Artigo: Tiradentes: a sagrada missão, ainda necessária!
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Por Beto Almeida
A data nacional de Tiradentes, Patrono da Nação, precisa ser comemorada com uma reflexão ativa, tal como se faz no discurso de Darcy Ribeiro, uma caudalosa cachoeiras de análises tão inteligentes quanto apaixonadas, sobre o tremendo significado que possui, hoje ainda, a magnífica Insurreição Mineira, rebaixada odiosamente, por seus inimigos escravagistas, ao rótulo indevido de Inconfidência, que lembra delação, visando desmoralizar o debate, ainda atualíssimo, sobre a necessidade de assumirmos a audácia do Alferes Rebelde para conquistarmos, ainda que tarde, o que ainda nos falta: um Programa de Nação!
Apaixonado pelas ideias da Revolução Francesa, militante desta causa, que também inspirou Marx, Tiradentes foi ao encontro de Thomas Jefferson, na França, acompanhado do revolucionário e culto Padre Rollin, e arrancou do líder revolucionário da jovem República dos EUA, o compromisso de apoiar a revolução brasileira, com armas, recursos financeiros e reconhecimento político. Segundo o discurso de Darcy Ribeiro, proferido em 21 de abril de 1992, no evento Sagração da Liberdade, marcando o Bicentenário do martírio de Tiradentes, este teria dito a Jefferson que o Brasil seria uma República ainda mais rica e mais próspera que os EUA, pois a natureza nos havia dotado de numerosas vantagens comparativas reais, o que se registra em estudos comparativos de Moniz Bandeira sobre a evolução econômica dos dois países, em concordância com a projeção inicial do Alferes.
Os vassalos da sanguinária Coroa Portuguesa sempre buscaram rebaixar a gestão revolucionária mineira, afirmando que nem possuíam qualquer projeto, o que é rebatido por Darcy Ribeiro elencando um decálogo programático, com destaque para o fim dos monopólios reais e para a prioridade dada pelos insurretos à industrialização, a começar pelo ferro e a pólvora, seguida de toda manufatura. Os revolucionários também projetavam criar uma Universidade em Ouro Preto já naquela época, impedidos pela crueldade da forca e do degredo mortal na África. Seria positivo que essas informações chegassem ao presidente Lula, já que , na prisão, leu bastante também sobre Tiradentes e tanto reclama da tardia universidade brasileira.
O ódio ao projeto de revolução republicana era tal que ainda hoje contamina uma certa historiografia que tenta diminuir a importância daquela rebeldia, que chega mesmo até a cobrar, com desprezo, diploma de dentista de Tiradentes, quando se sabe que na época não havia nenhuma faculdade de odontologia no Brasil. Pode-se deduzir, portanto, que o que está em jogo é esforço para desanimar e confundir os patriotas brasileiros que conseguem vislumbrar a prioridade de se construir um Programa de Nação Brasil, independente e soberana, industrializada e livre da dependência tecnológica, próspera e justa, e não o que ainda temos hoje, apontada pelo Laboratório do Economista Thomas Piquety, da França, com a 5 mais desigual nação mundo, com disparates tais como o de pagar um trilhão de juros/ano da dívida pública para os banqueiros e, ao mesmo tempo, o segundo menor salário mínimo da América Latina. Agora surge a ameaça de se lançar mão dos recursos do FGTS para transferi-los aos banqueiros, para quitar o endividamento causado pela escandalosa tolerância com a cobrança de a'te 432% de juros de cartão. Isso é crime de usura, conforme Decreto de Getúlio Vargas, de 1933, ainda em vigor.
Como nos faz falta o clamor poético revolucionário de um Cláudio Manoel, a sustentar e embalar as ideias práticas e transformadoras de Tiradentes, quando ainda hoje , na própria Minas Gerais assistimos a prática da rapina do nióbio de Araxá, vendido a preços coloniais (27 dólares do quilo), com 100 toneladas embarcadas diariamente no Porto de Sepetiba, RJ, chegando aos portos europeus valendo 665 dólares o mesmo quilo, após a "milagrosa travessia atlântica", sendo empregadas na fabricação dos mísseis Cruise, em indústria armamentista controlada pela Família Rockfeller, despontando o Banco Itaú e a CBMM, apenas como biombos que mal ocultam a verdade da operação que Getúlio Vargas já descrevia como Coação da História. É aquela em que os países semicoloniais se vêem submetidos à imposição de comprar a preços mil vezes multiplicados, manufaturados produto de sua própria exportação a preços negativos. Esta operação tão daninha aos interesses nacionais, conhecida por todos os governantes, é a continuidade histórica daquela, denunciada energicamente por Tiradentes, que permitia o uso de uma montanha de ouro para pagar o tráfico de escravos. - o mais lucrativo negócio dos homens brancos mercantilistas. - e uma outra montanha de ouro para a Coroa Portuguesa, que a transferia à Inglaterra, verdadeira metrópole, onde o ouro sustentou a Revolução Indústrial, às custas do sofrimento dos negros das Minas, afundados em sangue e miséria. Que deixam as toneladas de nióbio de Araxá rapinadas, senão buracos e misérias ao povo mineiro?? Por que esses temas não estão em pauta para a elaboração de um Projeto de Nação Independente e Soberana? Por que nenhum projeto para a industrialização deste nióbio localmente, como faz o Canadá, com enormes ganhos para sua economia? Quando se menciona a ideia de criar uma Terrabrás, por que esquecer essa rapina diária de 100 toneladas de nióbio? Essa rapina poderia até inspirar um novo filme, quem sabe?
A Era Vargas Publicou os Autos da Devassa
Os Autos da Devassa - interrogatórios e depoimentos de Tiradentes e seus audaciosos companheiros subversivos mineiros. - só foram publicados no Brasil, pela Biblioteca Nacional, entre 1936 e 1938, na Era Vargas, quando o feriado de 21 de abril foi novamente legalizado com o claro intuito de reverenciar e solidificar a consciência brasileira sobre os passos que todavia faltavam e ainda faltam para que o Brasil venha a ser uma nação plenamente soberana e independente, conforme pronunciamento de Getúlio Vargas em solenidade em Ouro Preto.
Certamente ainda nos fazem falta, como brasileiros, encarnar o espírito de Tiradentes, aquele que bradava "se todos quisermos, faremos deste país uma grande nação" . Nos falta a energia sagrada e consciente de Tiradentes para enfrentar a hemorragia que continua ocorrendo com nossas riquezas minerais, seja o nióbio, ou seja o petróleo. Foi com tecnologia nacional que a Petrobras descobriu o manancial imenso de petróleo pré-sal, mas, ao contrário dos demais países produtores de petróleo, onde cada estado fica com 80% da receita petroleira, no Brasil, o estado detém apenas 8 % por cento dessa receita, apenas para dar dois exemplos.
Celebremos o Feriado Nacional de Tiradentes com a responsabilidade de cultivar sua ira santa contra as rapinas , de cultivar o canto poético rebelde de um Claudio Manoel, de unir todos os talentos e instrumentos da nacionalidade para assumir legitimamente o pleno controle democrático e soberano do Brasil. Tiradentes nos vitaliza, prenha de sonhos a nacionalidade inteira com seu desprendimento de "Dez vidas eu tivera, dez vidas eu daria por esta Causa""
O discurso de Darcy Ribeiro, outro mineiro, é arrebatador!
"Minas, árvore alta. Minas de sangue, de lágrima, de cólera. Minas, mãe dos homens. Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular.
Havemos de amanhecer
O mundo se tinge com as tintas do antemanhã"
(Carlos Drummond de Andrade)
Beto Almeida, jornalista
Diretor da Telesur
Conselheiro da ABI









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