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Artigo: Trump, o mundo distópico e a ação anti-imperialista


Atos em várias cidades do Brasil e do mundo denunciam agressão imperialista contra Venezuela (Reprodução)
Atos em várias cidades do Brasil e do mundo denunciam agressão imperialista contra Venezuela (Reprodução)

Por Wevergton Brito Lima*

Alguns jornalistas com foco em relações internacionais advertiram, durante os últimos anos, sobre o provável aumento da agressividade do imperialismo estadunidense diante do seu declínio. Porém, nem mesmo estes, entre os quais me incluo, previam que a agressividade seria tão intensa e o desmonte de todo o arcabouço do direito internacional aconteceria de forma tão acelerada.


Diante do que vem acontecendo, quase soa como uma ironia o parágrafo 4º do artigo 2º da Carta das Nações Unidas, quando diz que “os (países) membros deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao uso da força, quer seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado”.


De fato, diante do genocídio contra o povo palestino e das declarações e ações do presidente dos EUA, Donald Trump, a Carta das Nações Unidas parece ser, atualmente, pouco mais do que um objeto decorativo e a própria ONU percorre a trajetória da antiga Liga das Nações que, impotente para frear Mussolini e Hitler, viu-se reduzida à irrelevância e foi extinta.


Os EUA, que já haviam saído da UNESCO e da OMS, oficializaram, nesta quarta-feira (7) o abandono de 66 instituições multilaterais, 31 delas ligadas às Nações Unidas. Trump determinou a saída de todas as articulações que tratem de temas como clima e energia, direitos humanos e igualdade de gênero, desenvolvimento e saúde etc. É uma clara direção que aponta para o abandono, na prática, da própria ONU, acusada, pelos neofascistas, de adotar pautas “progressistas e globalistas”.


O objetivo é indisfarçável: em um mundo distópico, sem regras comuns, o que prevalece é a bárbara lógica da força, e a força justifica tudo.


Assim, qualquer mentira, por mais absurda que seja, por exemplo: “o petróleo da Venezuela pertence aos EUA”, encontra no poder bélico sua legitimidade.


Como apontei na série de três artigos O Fascismo do Século 21, a política externa do trumpismo é a retomada plena do conceito nazifascista de “spazio vitale” e “lebensraum”, oficializada na versão atual de “Corolário Trump” da Doutrina Monroe.


Diante disso, como devem agir os democratas, defensores da paz e da soberania dos povos e nações?


Em primeiro lugar, para embasar nossa ação, devemos ter uma visão histórica do processo, saber que os fatos estão em desenvolvimento e que o imperialismo não é invencível.


O aumento da agressividade é sinal de fraqueza do imperialismo, não de força. Quando os EUA – no pós segunda-guerra em relação ao mundo capitalista, e no pós guerra-fria em relação a praticamente todo o mundo – tinha de fato um poder incontestável, ele formatava as regras de acordo com seus interesses e todos, mais ou menos constrangidos, tinham que aceitá-las.


Quando este poder, que embora continue formidável, começa a declinar, a potência hegemônica já não consegue garantir sua posição dominante diante do próprio ordenamento que ajudou a construir, restando-lhe deixar em segundo plano ou mesmo abandonar o “soft power” e recorrer prioritariamente à “manu militari”.


Isso, se por um lado traz vitórias pontuais e alimenta a indústria bélica, tem, a médio e longo prazo, alto custo político e econômico, corroendo a autoridade moral do “hegemon” e exigindo uma alocação cada vez maior de recursos na máquina de guerra em detrimento de uma economia que enfrenta cada vez mais dificuldades em outros setores.


Vejamos o caso da Venezuela. O sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores foi incrivelmente bem-sucedido e, no primeiro momento, representou um forte abalo na moral do povo venezuelano.


No entanto, a Venezuela não está dominada (voltaremos a esse assunto mais adiante) e o nível de isolamento internacional que os EUA vêm colhendo é cada vez mais nítido.


Esse isolamento não só fortalece a autoridade moral das nações que, como a China e a Rússia, pregam abertamente a necessidade de reordenar a governança global – voltando a colocar como obrigatórios os princípios expostos na Carta das Nações Unidas e revitalizando o papel da ONU – como mina, corroí e esgarça os laços entre os principais países imperialistas.


Este é, aliás, um dos principais efeitos negativos para os EUA que muitas vezes não se percebe a olho nu. Mesmo no que existe de mais subserviente e covarde entre os aliados do imperialismo estadunidense, cresce a percepção de que não se pode confiar em uma parceiro deste tipo, como, aliás, a questão da Groelândia e do Canadá, igualmente alvos da retórica anexionista de Trump, deixa claro.


Tal corrosão na credibilidade moral do império – somando-se aos e alimentando os impasses econômicos – inevitavelmente tem um efeito devastador para a liderança estadunidense.


Atualmente, quem defende explicitamente a política exterior de Trump? Além do sionismo, apenas a escumalha da extrema-direita (Milei, Kast, família Bolsonaro), pois até mesmo importantes vozes da extrema-direita europeia (Giorgia Meloni e Marine Le Pen) repudiaram os ataques dos EUA contra a Venezuela.


Aliás, sobre isso é preciso desmascarar as teorias que apontam para um suposto “acordo” entre China e Rússia para deixar Trump de mãos livres na América Latina, enquanto ambas estariam livres para agir em seu entorno.


Tal raciocínio pressupõe que os líderes de China e Rússia são completos analfabetos em termos de história. Nada aprenderam com o que aconteceu no século 20.


Ora, embora as grandes nações tenham, de fato, áreas de influência e lutem para preservá-las, a inspiração que move o imperialismo continua sendo de dominação global. China e Rússia sabem muito bem que os EUA esperam apenas o momento propício para colocar seus países como alvos principais da fúria neofascista.


O que muitos não entendem, é que, se é verdade que a política não se move com a velocidade dos nossos desejos, por mais legítimos que sejam, isso se aplica ainda mais quando se trata de relações internacionais, marcadas por grandes e pequenas contradições entre nações e blocos regionais, complexas interrelações e ainda mais do que em qualquer outra área, pela análise cuidadosa da correlação de forças e dos ganhos e perdas que cada movimento pode provocar.


Sendo assim, podemos considerar que China, Rússia, Brasil, Índia, Colômbia, México e outros países da maioria global, têm reagido, em essência, de forma correta em relação aos fatos ocorridos na Venezuela.


China e Rússia têm plena consciência do que representa o trumpismo e os governantes de Brasil, México e Colômbia sabem que o futuro soberano de suas nações está em causa. Desta forma, é legítima a pergunta: poderiam estes países ser mais assertivos e contundentes? Certamente que sim, mas isso também depende do grau de mobilização e luta dos povos, e daí passo ao segundo aspecto de como devemos agir, tendo em conta que, como salientamos, a luta está apenas em seu começo e o imperialismo enfrenta grandes dificuldades.


Firmeza na denúncia do imperialismo e na defesa da paz, solidariedade indeclinável aos povos agredidos, repúdio ao derrotismo.


Voltando ao tema Venezuela. O que esperava Trump e sua gangue de bandidos? Que sequestrado Maduro, a “oposição” saísse às ruas e parte dos militares se sublevasse.


E o que aconteceu? Mesmo fortemente abalada pelo sequestro do seu principal líder, o que se viu nas ruas, no governo e nas forças armadas, foram multidões em defesa da soberania e do presidente sequestrado. Manifestação da oposição só entre alguns gatos pingados gusanos do exterior.


Houve traição interna que facilitou o sequestro? Existem divisões no governo bolivariano? Talvez, porém não é isso que predomina agora. O que predomina amplamente é a disposição de luta e resistência e devemos ser os principais incentivadores desta tendência.


Teremos muito tempo, adiante, para a descrição e análise histórica dos fatos. Neste momento o que cabe aos anti-imperialistas é a solidariedade inflexível ao povo agredido, repudiando narrativas divisionistas e derrotistas.


O governo bolivariano há mais de 20 anos resiste ao império e seus integrantes já deram mostras de coragem, resiliência e habilidade tática.


Neste momento, a luta da Revolução Bolivariana tem o tempo como fator fundamental. Tempo que irá desgastar o governo Trump tanto externamente como internamente, enquanto a campanha de solidariedade à Venezuela ganha corpo, toma as ruas (o dia 5 de janeiro no Brasil foi auspicioso), e fortalece e impulsiona as ações dos governos soberanos.


Considero que qualquer discurso tipo “sou contra a agressão americana, mas”, é problemático. Este “mas” já é uma contribuição à causa do inimigo.


Devemos incorporar, ao movimento de solidariedade à Venezuela, pessoas e correntes com visões críticas à revolução bolivariana, mas que se opõem à agressão imperialista? Certamente!


Porém estas pessoas e correntes só irão contribuir honestamente para a luta comum, se direcionarem a denúncia exclusivamente contra os criminosos do governo Trump e não contra as vítimas do crime.


Aos militantes mais veteranos, que participaram da campanha de solidariedade ao Vietnã, pergunto se admitiriam em seu meio pessoas que bradassem: “Não à guerra dos EUA contra o Vietnã e fora Ho Chi Minh”? Claro que não admitiram, pela simples razão de que isso significaria fortalecer a propaganda do imperialismo agressor, fato compreendido até pelos muitos não comunistas que ajudaram a denunciar aquela guerra, mas o fizeram de forma unitária e com pureza de propósito.


Tudo isso, é claro, faz parte da luta de ideias e de uma construção política que necessita de firmeza e habilidade.


A luta de ideias, particulamente é muito dura no Brasil, pois basta registrar que uma das plataformas de notícias mais vistas em nosso país atende pelo nome de CNN, se bem que os veículos nativos da mídia hegemônica não ficam atrás em distorção e vilania.


Entretanto, devemos enfrentar com destemor os desafios postos, com construções políticas amplas e coerentes, esclarecendo o povo sobre as motivações e sobre o que está em jogo, com a convicção de que, em termos históricos, mesmo com tristezas e dissabores que magoam e atingem nossa alma, como o genocídio em Gaza e o sequestro de Nicolás Maduro, o imperialismo está em um beco sem saída e o futuro pertence aos defensores das bandeiras justas de nosso tempo: a paz mundial e a soberania dos povos.


A Venezuela resistirá e vencerá.


*Wevergton Brito Lima é jornalista especializado em geopolítica

 
 
 
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