Advogada da Prevent confirma pacto macabro negacionista


A advogada Bruna Morato confirmou graves denúncias à CPI da Covid (Foto: Agência Senado)

Em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira, a advogada Bruna Morato afirmou que o governo tinha um "pacto" com a operadora de planos de saúde Prevent Senior para alinhar a empresa ao "tratamento precoce", defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, com o chamado "kit covid", de remédios ineficazes contra a doença, como a hidroxicloroquina (contra febre amarela), para frear as medidas de isolamento social.

A advogada representa os 12 médicos que trabalharam e denunciaram a operadora. Ela ajudou os médicos a elaborar um dossiê com denúncias envolvendo a empresa. 

De acordo com Bruna Morato, existia uma estratégia para que a Prevent ajudasse o "gabinete paralelo" de Bolsonaro a abonar o tratamento precoce. Segundo ela, o gabinete trabalhava alinhado com o Ministério da Economia com o objetivo de boicotar o lockdown e medidas de isolamento que prejudicassem a atividade econômica do país.

Segundo a advogada, no início da pandemia o diretor da Prevent Pedro Batista Jr. tentou aproximar-se do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que fizera críticas à empresa após várias mortes por covid-19 no hospital Sancta Maggiore, em São Paulo.

Sem êxito na aproximação com Mandetta, a Prevent Senior teria fechado uma "aliança" com um conjunto de médicos que assessoravam o governo federal, "totalmente alinhados com o Ministério da Economia". Entre os médicos estariam integrantes do chamado gabinete paralelo como Nise Yamaguchi e Paulo Zanotto, que também teriam atuado no Ministério da Saúde. 

"Existia um interesse do Ministério da Economia para que o país não parasse. Existia um plano para que as pessoas pudessem sair às ruas sem medo. Em reunião promovida pela Prevent Senior com médicos [foi anunciada] uma colaboração da instituição para produção de informações que convergissem com essa teoria: de que é possível utilizar determinado tratamento como proteção", denunciou Morato, que ressalvou nunca ter ouvido o nome do ministro Paulo Guedes nas conversas.

'Gabinete das sombras'

"Eles desenvolveram uma estratégia. Qual? Através do aconselhamento de médicos. Era Anthony Wong, toxicologista, a doutora Nise Yamaguchi, especialista em imunologia, o virologista Paolo Zanotto. E a Prevent Senior iria entrar para colaborar com essas pessoas", disse a advogada.

Anthony Wong morreu de Covid em um hospital da Prevent Senior, informação que foi omitida na certidão de óbito, segundo documentos em posse da CPI. Wong era defensor do "tratamento precoce" - ineficaz contra a covid-19 -, e foi submetido às mesmas drogas cujo uso defendia. Nise Yamaguchi e Paolo Zanotto são apontados como integrantes do gabinete paralelo. Em reunião no ano passado com Bolsonaro e outros médicos, Zanotto sugeriu a criação de um "shadow gabinet" ("gabinete das sombras") para tratar do enfrentamento à pandemia.

Para senadores, a informação aponta que a atuação do gabinete paralelo não se restringia ao Ministério da Saúde.

"O fato novo é a relação desse gabinete paralelo com o Ministério da Economia", apontou o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Falta de autonomia e receita obrigatória de kit covid

Ainda em seu depoimento, feito sob juramento de dizer a verdade, a advogada afirmou que os médicos do plano de saúde não tinham autonomia e que os pacientes recebiam um “kit-covid” com “receita pronta” para tratamento da covid-19.

Ela relatou que profissionais recebiam ameaças e que houve distribuição do "kit covid", inclusive para pacientes com comorbidades. Segundo Bruna, não eram feitos exames preliminares, como testes cardíacos, antes da entrega dos kits, que também foram enviados como "brinde" a beneficiários do plano. Ao todo, oito itens chegaram a compor o kit de “tratamento precoce” segundo ela. Entre eles, estavam medicamentos comprovadamente sem eficácia contra a covid-19 como hidroxicloroquina. 

"Os médicos eram sim orientados à prescrição do kit. E esse kit vinha num pacote fechado e lacrado, não existia autonomia até com relação à retirada de itens desse kit. Inclusive, é muito importante observar também que quando o médico queria tirar algum kit, ainda que ele riscasse na receita, o paciente recebia ele completo. Então, ele tinha a informação de que tinha de tomar aqueles medicamentos e o médico tinha que riscar, porque a receita também já estava pronta. Inclusive, ela vinha com um manual de instruções", disse.

A partir dos relatos e por pressões sofridas pelos médicos para orientar a prescrição do “kit covid”, ela requereu que a empresa admitisse que o tratamento precoce da Prevent Senior não obteve eficácia e que a operadora respeitasse a a autonomia dos profissionais em recomendar o tratamento adequado a cada paciente. 

"Dr. Pedro Batista [diretor-executivo da Prevent Senior] sentou nessa cadeira para dizer que ele dava autonomia aos médicos. Nunca deu", criticou. 

Retaliações e manipulação de dados

De acordo com a advogada, os médicos que eram contrários a prescrever o  “tratamento precoce” sofriam retaliações como "redução no número de plantões" ou eram demitidos pela Prevent Senior. Após intervenção de Otto Alencar (PSD-BA) a respeito do uso de remédio para câncer de próstata (flutamida), a advogada esclareceu que esse medicamento não estava no "kit covid", mas era administrado para todos os pacientes internados por coronavírus.

"Medicamentos como a flutamida ou o que eles chamavam de tratamentos via nanopartículas também foram usados de forma experimental", acentuou.

Além de falta de autonomia médica, as denúncias incluem manipulação de dados, falta de transparência em relação aos pacientes e ocultação de mortes de pacientes que participaram de um estudo realizado para testar a eficácia da hidroxicloroquina, associada à azitromicina, para tratar a covid. Houve nove mortes durante a pesquisa, mas os autores só mencionaram dois óbitos. 

População vulnerável

Em resposta ao relator, Renan Calheiros (MDB-AL), sobre o consentimento dado por pacientes para os testes feitos pela Prevent Senior, a depoente apontou que os pacientes da operadora de saúde não tinham conhecimento dos riscos e eram feitos de cobaias em experimentos. A empresa, segundo ela, aproveitava-se da vulnerabilidade de seus clientes. 

"O paciente idoso é extremamente vulnerável. Então, para o senhor entender o que acontecia, o médico falava para o paciente idoso que tinha um tratamento bom que iria começar. Eles davam esse ok, mas eles são parte de uma população vulnerável. Eles não sabiam que seriam feitos de cobaia; eles sabiam que iriam receber um medicamento", relatou. 

Bruna afirmou que a Prevent não tinha leitos necessários para atender aos pacientes e usava o “tratamento precoce” para economizar nos custos de internação. Segundo ela, houve uma intenção inicial da operadora de “acompanhamento mais completo” dos pacientes pelo médico. No entanto, de acordo com a advogada, a demanda era tão alta que a Prevent passou a deixar de orientar o acompanhamento para fazer a prescrição da medicação sem eficácia comprovada para todos os beneficiários.  

"Segundo a descrição dos médicos, sim, é muito mais barato você disponibilizar um conjunto de medicamentos aos pacientes do que fazer a internação desses pacientes", apontou. 

Ataques e ameaças

A advogada dos médicos que deixaram a Prevent também relatou ter sofrido ataques e ameaças após a divulgação pela imprensa das denúncias dos médicos, em abril. Ela relatou que, depois desse momento, seu escritório foi invadido por uma “quadrilha muito bem estruturada”. Os invasores, disse, duplicaram o IP de todas as câmeras e deixaram o sistema de segurança vulnerável por quatro dias. Segundo Bruna, canos foram cortados causando inundação de vários andares do prédio. 

"Não posso afirmar qualquer relação com a empresa, mas aconteceu e desde então tenho me sentido ameaçada."

Em sua fala inicial, a advogada Bruna Morato ressaltou que não precisou de habeas corpus para não se incriminar, ao contrário de outros depoentes da CPI.


Com a Agência Senado

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