A horta secreta do Mário no terraço do seu Caneco Gelado

Texto e fotos de Luiz Augusto Erthal


O Caneco Gelado do Mário, tradicional reduto boêmio e gastronômico de Niterói, esconde, na Rua Marquês de Caxias, no Centro da cidade, segredos maiores do que a receita dos famosos bolinhos de bacalhau. Mas, ao contrário desta, que o chefe Mário Martins Ribeiro Carvalho promete repetidamente que irá levar para o túmulo quando morrer, o proprietário do concorrido restaurante concordou em mostrar ao TODA PALAVRA uma parte surpreendente da casa que os fregueses desconhecem.


Há dias ele vem exibindo, orgulhoso, uma abóbora gigante, de 12,5 quilos, postada sobre o balcão frontal do bar, ao lado da entrada do restaurante. A todos que se admiram com o generoso fruto, ele faz a revelação surpreendente: a abóbora, assim como vários outros legumes, verduras e frutas, foi cultivada em caixotes de bacalhau no terraço do restaurante.

O carro-chefe da casa também contribui para o cultivo de uma impensável combinação de horta e pomar em uma região onde o adensamento urbano quase não deixou espaço para o verde da vegetação. Mas, após se transformar nos crocantes bolinhos e em alguns dos pratos deliciosos da culinária portuguesa, o bacalhau fornece sua embalagem para a plantação que Mário cultiva, com a ajuda de alguns de seus funcionários, no terraço do imóvel.


Dezenas de caixas de bacalhau, forradas de terra preta bem adubada, se espalham na última laje, equivalente ao terceiro piso do restaurante. É o próprio Mário quem mostra, orgulhoso, a plantação. Nos caixotes de onde saiu o exemplar exibido no balcão do bar, pelo menos mais três abóboras, mais ou menos do tamanho daquela, já aguardam para serem colhidas também.

Apontando para outros caixotes, onde estão as batatas doces, Mário informa, satisfeito, que a última colheita rendeu 40 quilos do produto. “Neste país, ninguém tinha que passar fome”, vaticina o português, que chegou ainda menino ao Brasil.

Os legumes e as verduras ali plantados, porém, não vão para a cozinha do restaurante. São doados pelo proprietário aos funcionários. Mas nem por isso a horta deixa de dar uma preciosa contribuição aos quitutes do Caneco Gelado. Conhecedor experiente dos segredos culinários, Mário faz questão de produzir ali, também, temperos selecionados. Alfavaca italiana, alecrim, coentro, cheiro verde e outras ervas finas, frescas e aromáticas, são empregados na preparação dos pratos que vão às mesas do restaurante.



São dezenas de espécies cultivadas no terraço da casa. Mário faz questão de garantir a diversidade da plantação, de onde recolhe, além da batata doce, outras raízes, como aipim, mas também frutos aéreos, como tomates e quiabos, legumes, como a vagem, grãos, como o milho, e até mesmo frutas, como a uva, cujos cachos já crescem nesta época do ano e são exibidos com orgulho pelo “fazendeiro” urbano.

Contribuindo há mais de 50 anos para aprimorar o paladar dos niteroienses, Mário também oferece à cidade, com a plantação cultivada em seu terraço, um exemplo a ser seguido de boas práticas ambientais, além de mostrar que o segredo de uma boa alimentação não está apenas na cozinha, mas nasce da preservação da própria natureza.



300x250px.gif
728x90px.gif