A aliança do fascismo com Zelensky na origem da guerra

Atualizado: 16 de mar.

Por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque


Tanque com a bandeira comunista na luta pela independência das repúblicas populares do Donbass / Reprodução

Muito antes do mundo começar a assistir - e se indignar - com os bombardeios russos às cidades ucranianas, a região de Donbass, no leste do país que agora enfrenta os soldados de Vladimir Putin, tem vivido durante oito anos os horrores das bombas que também vitimaram crianças inocentes.

Em entrevista exclusiva ao TODA PALAVRA, o jornalista ucraniano Dmitri Kovalevich revela como militantes e paramilitares nazifascistas apoiam o regime de Zelensky nos ataques realizados desde 2014 contra as repúblicas rebeldes de Donetsk e Lugansk, na região de Donbass, cuja independência foi uma das condições impostas pela Rússia à Ucrânia para pôr fim à guerra.

O combate à diversidade étnica de Donbass - inclusive como grande quantidade de russos descendentes - e a perseguição aos comunistas que lutam pelo reconhecimento das duas repúblicas populares são, segundo ele, a motivação de Zelensky e dos nazifascistas e seria também o estopim da guerra.

Dmitri é um jornalista ucraniano que militava na organização comunista Borotba, banida após o golpe pró-ocidental sofrido pela Ucrânia em 2014, quando a organização foi declarada ilegal em função dos protestos contra a institucionalização do neonazismo na sociedade ucraniana.

Sua organização apoiou ativamente os rebeldes do Donbass no conflito civil que, desde o golpe e a operação militar contra a população das regiões do Leste da Ucrânia por parte das Forças Armadas Ucranianas e sua estrutura paramilitar neonazista, causa uma dolorosa e sangrenta ferida na sociedade ucraniana.


Ruínas de prédio bombardeado pelas forças russas em Kiev / Reprodução

Toda Palavra: Como você definiria o movimento de independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk em termos ideológicos?

Dmitri Kovalevich: Bem, é apenas um desejo de viver separado de um estado que não se gosta. Os motivos podem ser étnicos, religiosos, econômicos (como no caso da independência dos EUA da Grã-Bretanha) ou ideológicos. No caso do nosso conflito civil na Ucrânia podemos ver, sim, a questão como ideológica. A esmagadora maioria da região altamente industrializada de Donbass preserva principalmente sua mentalidade de classe e pró-soviética.

Historicamente, sendo trabalhadores de várias origens étnicas, eles resistem à política de estado mono étnico na Ucrânia e suas tentativas de revisionar os resultados da Segunda Guerra Mundial, visto que as autoridades de Kiev promovem oficialmente o culto de fascistas da Segunda Guerra Mundial e conduzem a política de descomunização (proibição de partidos comunistas, símbolos, materiais, postagens na internet, etc.).

O movimento pela independência do Donbass foi desencadeado pelo golpe pró-EUA em 2014. Muitos ucranianos pró-soviéticos ou comunistas se mudaram de Kiev para Donetsk resistindo contra seus antigos vizinhos. Em 2015, foram assinados os acordos de Minsk. Implicaram que a reintegração das repúblicas do Donbass de volta à Ucrânia ocorreria se isso permitisse que a região preservasse a sua autonomia cultural. Kiev assinou, mas não cumpriu por sete anos, pois isso seria ruim para impor o nacionalismo étnico.

TP: Qual o papel do socialismo/marxismo na vida política das repúblicas de Donbass?

DK: Como eu disse, muitos comunistas ucranianos se mudaram para as repúblicas de Donbass, vindos do resto da Ucrânia, para fugir do terror fascista. Muitos deles se juntaram aos rebeldes do Donbass (o então exército das repúblicas). Muitos morreram em ações na guerra que já dura oito anos.

Devo enfatizar: nossa guerra começou não em fevereiro de 2022, mas na primavera de 2014 — quando voluntários neonazistas (paramilitares) foram enviados para cidades rebeldes do leste que não reconheciam o governo pós-golpe. E todos os liberais ocidentais, que apenas começaram a gritar “pare a guerra na Ucrânia”, agora ignoraram completamente a guerra no Donbass.

Em ambas as repúblicas trabalham partidos comunistas. Você pode visitar o site do partido comunista de Donetsk (www.wpered.su)*. Os comunistas de Donbass são apoiados e auxiliados principalmente pelo Partido Comunista da Federação Russa. E o projeto de lei sobre o reconhecimento das repúblicas em fevereiro de 2022 foi apresentado exatamente pelos comunistas russos e depois adotado pelo parlamento russo.

TP: Ambas as repúblicas possuem o mesmo perfil ideológico?

DK: Sim, quase não há diferença entre elas. Surgiram duas repúblicas apenas porque haviam duas regiões rebeldes com seus centros e fronteiras administrativas entre elas.

TP: Há muitos esquerdistas, comunistas e socialistas no Brasil que se confundem com a propaganda ocidental e desconhecem o assunto. O que você diria para eles?

DK: Muitos esquerdistas estão sob controle total da mídia ocidental. Podemos não saber pessoalmente o que está acontecendo na Indonésia ou na Bulgária — por isso tendemos a confiar na mídia de grandes empresas. E os grandes capitalistas investem bilhões em mídia não é em vão — seus investimentos são pagos quando você confia neles e promove sua política.

Eles têm um número grande de ferramentas para manipulação. Posso ver agora o influxo em massa de falsificações sobre nosso conflito. Você é bombardeado por milhares deles e todos visam pressionar seus profundos sentimentos humanos. Isso é fácil para manipular a moral das pessoas.

Muito provavelmente você não ouviu nada sobre o bombardeio sistemático de Donetsk, que não parou por oito anos. E muito provavelmente você não ouviu falar sobre o ‘beco dos anjos’ de Donetsk — memorial às crianças mortas pelo bombardeio do exército da Ucrânia. Você ouve sobre a guerra e os sofrimentos apenas quando os rebeldes de Donetsk contra-atacam e um aliado da OTAN pode ser derrotado.

O terror da extrema-direita na Ucrânia deve ser interrompido e nossos camaradas devem ter a possibilidade de voltar para casa e trabalhar aqui legalmente. O fascismo e o racismo são uma característica do nosso regime. O presidente Zelensky é apenas um fantoche, um ator contratado atuando como presidente. Nossa ideologia nacional desde 2014 é baseada em culpar o comunismo e a ideologia de esquerda.

Mas o fascismo também ajuda a promover reformas neoliberais aqui — aumentando os preços de tudo, enquanto qualquer categoria de protesto contra isso está sendo rotulado como “pró-russo” e impiedosamente agredida por paramilitares fascistas. Este é um modelo para qualquer outro país. O fascismo é apenas uma ferramenta do capitalismo destinada a obter mais lucros. Qualquer derrota que abale o capitalismo é um alívio para os trabalhadores em todo mundo.

* O site do Partido Comunista de Donetsk utiliza o domínio .su (Soviet Union).


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