o apoio que a gente pede não é segredo, isso pode ser [inaudível] é apoio sobre construção das igrejas", diz o ministro.

Ele não detalha como esse apoio se concretizaria ou por qual forma se daria o pagamento da vantagem indevida.

Vínculo com governo e cortes na Educação

Os dois pastores são figurinhas carimbadas na gestão de Jair Bolsonaro desde o primeiro ano de governo.

O jornal Estadão mostrou na semana passada que o acesso às verbas e o vínculo dos pastores com o governo Bolsonaro são anteriores à chegada de Ribeiro ao MEC. Em 18 de outubro de 2019, os dois participaram de evento no Palácio do Planalto e se sentaram ao lado de Bolsonaro. Já em 2021, em 10 de fevereiro, eles estiveram ao lado do ministro do MEC e de Bolsonaro em um evento da pasta com 23 prefeitos. A participação deles, porém, não foi registrada na agenda oficial.

Cortes nos recursos para a educação são um marco no governo Bolsonaro: em 2019 e 2020, os dois primeiros anos de gestão bolsonarista, os investimentos na pasta foram os menores da década.

Zero Um: 'parabéns' e 'agradecimento'

O senador Flávio Bolsonaro, filho 01 de Bolsonaro e pré-candidato à reeleição ao Senado, chegou a gravar um vídeo parabenizando o pastor Gilmar pelo aniversário. "Prezado pastor Gilmar Santos, aqui é o senador Flávio Bolsonaro. Eu quero dar parabéns ao senhor pelos seus 70 anos de idade. Quero aqui, em nome da minha família, agradecer por tudo que você faz, não por nós, mas por nosso Brasil. Um abraço a todos que estão aí nessa trajetória, nessa caminhada. E a gente não faz nada sozinho. Se não fossem pessoas como o senhor, certamente, a nossa batalha diária, a nossa guerra, aqui na disputa do poder aqui em Brasília, seria, sem dúvida alguma, muito mais complicada. Então muito obrigado por tudo. Em primeiro lugar, parabéns ao senhor e continue orando por nós e pelo Brasil", disse o Zero Um, que foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por desvios de recursos públicos no esquema das rachadinhas. O vídeo foi postado no Instagram do pastor em 30 de setembro de 2020.

Ministro nega

Em nota divulgada pelo Ministério da Educação nesta terça-feira (22) o ministro Milton Ribeiro nega favorecimento a pastores e diz que não recebeu de Jair Bolsonaro pedidos de atendimento especial na distribuição de verba. Afirma ainda que a alocação de recursos pela pasta obedece a lei orçamentária e critérios técnicos.

Apesar da nota, Ribeiro não nega que seja ele na gravação em que afirmou que o governo Jair Bolsonaro prioriza, na liberação de verba, prefeituras com pedidos negociados pelos dois pastores.

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