Lula: "estou no jogo"


Ex-presidente Lula dá entrevista coletiva na sede do PT Nacional, em São Paulo (foto: Ricardo Stuckert)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez, nesta quinta-feira (13), seu primeiro pronunciamento público após a condenação em primeira instância no "caso do tríplex do Guarujá". Na sede nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo (SP), Lula criticou a atuação do juiz Sergio Moro e da imprensa comercial, e afirmou que irá se candidatar a presidente da República novamente: "Se alguém pensa que com essa sentença me tirou do jogo [político], eu quero dizer que estou no jogo".

O petista complementou indicando: "Quero dizer ao meu partido que, a partir de agora, eu vou reivindicar a minha candidatura para presidente em 2018". "Senhores da 'Casa Grande', permitam que o povo da 'Senzala' faça o que vocês não têm competência para fazer", reforçou.

"Só quem tem o direito de decretar meu fim é o povo brasileiro", enfatizou Lula, em referência aos processos judiciais e políticas que vão contra ele.

Em relação a Moro, o ex-presidente apontou que sofre perseguição desde o início do processo. "Eles já estavam com a concepção da condenação pronta", declarou. "Eu ficaria mais feliz se eu fosse condenado com uma prova. Não sou dono de tríplex, não tenho tríplex", refirmou o petista, diante de cerca de 40 jornalistas e outras dezenas de apoiadores, que se concentravam do lado externo do prédio. "Eu não sei como é que alguém consegue escrever quase 300 páginas sem nenhuma prova contra quem ele pretende acusar".

Já sobre os meios de comunicação, o petista foi enfático ao dizer que "o ódio está disseminado nesse país, e a Globo é a disseminadora do ódio.

Coletiva

O pronunciamento começou ao meio-dia e terminou pouco antes da uma da tarde. O ex-presidente foi condenado, em primeira instância, na última quarta-feira (12), a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, foi quem abriu a coletiva de imprensa: "A sentença carece de provas e é absolutamente política. Coincidentemente, ela acontece um dia após a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] ser rasgada", disse a senadora, em referência à aprovação da reforma trabalhista no Senado, na última terça (11).

Sem esconder indignação com o conteúdo da sentença, Lula aproveitou a oportunidade para criticar a cobertura da mídia corporativa sobre o golpe de 2016 e a operação Lava Jato: "Esse processo começou com uma mentira do jornal O Globo", disse, completando que: "Eu sempre tive a consciência de que, se o Lula pudesse ser candidato [em 2018], o golpe não fechava".

Em relação à postura do juiz federal de primeira instância Sérgio Moro, o petista também foi enfático: "Nenhuma verdade era levada em conta (durante o processo). O Moro não precisa prestar contas para mim. Precisa prestar contas à história".

Assim como prometeram os advogados de Lula na quarta-feira (12), além de aguardar o julgamento do recurso no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), a defesa deve recorrer às Nações Unidas e a cortes internacionais para impedir que o ex-presidente seja condenado sem provas.

"A minha indignação como cidadão brasileiro não me faz perder a crença de que nesse país ainda existe justiça", ressaltou Lula, ao final da coletiva, quando se lançou como pré-candidato à Presidência em 2018 pelo PT.

Relembre o caso

Lula foi acusado pelo Ministério Público Federal de receber R$ 3,7 milhões em propina referente a três contratos entre a empreiteira OAS e a Petrobras. Um apartamento triplex no Guarujá, litoral paulista, seria supostamente entregue como parte dessas negociações. Segundo a Promotoria, que pediu sua prisão, Lula teria cometido os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

"O Moro tem para comigo um otimismo que nem eu tenho", ironizou o ex-presidente, logo ao início da coletiva. Lula se refere a um dos parágrafos que Sérgio Moro incluiu na sentença, recomendando que o petista seja impedido de assumir cargos públicos até 2036.

A defesa afirma que não havia provas para a condenação, e que esta simboliza a perseguição política sofrida por Lula nos últimos três anos.

“Na falta de provas, como foi reconhecido pelo próprio Ministério Público Federal (MPF), o juiz aplicou aquilo que o procurador chama de teoria ‘explacionista’, que significa condenação sem prova, apenas com explicações, o que contraria a Constituição Federal”, criticou o advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin.

A sentença do juiz Sérgio Moro, em primeira instância, não impede Lula de se candidatar à Presidência da República em 2018. Para que isso aconteça, a condenação terá que ser mantida em segunda instância, no TRF-4. O ex-presidente aguardará o julgamento do recurso em liberdade.

Confira a íntegra do pronunciamento:

Não me avisaram antes e eu perdi a fala da minha presidenta aqui, eu cheguei quando ela tava falando que eleições sem Lula não é eleição, é fraude, mas eu queria que vocês pensassem um pouco na sentença do Mouro, porque ele tem para comigo o otimismo que nem eu tenho. Porque pela peça de condenação de 19 anos sem poder exercer nenhum cargo, significa que ele esta permitindo que eu possa ser candidato em 2036. Isso significa que eu vou viver e vocês vão ter que me suportar muito.

Ô, gente, eu queria fazer essa entrevista coletiva, ontem eu não quis falar com a Imprensa, porque ontem eu tinha um assunto muito importante pra resolver que era ver o Corinthians derrotar o Palmeiras, então eu não tive nem tempo de analisar a condenação, nem conversar com advogados porque olha, primeiro vamos ver o Corinthians resolver o problema com o Palmeiras, depois a gente discute.

Mas eu queria começar aqui agradecendo alguns companheiros que tiveram um papel importante nessa primeira etapa dessa batalha jurídica e política que é meu companheiro Cristiano Zanin, o meu querido companheiro advogado, o companheiro Roberto Teixeira, a companheira Valeska, que alem de advogada e filha do Roberto Teixeira, é mulher do Cristiano, a companheira Larissa, que é filha também do Roberto Teixeira e cunhada do Cristiano, queria conhecer o companheiro Geoffrey que é um advogado que esta nos ajudando a partir de Londres e fez uma representação contra o Mouro em Bruxelas na ONU.

Queria agradecer o companheiro Batochio que faz parte do grupo de advogados que me defendem nessa ação e em outras ações, que são muitas ações que eu tenho pela frente. Agradecer o companheiro Nilo Batista que foi impedido de continuar me ajudando, mas no começo participou me ajudando nesse processo, o companheiro Joarez Cirino que é um advogado do Paraná que também me ajudou numa fase do processo. Quero agradecer o companheiro Fernando Fernandes e toda sua equipe que trabalharam tão bem nesse processo, eles eram advogados do Paulo Okamotto, e o Paulo Okamotto foi absolvido na questão do acervo.

Quero agradecer a tantos companheiros jurídicos que participaram de tantas reuniões, que escrevera tantos artigos. Agora mesmo já tem um movimento com 60 juristas pra escrever o livro sobre a sentença do Mouro, ou seja, cada jurista vai escrever 5 páginas sobre a sentença do Mouro porque segundo os advogados, é uma peça que precisa ser motivo de estudo profundo de como não fazer uma peça condenatória.

Mas de qualquer forma eu não vou entrar em detalhes porque os cara estudaram tantos anos, fizeram mestrado, doutorado pra ser advogado, não vou eu aqui com meu quarto ano primário tentar substituir a experiência desses companheiros, mas eu quero agradecer a todos, quero agradecer obviamente aos meus companheiros do PT, que tanto tem sido solidários a nossa bancada no Senado, a nossa bancada na Câmara dos Deputados que tem feito um enfrentamento não apenas nessa caso, mas em outro caso de injustiça que acabou vitimando outro companheiro do PT e outros companheiros que nem são do PT mas que são vítimas do arbítrio de um estado quase que de exceção em que o Estado de Direito Democrático esta sendo jogado na lata do lixo.

Ou seja, eu quero agradecer a companheira Jandira, que está aqui na mesa em nome do PCdoB, o companheiro Manoel Dias que está aqui em nome do PDT, quero agradecer a generosidade da Imprensa comigo que é muito importante sobre tudo o pessoal do Jornal Nacional, que me tratam com tanta diferença. Quero cumprimentar, quero aqui agradecer meu querido companheiro Raduan, que eu conheço a pouco tempo pessoalmente, mas parece que faz muito tempo que eu conheço ele, e é um companheiro que é uma das reservas morais desse país, além de uma reserva importante intelectual.

Eu até não queria falar da minha família por que quando fala de família fico emocionado e não vou falar, mas esse processo é um processo que se vocês acompanharam ele, vocês vão perceber que o que aconteceu ontem, eu já previa no dia 16 de outubro do ano passado. Se vocês leram, eu escrevi um artigo, na tendência de debate da Folha, "Por que querem me condenar", isso aqui é o dia 18 de outubro de 2016 e nesse artigo, Raduan, eu disse o seguinte:

"Meus acusadores sabem que não roubei, não fui corrompido nem tentei obstruir a justiça, mas n˜o podem admitir, não podem recuar depois de um massacre que promoveram na mídia. Tornaram-se prisioneiros das mentiras que criaram, na maioria das vezes, a partir de reportagens facciosas e mal apuradas. Estão condenados a me condenar e devem avaliar que se n˜o me prenderem, serão eles os desmoralizados perante a opinião pública.

Tento compreender essa caçada como parte da disputa política, muito embora seja um método repugnante de luta. Não é o Lula que pretendem condenar, é o projeto político que represento junto com milhões de brasileiros. na tentativa de destruir uma corrente de pensamento, estão destruindo os fundamentos da democracia no nosso país.

É necessário frisar que nós do PT, sempre apoiamos a investigação, o julgamento e a punição de quem desvia dinheiro do povo. Não é uma afirmação retórica, nós combatemos a corrupção na prática.

Isso foi escrito em outubro, por que desde que esse processo começou, e desde que o Moro proferiu várias entrevistas sentenciando que era preciso uma forte cobertura da Imprensa, porque senão ele não conseguiria prender as pessoas, e sobretudo prender as pessoas para fazer com que as pessoas delatassem. Porque tem gente que delatou e poderia contar um caso que é o caso do Leo Pinheiro, que é um cara que ele utiliza muito na sentença. O Leo Pinheiro tá há mais de dois anos preso, o Leo Pinheiro insistentemente disse "não, não", mas o cara já tá condenado a 23 anos de cadeia com perspectiva de um pouco mais.

Ai o cara assiste na própria televisão Globo, no Fantástico, sabe que nesse país vale a pena delatar, que delatar é um prêmio, pra você conviver com a riqueza que você roubou, pra você conviver com metade ou mais do roubo e apareceria gente morando em Itapecerica aqui em condomínio de luxo, aparecia gente morando em condomínio perto da praia. O cara tá preso e o cara fala "Po, eu to condenado a 23 anos de cadeira, tem mais uns 3 processos contra mim e o que eu tenho que falar é apenas dizer que o Lula sabia?"

O Lula não faz parte da família dele, o Lula não é filho, não é genro, nã é nada dele. Por que que eu vou pegar tanto anos de cadeia por causa do Lula? Assim foi com o Leo, assim foi com outros. Durante todo esse processo a coisa que eu mais lia de informações, era as pessoas dizendo "tal pessoa foi presa e no interrogatório a primeira coisa que falaram foi que tinham que falar o nome do Lula ". E eu acreditava que esse processo ia terminar do jeito que terminou por que em nenhum momento , eu prestei vários depoimentos, e era visível que o que menos importa para as pessoas que faziam as perguntas era o que você falava. Eles já estavam com o processo pronto, eles ja estavam com a concepção da condenação pronta.

Então, a Polícia Federal pega esse processo. Esse processo começa com a mentira do jornal Globo, que o Ministério Público pega pra ela, abre um inquérito, a Policia Federal mente a respeito desse processo, o MP aceita o inquérito da PF enquanto isso a Imprensa divulgava isso fartamente. Depois vai pro MP, o MP prepara a acusação, anuncia a acusação, a imprensa divulga fartamente, ou seja, outra mentira do MP e vai pro Moro.

Eu acreditava que o Moro iria recusar, se ele tivesse recusado a aceitar a mentira contada pelo MP, baseada na teoria do PowerPoint, era o que eu esperava. Veja que eu tinha muito mais garantia de que ele iria recusar ou aceitar a denúncia, do que me absolver depois que o processo foi aceito.

Depois que o processo foi aceito eu falei "Olha, há um jogo a ser jogado nesse país. Não é possível, que aqueles que preparam a mentira do golpe contra a Dilma, aqueles que prepararam a mentira do golpe contra as forças democráticas que ganharam as eleições de 2014 iriam ficar com os braços cruzados, esperando essa gente voltar pro poder em 2018.

E eu sempre tive consciência que o golpe não fechava, se o Lula pudesse ser candidato, o golpe não fechava. Porque qual é a razão, sabe, de derrubar um governo, um partido político e dois anos depois esse governo e esse partido juntar as mesmas forças políticas e ganhar as eleições?

Não podia fechar. Então a sentença de ontem, ela tem um componente político muito forte e eu obviamente que não vou entrar nos componentes jurídicos, porque tudo que eu tenho lido até agora e tudo que eu tenho ouvido é que o juiz Moro passou praticamente escrevendo 60 páginas pra se justificar da condenação. Em que praticamente, de 900 e não sei quantos parágrafos, ele utilizou 5 da defesa e me parece que não havia nenhum interesse.

Vocês estão lembrados de que quando eu fui prestar o meu depoimento, isso tá gravado, eu tinha pedido pro Moro autorizar que a Imprensa divulgasse o meu pronunciamento ao vivo. Não foi possível, porque eu queria que o povo visse a cara dele, queria que vissem as caras dos promotores. Não apenas a minha.

Mas não foi possível, mas foi divulgado e vocês viram que eu disse o seguinte "Olha, você não pode me absolver, não tem como. Ou seja, o que vocês já falaram até agora, o que a Imprensa já me condenou até agora, só do Jornal Nacional foram 20 horas." Você veja que os tucanos não aguentaram uma capa da Veja, caiu todos. Eu tenho não sei quantas capas de revista, 50 e não sei quantas, mais a do final de semana que devem ser todas da minha cara outra vez, e mais 20 hora de Jornal Nacional.

E eu sinto que há, companheira Gleisi, uma tentativa de me tirar do jogo político. Eu sou um homem que acredito nas Instituições. Eu quero uma Polícia Federal forte, eu quero um Ministério forte e eu quero um Ministério Público forte. Porque essas Instituições forte, elas são o garante da democracia do país e são o garante para não permitir o abuso daqueles que exercem o poder. Inclusive pra evitar sabe, o surgimento de pessoas que se sintam insubstituíveis e queiram utilizar do poder pra ficar governando de forma autoritária.

Agora eu sempre disse, se vocês pegarem os discursos que eu fazia na posse do Ministério Público, eu sempre dizia: a Instituição por ser forte, as pessoas que a compõe, tem que ter mais responsabilidade. Quando eu falo da Policia Federal e falo do Ministério Público, eu não falo da Instituição, porque tenho grandes amigos e respeito profundamente algumas centenas de amigos que tenho lá. Eu falo dos procuradores que estão fazendo parte da operação, da Força tarefa da Lava-Jato. Eu falo a Policia Federal que faz parte da força tarefa da Lava Jato. Eu não falo da Instituição, porque acredito tanto na Instituição, que fiz ela ser muito mais forte do que era quando cheguei.

Pois bem, então o que acontece de fato e de direito nesse negócio. Ou seja, na medida em que nenhuma verdade era levada em conta. Na medida em que o powerpoint permeou todo o comportamento deles, e eu já cansei de falar e vocês sabem. Eles diziam que o PT era uma organização criminosa, que o PT se preparou para ganhar do governo, para ganhar do governo e roubar e o Lula era o chefe.

A partir dai eles não precisavam mais nada, era a teoria do domínio do fato. Utilizada de forma moderna com a palavra "contexto", que o juiz Moro utilizava muitas vezes a palavra contexto. Obviamente que o Moro, ele não tem que prestar contas pra mim, eu acho que ele tem que prestar contas para a História, como eu devo prestar conta pra História.

A História na verdade é quem vai dizer quem tá certo e quem tá errado. Eu continuo afirmando pra vocês que nã