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Ciência e Existência


No primeiro domingo de julho de 2019, emoldurada por um iluminado céu azul invernal, a Quinta da Boa Vista acolheu o evento "Ciência com Consciência", qualificada e diversificada feira de ciências. Sob a liderança da setentona Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), universidades e institutos de pesquisa deram mais uma prova da diversidade e da qualidade da produção científica no Estado do Rio de Janeiro. Merece destaque, entre pesquisadores de longo fôlego e dirigentes das instituições participantes, a presença expressiva de jovens cientistas ou aprendizes da ciência: estudantes de graduação e de pós-graduação, apaixonados pela experiência científica e ávidos por expor, por meio de explicações minudentes, os diferentes experimentos exibidos ao público. Também merece ênfase a presença quase exclusiva de instituições públicas, mais uma confirmação de que a produção científica e tecnológica brasileira provém, essencialmente, das universidades e institutos de pesquisa públicos e estatais, ao contrário do que afirmou, de forma desonestamente depreciativa, o atual presidente da República, cujo governo é declaradamente inimigo da ciência.

O governo brasileiro não pode continuar em sua sanha obscurantista, verdadeira marcha da insensatez, buscando desqualificar ou cercear instituições que formam quadros e produzem ciência, tecnologia e inovação. As universidades e institutos de pesquisa conceituados vêm sendo sucessivamente fustigados, depreciados e atacados pelo governo Bolsonaro. Ora, as atividades que essas instituições desenvolvem são indispensáveis ao desenvolvimento científico, econômico e social, bem como à afirmação da soberania nacional. Afinal, que interesses o governo Bolsonaro pretende proteger, quando tenta invalidar as pesquisas feitas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, fundamentais para monitorar o desmatamento da Amazônia brasileira, que aumentou assustadoramente desde o golpe de 2016? Ou quando se recusa a aceitar os dados científicos sobre o dramático fenômeno da dependência química apresentados, em robusto relatório científico, pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz? Ou quando atua para cercear o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística na produção do Censo 2020, sem o qual o Brasil não se conhece nem reconhece os desafios que tem pela frente, em especial no tocante ao combate à desigualdade? Ou quando impõe cortes profundos no orçamento de universidades e institutos federais, comprometendo cursos de graduação e de pós-graduação, laboratórios, projetos de pesquisa e extensão, enfim, o conjunto das atividades acadêmicas? Por que Bolsonaro tanto teme e ataca a ciência e as instituições científicas?

Tomei emprestado do mestre Álvaro Vieira Pinto o título deste artigo para evidenciar a relação intrínseca entre a ciência e a qualidade de vida cotidiana numa determinada sociedade. Mas também para sublinhar que as próprias condições de existência de uma Nação, sobretudo no mundo pós-moderno, globalizado e competitivo, dependem diretamente de como ela se coloca no campo da produção em ciência, tecnologia e inovação. As nações soberanas e altivas não abrem mão de liderar os principais rankings científicos. Em contrapartida, as nações subalternas e dependentes limitam-se a exportar matéria-prima bruta e a importar tecnologia produzida alhures. O evento "Ciência com Consciência" aconteceu no mesmo dia em que se disputou a final da Copa América no Maracanã. Milhares de pessoas que passaram pela mostra científica na Quinta da Boa Vista aplaudiram as instituições, os pesquisadores e seus trabalhos ali apresentados. Já no estádio, dezenas de milhares de pessoas entoaram uma ruidosa vaia dirigida ao presidente Jair Bolsonaro. Na peleja entre o saber e as trevas, a ciência saiu vitoriosa.

Artigo do deputado estadual Waldeck Carneiro (PT), publicado na edição impressa de julho do jornal TODA PALAVRA. Leia a versão digital da edição completa em https://joom.ag/zOCe

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