"A escolha de Sofia" - Crônica de Ângela Rocha


Ângela Rocha


Vai entender coração de mãe!

Certa vez, estou eu em um aeroporto desses da vida, voo atrasado, horas aparentemente perdidas, quando, de repente, se senta ao meu lado uma mulher com duas crianças – um menino e uma menina.

Logo descobrimos a familiaridade do idioma. Sorrimos uma para a outra, com uma espécie de cumplicidade feminina. Estavam as duas acompanhadas, porém sozinhas. Meu marido estava absorto no celular, com fones no ouvido, resolvendo algo de trabalho. Seus filhos, um pouco mais afastados, estavam dispersos em eletrônicos.

Começamos a conversar. Não foi difícil descobrir as coincidências. Ambas moravam no Rio, em bairros próximos. As minhas filhas haviam estudado no mesmo colégio que os seus filhos agora frequentavam.

Passada essa fase, a mulher já parecia uma amiga de infância. Meu marido me olha por cima dos óculos, com cara de riso. Retribuo o sorriso, sem necessidade de legenda. Entendi que estava achando engraçada a intimidade dela comigo. Eu também.

De repente, ela movimenta o corpo na cadeira, chegando mais para perto, e olha ao redor como se confirmando que ninguém estaria ouvindo. E pergunta:

- Posso desabafar com você uma coisa que aconteceu conosco uns seis meses atrás?

Pronto. Lá vem uma história. Pensei.

- Claro, disse eu, balançando a cabeça.

- Minha casa foi assaltada – começou a contar. Foram mais de duas horas de terror com três bandidos revirando tudo, recolhendo joias, relógios, eletrônicos, cartões, dinheiro, e ainda abrindo garrafas de vinho e comendo o que encontravam na geladeira.

Fez uma pausa. Parecia meio trêmula. Esperei que bebesse uma água. Vi novamente o olhar do meu marido, desta vez com a testa franzida. Tive vontade de rir, mas segurei. A história era séria mesmo e, naquele momento, ainda nem sabia que o pior ainda estava por vir.

- Nossa! Que situação terrível, comentei.

- Sim. A pior da minha vida. E, quando eu achei que tinha acabado, que eles já tinham recolhido tudo de valor e iriam embora, começou o meu drama: um dos bandidos, o que parecia ser o chefe, avisou que já estavam indo embora, mas que precisavam levar um refém. Pegou a minha filha pelo braço e avisou que a libertaria em uma rua próxima. Garantiu que não aconteceria nada com ela, desde que eu não gritasse ou chamasse a polícia.

Ela deu uma nova pausa para buscar a garrafa de água. Aproveitei para observar melhor as crianças. Uma bela garota morena de cabelos compridos, muito parecida com a mãe. O menino, de rosto redondo e cabelo meio avermelhado, deve ter provavelmente puxado ao pai, pensei.

Acredite. Sempre que as coisas estão ruins, podem piorar.

Fiz a pergunta óbvia. Você não se ofereceu para ir no lugar dela?

- Sim. Claro. Mas ele ficou ainda mais nervoso. Tudo já estava muito tenso, minha cabeça parecia que ia explodir.

Então, descubro que aquela mulher sentada ao meu lado, uma mãe comum, havia tomado uma decisão estranha e inesperada:

Ela avisa ao assaltante que quer trocar as crianças. Puxa para perto de si a filha de 12 e o entrega o filho de 9 anos para ser levado como refém.

Foi impossível, nesse momento, não lembrar do clássico do cinema, “A Escolha de Sofia”. Quem nunca viu o filme ou não conhece a história, corra para o Google. É, talvez, a maior angústia a que pode ser submetida uma mãe.

Fico parada, com cara de paisagem, tentando absorver a situação relatada.

Ela interrompe meus pensamentos e pergunta:

- Você acha que eu errei em ter feito a troca?

Respirei fundo, tentando ganhar tempo. Sem saber o que responder, resolvi perguntar a ela como tinha terminado a história.

Ela contou que eles levaram o garoto e o soltaram algumas quadras depois. Segundo ela, o menino voltou a pé, entrou em casa cabisbaixo, foi direto para o quarto e ficou uma semana sem descer ou falar com ninguém. Nos meses seguintes, engordou quase 10kg.

Pedi desculpas a ela pela indiscrição, mas queria tentar entender o porquê da troca.

Me pareceu sincera quando disse que se preocupou com a filha por ela ser menina e mais velha, o que poderia suscitar más intenções nos bandidos.

- Faz sentido, disse eu, meio sem certeza.

Finalmente a voz do alto-falante chama o meu voo e me tira da enrascada. Meu marido, já de pé na minha frente, me dá a deixa para levantar. Ela também fica de pé. Damos um abraço apertado, solidário.

Confesso que carreguei comigo esse conflito. Não saberia e nem gostaria de responder se ela tinha agido certo ou não. É no mínimo estranho uma mãe trocar um filho por outro para entregar na mão de bandidos.

Deixo para vocês a reflexão. E termino com a mesma frase que comecei:

Vai entender coração de mãe!


Angela Rocha é jornalista, apaixonada por pessoas e historias, viajante compulsiva.

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