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80 anos da libertação de Leningrado: as lições da vitória soviética


Da Sputnik Brasil

Por Fabian Falconi

Neste sábado (27) completa-se 80 anos da libertação do cerco a Leningrado, um dos capítulos mais importantes da Grande Guerra pela Pátria durante a Segunda Guerra Mundial. Com grandes lições para o mundo de hoje, a importância dessa grande batalha não se limita somente ao século passado, afirma o historiador João Cláudio Pitillo à Sputnik Brasil.


Durante quase 900 dias, Leningrado, hoje São Petersburgo, ficou sob o cerco das forças nazifascistas do Eixo, enfrentando bombardeios e ataques aéreos diários, escassez de alimentos e de combustíveis, além dos brutais invernos russos. Milhões de pessoas morreram por conta dos ataques, da fome e do frio.


Ainda assim, a cidade nunca foi conquistada pelas forças nazistas. Para João Cláudio Pitillo, autor do livro "Aço vermelho: os segredos da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial", a vitória soviética representou um grande recado para o mundo: "Estamos vivos, vamos resistir, o inimigo não é tão poderoso assim."


O que aconteceu no cerco de Leningrado?

Entre as batalhas da Frente Leste, principal área de combate na Europa, é possível destacar muitas grandes vitórias soviéticas, como a de Stalingrado, a mais sangrenta, e a de Kursk, que abriu grandes caminhos para a vitória, mas em termos estratégicos e de simbolismo, Leningrado é uma das maiores.


"Leningrado era a segunda maior cidade da União Soviética, uma grande capital política, cultural e financeira, e era um dos principais objetivos da operação Barba Ruiva", aponta Pitillo.


A operação Barba Ruiva, ou Barbarossa, definiu os planos de invasão da União Soviética pelas forças do Eixo. Ela possuía três grandes objetivos: a tomada da Crimeia, a tomada de Moscou e a tomada de Leningrado.


Sobreviver ao cerco, aponta Pitillo, causou grandes problemas estratégicos aos alemães, uma vez que "reteve uma quantidade grande de tropas fascistas, alemães, finlandesas, espanholas, italianas".

"Se a derrota de Leningrado tivesse acontecido, teria liberado forças para atacar Moscou e a Batalha de Moscou poderia ter tido outro destino."


Em janeiro de 1944, com a vitória e a liberação total da cidade, "não só se libera todas essas forças soviéticas para voltarem a atuar na guerra", diz Pitillo. "Mas também conflui para os avanços do Exército Vermelho em direção aos Estados Bálticos, pondo fim por completo à invasão alemã naquela região."


A resistência e a vitória: o espírito do povo soviético

Por aqui no Brasil não tivemos dimensão das conquistas soviéticas na Segunda Guerra Mundial. A imprensa brasileira da época "noticia a conta-gotas as vitórias soviéticas", fruto da censura do governo Vargas e seu Departamento de Imprensa e Propaganda, sublinha Pitillo, que também escreveu o livro "O Exército Vermelho na mira de Vargas".


"No primeiro momento era a ditadura Vargas que não permitia, era o anticomunismo que reinava no Estado Novo que não permitia. Havia o medo de que essas informações influenciassem o movimento comunista no Brasil."


Depois, com a mudança dos ventos advindos das derrotas alemãs na Europa e na África, o paradigma da censura foi afrouxado, "até porque o Brasil também fazia parte do contexto aliado de luta contra os alemães". Mas, mesmo assim, os brasileiros da época não tiveram dimensão da vitória soviética.


"Foi uma coisa épica resistir ao cerco, conseguir vencer esse cerco e continuar avançando desde então."


Não foram só 900 dias de cerco, reforçou Pitillo, mas 900 dias de batalha. As forças da URSS não ficaram só detidas na cidade, mas "criaram e desenvolveram várias operações ofensivas ao longo desses três anos".

Em termos de resistência, o especialista destaca três grandes veias de ação: a militar, a científica e a popular.


Ainda em 1941, os militares estabeleceram perímetros defensivos nas áreas periféricas e rurais, não permitindo que os nazistas se aproximassem do centro da cidade. Ainda assim, a força de ataque é grande, com ataques ao norte partindo diretamente da Finlândia e rompendo as ligações com o lago Ladoga.


"A segunda grande resistência é todo o aparato logístico, a capacidade inventiva do governo em apresentar soluções para os problemas que vão acontecendo."


Os cientistas em Moscou e Leningrado, por exemplo, estabelecem uma conexão de rádio com códigos cada vez mais seguros. Eles desenvolveram alimentos para a população sob o cerco e, com grande destaque, houve o estabelecimento da Estrada da Vida sob o Ladoga, uma ferrovia sobre o gelo que era refeita manualmente a cada inverno.


"Um trabalho gigantesco dos cientistas soviéticos de entender qual a espessura mais indicada para você atravessar jipes, caminhões, vagões de trem, qual era a tonelagem permitida, quantos centímetros você precisava para que uma composição ferroviária passasse."


Porém, mais importante do que tudo isso foi o espírito do povo soviético, apontou Pitillo. Havia uma coesão muito grande entre o Partido Comunista, o governo, as forças militares e os agrupamentos civis em manter a cidade de pé, ressaltou. "Então, acho que esses são pontos de extremo heroísmo."


"Foi isso que a população de Leningrado, treinada pela Revolução de 1917, fez. Ela só conseguiu resistir a quase 900 dias debaixo de ataques nazistas, fome e frio, porque estava mobilizada."

A vitória da URSS na Grande Guerra pela Pátria e na Segunda Guerra Mundial teve uma importância que se expande muito além do século XX. Suas repercussões chegam até hoje na cartografia geopolítica do mundo. "Ela nos deu o mapa do mundo que está aí, nos deu a ONU [Organização das Nações Unidas], os blocos e nos mostrou a verdadeira face do fascismo."


"A Segunda Guerra Mundial nos mostrou que o capitalismo não se furta em usar o fascismo, a sua face mais brutal, no momento de crise."


O fascismo "é uma cachorra que está sempre no cio", diz Pitillo citando Bertolt Brecht. "Ele é ativado de tempos em tempos pelo sistema econômico chamado capitalismo."


Todas essas grandes batalhas travadas nas cidades da União Soviética, aponta, contaram com uma resistência da população muito grande. "O nazismo, o fascismo, nunca foi visto como opção na União Soviética. Nunca foi recebido de braços abertos. Nunca foi visto como positivo."


"Esse é o grande legado que os leningrandenses passaram para o mundo 80 anos depois."


A libertação de Leningrado revela o peso da coesão social existente na população da União Soviética naquele momento, de não permitir a entrada do fascismo na cidade, de optar "pelo modelo que o socialismo gradativamente lhes foi entregando: justiça, paz, igualdade, desenvolvimento e soberania".

Para Pitillo, essa resistência "é o que marca a vitória e nos direciona, nesse 2024, para entender o papel do fascismo e do imperialismo".


"A maneira segura que nós temos de rechaçar essas ideologias é a construção de uma sociedade justa, fraterna, igualitária, onde a coesão social seja vista a partir de um projeto de desenvolvimento."

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