Marielle: não podemos aceitar!


A execução sumária da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, ato de barbárie e crueldade, tem evidentes características de crime político. Marielle há tempos militava na defesa dos direitos humanos, que não são etéreos, mas bem tangíveis: direito à vida, à liberdade, ao trabalho, à educação, entre outros. Marielle lutava, em especial, pelos direitos humanos de pessoas que, na sociedade brasileira ainda marcada por profunda desigualdade, mais frequentemente têm aqueles direitos negados: negros, pobres e moradores de favelas e outras áreas populares.

Por isso, Marielle denunciou, desde logo, as limitações da intervenção militar na área de segurança pública no RJ, medida pirotécnica e politiqueira adotada pelo governo federal ilegítimo, posto que insiste na mesma lógica de combate à violência, infrutiferamente praticada pela PMERJ nos últimos 30 anos: guerra ao varejo do tráfico em comunidades populares, cujo principal resultado tem sido, há décadas, o aviltamento da dignidade das famílias trabalhadoras que ali residem, vítimas de constantes abusos cometidos por policiais; a criminalização da pobreza e o genocídio da juventude negra e popular. Nessas operações, constantemente morrem também policiais em serviço, cujas famílias, além da dor, muitas vezes enfrentam périplos burocráticos para receber pensões e demais direitos. Contra isso Marielle também se insurgia. Daí suas críticas à intervenção (mais do mesmo) e seu afã de fiscalizá-la de perto, como membro do parlamento carioca. Aliás, acabara de ser designada relatora de Comissão especialmente criada, na Câmara do Rio, para esse fim.

Porém, além da devastação causada pelo brutal e covarde assassinato de Marielle e Anderson, dois outros aspectos denunciam a crise civilizatória que vivemos. Por um lado, se confirmada a hipótese de que a execução foi obra macabra de milícias infiltradas na polícia, linha de investigação ainda não descartada, estaria evidenciada a existência de um banditismo entranhado no aparelho de Estado, o que é sinônimo de fascismo. Por outro lado, as manifestações odiosas, intolerantes, jocosas e mentirosas, que circulam nas redes sociais, em alusão ao assassinato de Marielle, revelam a putrefação da condição humana: uma patologia da alma.

Mulher, negra, lésbica e com raízes na favela, Marielle, nesta sociedade tão estratificada, preconceituosa e conservadora, tinha tudo para “dar errado”. Sua execução, contudo, revela que ela estava dando tão certo que era preciso silenciá-la, como uma mensagem, um recado a todas e todos que pretendem ir fundo para denunciar e superar nossas piores mazelas sociais. Não podemos naturalizar o que está acontecendo. Precisamos nos indignar, mas ficar de pé, mantendo acesa a chama da luta contra a destruição do Estado Democrático de Direito no Brasil. Como escreveu Cora Rónai, não podemos aceitar!

Publicado originalmente em O Fluminense.

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