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A nova minuta do golpe sob os auspícios dos EUA

  • há 3 horas
  • 7 min de leitura

Por Luiz Augusto Erthal


A intervenção norte-americana nas eleições brasileiras deste ano, ilustrada explicitamente dentro do Salão Oval da Casa Branca por Donald Trump e Flávio Bolsonaro - candidato da extrema direita em oposição à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, é fruto não apenas dos desatinos do presidente dos Estados Unidos, mas de uma estratégia construída por agentes e ideólogos da extrema direita a serviço da CIA e do Departamento de Estado, em Washington.


Donald Trump posa como cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro / Reprodução redes sociais
Donald Trump posa como cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro / Reprodução redes sociais

Em colaboração com o Executive Intelligence Review (EIR), revista independente com mais de 50 anos de atuação na contra-mão da mídia mainstream dos Estados Unidos, o TODA PALAVRA vem acompanhando os passos e as idéias, que circulam dentro de nichos discretos do establishment norte-americano, de um influente estrategista da “Doutrina Donroe” - a Doutrina Monroe redefinida por Donald Trump -, com trajetória vinculada ao Departamento de Estado: o professor e pesquisador sênior de estudos latino-americanos do U.S. Army War College, Evan Ellis.


Em seus mais recentes escritos e entrevistas, publicados por canais do pensamento oligárquico naquele país, ele não deixa dúvidas quanto à determinação do governo Trump para barrar a reeleição de Lula, a fim de alcançar os seus dois maiores objetivos políticos na América Latina: interromper a crescente influência da China na região e desarticular a liderança do Brasil como um dos mais importantes impulsionadores do BRICS e da visão de um novo mundo multipolar.


Em artigo publicado recentemente na inFOCUS Quarterly, revista de política e segurança nacional, com ênfase nas ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, mas também em outras latitudes, ele classifica as próximas eleições no Brasil como "particularmente críticas para a direção estratégica da América do Sul". Evan Ellis define os objetivos norte-americanos na região como um conflito binário entre os governos que se alinham aos Estados Unidos e aqueles regimes "alternativos, populistas ou disfuncionais" que não o fazem.


Os elementos propícios a uma nova minuta do golpe, agora sob os auspícios de Donald Trump, estão alinhados neste artigo. Entre eles, denúncias infundadas de envolvimentos dos investimentos chineses na América do Sul com o narcotráfico, o que, coordenado com a classificação, pelo Departamento de Estado, do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, poderia justificar até mesmo uma intervenção armada dos Estados Unidos no Brasil.


Think tank sionista


O veículo em que Ellis faz essa análise é o porta-voz do Jewish Policy Center, um think tank neoconservador sediado em Washington, D.C., braço da Republican Jewish Coalition (Coalizão Judaica Republicana), financiada por bilionários sionistas como Paul Singer, que fez fortuna por meio de seu notório fundo abutre, o Elliott Management. Ele também frequenta alguns dos principais podcasts da direita norte-americana, como o “John Batchelor Show”, onde analisa de viva voz o quadro geopolítico do Caribe e da América do Sul.


Evan Ellis / Reprodução redes sociais
Evan Ellis / Reprodução redes sociais

Evan Ellis, no entanto, não é apenas um ideólogo acadêmico ou um analista geopolítico descomprometido. Sua presença pode ser percebida tanto nos principais corredores de Washington quanto no próprio campo em que se desenrolam os acontecimentos políticos.


A convite de Mike Pompeo, ele integrou a equipe de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado entre 2019 e 2020, período em que ficou responsável pelas questões relativas à América Latina, bem como por assuntos de narcóticos internacionais e aplicação da lei norte-americana em esferas internacionais. Nessa função, ele foi “responsável por ajudar a definir a direção estratégica da política dos Estados Unidos em relação à região”, segundo escreveu em seu próprio LinkedIn.


Nos últimos meses, Evan Ellis tem circulado com discrição e desenvoltura por países da América Latina, como se pode perceber ao falar “diretamente da Argentina” - hoje a principal base aliada dos Estados Unidos na região -, conforme anunciado ao vivo pelo apresentador de um dos recentes episódios do podcast de John Batchelor. Seus movimentos pelo continente coincidem com as recentes eleições do Peru e da Colômbia, onde os candidatos de direita foram abertamente apoiados por Washington, assim como ocorre agora no Brasil.


A China e a “eleição crítica”


Sob o título “Latin America’s Evolving Strategic Panorama” - “O panorama estratégico em evolução da América Latina”, em tradução livre -, o artigo de Evan Ellis no inFOCUS Quarterly destaca a importância estratégica do Brasil no panorama da América do Sul, inclusive sob o aspecto militar:


"As eleições de 4 de outubro no país mostram um empate estatístico entre o atual presidente de esquerda e octogenário, Luiz Inácio 'Lula' da Silva, e Flávio Bolsonaro, o filho conservador e pró-EUA do ex-presidente preso Jair Bolsonaro. A eleição é particularmente crítica para a direção estratégica da América do Sul, região na qual o Brasil detém metade da população, metade da extensão territorial (fazendo fronteira com todos, exceto dois, dos demais países do continente) e uma força militar superior à soma das forças dos outros países sul-americanos”.


Lula com Xi Jinping em Pequim / @Ricardo Stuckert - Presidência da República
Lula com Xi Jinping em Pequim / @Ricardo Stuckert - Presidência da República

Mas é na análise do papel político do presidente Lula que Evan Ellis correlaciona o líder brasileiro à influência da China e de outros países do Sul Global, graças à atuação do Brasil em organismos multilaterais, especialmente o BRICS:


“Lula desempenhou um papel significativo não apenas ao atrair cerca de 40% de todo o comércio e investimento da República Popular da China para a região, mas também na colaboração militar e espacial com a RPC e na atuação conjunta em fóruns multilaterais, desde o sistema das Nações Unidas até o BRICS. Sob a gestão de Lula, o Brasil também emergiu como um dos países da região mais críticos às políticas dos Estados Unidos, aproveitando a liberdade proporcionada por sua relativa independência em relação ao mercado americano”.


Evan Ellis vincula, como visto, o aumento do comércio com a China à postura independente do Brasil, que se torna, assim, menos atrelado economicamente aos Estados Unidos. Apesar do caráter analítico do texto, que evita expor publicamente quais seriam as contra-medidas adotadas pelos Estados Unidos para impedir a permanência de Lula no poder, as entrelinhas revelam observações sensíveis do professor do War College, como a idade do presidente brasileiro, definido no artigo como um “octogenário”, e um ponto pouco explorado, inclusive nas manobras intimidatórias de Donald Trump: a “colaboração militar e espacial [do Brasil] com a RPC”.


A nova minuta do golpe


Mas a grande dica que justificaria uma ação intervencionista norte-americana surge no artigo quando Evan Ellis vincula os investimentos chineses na América do Sul ao narcotráfico. Ele vai além das acusações já manifestadas por Donald Trump de fornecimento, pela China, de precursores químicos e equipamentos para cartéis locais, o que por si só já poderia encadear com a decisão de Marco Rubio de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, criando o enredo - nada incomum às fantasias de Trump, como a que justificou o ataque à Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, hoje prisioneiros nos Estados Unidos - que ligaria a China a essas organizações criminosas brasileiras.


Maduro sequestrado / Reprodução
Maduro sequestrado / Reprodução

Evan Ellis acrescenta a ideia de que o “acesso à região por parte de adversários geopolíticos dos EUA, como a República Popular da China” significa uma ameaça aos interesses estratégicos norte-americanos equivalente àquela representada pelas “drogas e outras atividades criminosas” na região.

"A expansão do comércio e dos fluxos financeiros entre a região e a China apresenta novas oportunidades de lavagem de dinheiro para criminosos, bem como desafios associados para as unidades de inteligência financeira e outras autoridades regionais, dado o conhecimento e o acesso limitados a bancos e empresas sediados na RPC", escreveu.


Quatro anos depois, o fantasma da minuta do golpe ressurge, agora com a hipótese de um roteiro patrocinado pelos Estados Unidos, cujos elementos estão todos verbalizados por Donald Trump, Marco Rubio e seus estrategistas do War College: suspeitas infundadas de fraude eleitoral, envolvimento fantasioso da China com o narcotráfico e as facções brasileiras, um clima de suspeição e insegurança social estimulado por influenciadores digitais, e, por fim, uma ação militar norte-americana para restabelecer a “segurança” e a “democracia”. Variações de um filme de terror que rodou em 1964 e permaneceu em cartaz por 25 anos.


O cerco


À medida em que se aproximam as eleições de 4 de outubro, um conjunto de movimentos políticos vem deixando cada vez mais evidente essa ação orquestrada dos norte-americanos para influir na escolha do novo presidente do Brasil. Combinada com a estratégia de intimidação característica do estilo Donald Trump, a tentativa de penetração de agentes com o objetivo de questionar o sistema eleitoral brasileiro e as ações políticas das próprias instituições diplomáticas, como a reunião convocada pelo consulado norte-americano em São Paulo com influenciadores digitais, demonstram que o cerco vem se fechando.


Secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson, do Departamento de Estado, viriam em missão ao Brasil questinionar as urnas eleitoriais brasileiras, mas tiveram os vistos de entrada negados pelo Itamaraty / Reprodução
Secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson, do Departamento de Estado, viriam em missão ao Brasil questinionar as urnas eleitoriais brasileiras, mas tiveram os vistos de entrada negados pelo Itamaraty / Reprodução

Na segunda quinzena de julho, dois jornalistas norte-americanos do EIR estiveram no Brasil trazendo o que eles definiram como um “alerta vermelho” sobre as ações do governo de Donald Trump, visando interferir nas eleições brasileiras. O diretor da revista, Dennis Small, e o responsável pela cobertura do Congresso em Washington, Timothy Rush, participaram de algumas conferências no eixo Rio-São Paulo e concederam entrevistas a veículos da mídia independente brasileira.


A convite do TODA PALAVRA, eles se reuniram com intelectuais na sede da Sociedade Fluminense de Fotografia, em Niterói, onde concederam uma entrevista ao canal www.youtube.com/@todapalavra - disponível em https://youtu.be/9BqFCWLFPms.


Para Dennis Small, novas ações de desestabilização do governo brasileiro, cujos efeitos seriam capazes de enfraquecer a candidatura do presidente Lula, podem acontecer nas próximas semanas. Ele citou o exemplo da eleição de Javier Milei na Argentina, que qualificou como um golpe patrocinado pelos Estados Unidos com base em manipulações cambiais e do mercado financeiro para promover o aprofundamento da crise econômica que ajudou a conduzir ao poder o aliado de Donald Trump. Para o jornalista, algo parecido também pode acontecer no Brasil, como uma repentina fuga de capitais.


Mas, caso a estratégia eleitoral não seja suficiente para impedir a reeleição de Lula, uma nova minuta do golpe já está desenhada.


Luiz Augusto Erthal é editor executivo do TODA PALAVRA.


 
 
 
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Editor Executivo: Luiz Augusto Erthal. Editoria Nacional: Vanderlei Borges.

Editor Assistente: Osvaldo Maneschy. Editor de Arte: Augusto Erthal (in memoriam).

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