Artigo: A ética do Evangelho e o voto popular
“Senhor, dai de comer a quem tem fome,
mas dai fome de justiça a quem tem pão”
(Pe. Zezinho)

Por Ana Claudia Colombo* e Lier Pires Ferreira*
A disputa pelo voto confessional no Brasil costuma reduzir a religião a uma lista de pautas morais e comportamentos de autoexaltação, onde o “outro” é facilmente descartado. No entanto, quando afastamos a poeira retórica e retornamos aos fundamentos da fé cristã, nos deparamos com uma outra realidade: o compromisso da Igreja com a solidariedade social e a defesa dos desvalidos encontra “sua mais completa tradução” nos projetos políticos que priorizam a partilha do pão, a redução da miséria e a valorização do trabalhador.
O surgimento do Partido dos Trabalhadores não ocorreu apenas nas assembleias sindicais e nos movimentos paredistas que desestabilizaram o establishment militar. Ele também brotou dos grupos universitários e dos movimentos eclesiais que, presentes nos campos e nas cidades, buscavam lutar contra o autoritarismo e contra a vulnerabilidade social extrema a partir dos Evangelhos. Para os clérigos e para os leigos da Igreja que jamais se afastaram da fraternidade cristã, o voto à esquerda nunca foi uma ruptura com a fé. Ao contrário! Trata-se de uma obrigação moral, uma manifestação concreta da espiritualidade encarnada na realidade.
No Novo Testamento, a régua moral pela qual as ações humanas são medidas não está na conformidade aos costumes ou à ostentação farisaica, mas no acolhimento empático do sofrimento alheio: tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era forasteiro e me acolhestes, estava nu e me vististes (Mateus: 25:35). Nos Evangelhos, Jesus confrontou os poderes terrenos exatamente por transferir o sagrado da aparência para a essência, dos templos suntuosos para o lares humildes, dos poderosos para o povo sofrido: o povo de Deus. Jesus não cortejou os dominantes nem se banqueteou nos salões, Ele exaltou os humilhados e alimentou os famintos. Seu exemplo mostra que a fé sem amparo é vazia, que a vida sem amor é estéril.
A fé se materializa nas ações, não nas palavras. A vida cristã só ganha consistência ética quando alinhada a uma prática social responsável. Se a religião nos reconecta ao sagrado, a política nos insere na unidade comum dos cidadãos, na qual a ética não pode ser confundida com o policiamento maledicente da vida alheia e com a securitização violenta das tensões sociais. Só o julgamento hipócrita atira a primeira pedra enquanto ignora a exploração do trabalho, a desumanização do outro e a malversação da boa-fé. Miséria e ignorância são pecados sociais que ferem a carne e mutilam o espírito.
Por convicção, não por interesse, o cristão reconhece que o combate à fome e à desnutrição, o acesso universal à educação, a valorização dos salários e a dignidade do trabalhador, dentre outros, são vetores que permitem com que homens e mulheres se assemelhem ao Pai. Por isso, votar em uma plataforma política humanista e acolhedora é um dever cristão. A virulência das redes sociais, o anonimato da internet e as dancinhas do Tik Tok não educam, deformam. A glorificação do individualismo, a exaltação da meritocracia, a glamorização do sucesso e as autoimagens narcísicas dos filtros digitais, tão presentes no Instagram, são tão ocas quanto os sorrisos ensaiados e as amizades do Facebook. Jesus não foi glamoroso, foi humilde; não celebrou seus milagres, foi respeitoso; não foi agressivo, misógino ou preconceituoso, foi bondoso; um ser perfeitamente humano em sua divindade.
A tentativa de sequestrar a fé cristã para legitimar o ódio ao diferente, a mercantilização da vida ou a concentração obscena de riqueza ignora os fundamentos mais básicos do Evangelho. Para aqueles que enxergam a política como a forma mais ampla da caridade e da busca por justiça, votar na emancipação dos trabalhadores e no socorro aos marginalizados não é um desvio de rota espiritual, mas o cumprimento de um mandamento divino: construir um mundo mais justo, fraterno e igualitário, onde ninguém seja deixado para trás; um mundo verdadeiramente cristão.
*Mestre em Biologia e Professora do CP2
*PhD em Direito, professor do CP2 e pesquisador do Nubrics/UFF











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