As lições da derrota: o Flamengo e seu projeto futuro


Flamengo, de Gabigol, foi hoje vice-campeão da Libertadores. Foto: Agência Brasil

Coluna "Conexão Clubes do Rio"


por Edu Gomes


Não foi dessa vez que o Flamengo entrou no seleto grupo dos clubes brasileiros com mais conquistas da Copa Libertadores da América. A equipe buscava o tricampeonato da competição, marca até então só alcançada em nosso país por São Paulo (1992, 1993 e 2005), Santos (1962, 1963 e 2011) e Grêmio (1983, 1995 e 2017). Todavia, foi derrotado pelo Palmeiras por 2x1 na prorrogação da grande decisão jogada nesse sábado (27), fato que fez com que seu rival de hoje chegasse ao bicampeonato seguido da Libertadores e somasse, também, três taças da principal competição sul-americana em sua história (1999, 2020 e 2021).


A "Glória eterna" hoje não veio para os rubro-negros. Porém, nesse texto da coluna "Conexão Clubes do Rio", buscarei problematizar tal questão. É verdade que o Flamengo deve terminar o ano sem vencer as principais competições que idealizou a priori (além de vice da Libertadores e eliminado nas semifinais da Copa do Brasil, ocupa a segunda posição no Campeonato Brasileiro, com remotas chances de título).


Alguns serão culpabilizados pela derrota de hoje, como o técnico Renato Gaúcho, que já vinha sendo extremamente contestado por torcedores e dirigentes, ou mesmo Andreas Pereira, que apesar de ter sido um dos mais lúcidos do time no jogo de hoje, acabou tendo a infelicidade de errar no lance crucial que culminou no gol de Deyverson e garantiu a vitória alviverde. Porém, entendo que um projeto vencedor não se faz apenas com a análise de um jogo, um lance ou um jogador. Se faz com um estudo mais denso acerca do que se espera no futuro, acreditando nesse processo mesmo nos momentos em que a vitória não vier. E é sobre isso que escreverei abaixo.


Parece inevitável que Renato Gaúcho saia do comando técnico da equipe rubro-negra. Mesmo com um início avassalador, Renato não conseguiu estabelecer um padrão tático que desse sequência para o time rubro-negro, tendo apenas o estilo "boleiro motivador" não sido suficiente para alcançar todos os objetivos traçados. Por mais que isso em nada apague seus méritos e conquistas anteriores como treinador de futebol, considerando que fez ótimos trabalhos em sua carreira, notadamente no Grêmio, é importante ressaltar que faltou aprofundar vários pontos na organização da equipe rubro-negra recheada com grandes nomes e com um orçamento maior que o restante dos clubes no Brasil e na América do Sul.


Mas daí eu pergunto: até que ponto essa culpabilidade deve ser colocada apenas nas costas do Renato e não daqueles que o contrataram, sem antes definirem exatamente o que queriam e qual o caminho a seguir? Contratar um treinador e dizer a ele "queremos ser campeões", mas não saber qual o padrão e a filosofia que se espera desse treinador, pode ser um problema. Defendi em texto anterior nessa mesma coluna, o mantimento de Renato Gaúcho, por não acreditar que trabalhos devam ser analisados por períodos curtos ou apenas no calor do momento dos resultados. Mas a nível de futuro, seja para mantê-lo ou para se pensar em outro nome, é necessário que se tenha esse planejamento muito claro.


Desde a saída de Jorge Jesus, o Flamengo passou por diferentes treinadores que, de certa forma, oscilaram durante suas trajetórias no clube e pelo que se esperava de um elenco tão recheado de grandes nomes. Mesmo assim, o time continuou brigando entre os grandes do país e do continente: foi campeão brasileiro de 2020, venceu a Supercopa do Brasil e o carioca em 2021, além de ser agora vice da Libertadores e, provavelmente, do Brasileirão, o que por si só já representam grandes feitos.


Mas o que destaco nisso tudo é que, Domènec Torrent, Rogério Ceni e Renato Portaluppi, os treinadores que desde a saída de Jorge Jesus em 2020 estiveram à frente do Flamengo, nada possuem em comum. São treinadores com caraterísticas completamente distintas de trabalho, no que se diz respeito a pensar o coletivo e os padrões táticos. Além de todos os três também possuírem padrões distintos daquele que foi implantado por Jesus em 2019, o que por si só já representava uma grande pressão, pois o português era e continua sendo sempre visto como um modelo a ser seguido na Gávea. Além disso, é válido lembrar que a própria contratação de Jesus foi realizada de forma aleatória e sem uma definição plena de que sabiam o caminho que seria seguido ao escolherem seu nome.


Resumindo: não há, por parte dos responsáveis do clube rubro-negro, um padrão para se contratar o treinador que vai gerir essa equipe que tantos investimentos fez para se consolidar como a maior da América Latina. O nome de Domènec Torrent foi o que chegou mais próximo desse possível planejamento, mas com uma oscilação constante, o treinador logo foi demitido. Parece que se estabelecem um parâmetro de "vamos contratar o 'melhor nome do mercado' e conceder a ele muito dinheiro e jogadores para que possa ser campeão". Mas e a filosofia que tem que ser estabelecida por trás de um trabalho vencedor? Isso foi idealizado quando, por exemplo, definiram o nome de Renato Gaúcho? Se sim, o correto agora seria não demitir o treinador e pensar a longo prazo em consolidar um trabalho que resulte em vitórias, mesmo que derrotas como essas ocorram no processo.


Pensar o futebol por ideias e projetos a longo prazo, requer esse olhar. Assim, se foge de análises rasas e curtas referentes a apenas um jogo ou um momento. Sei que isso não é um problema apenas do Flamengo, a maior parte dos clubes brasileiros contratam treinadores de forma aleatória e sem direcionamentos claros. Mas o clube de maior investimento do país pode se dar ao luxo de fazer diferente. Exemplos mundo afora são muitos, como o Barcelona, que seja nas vitórias ou derrotas, sempre idealiza treinadores que mantenham seu padrão de jogo e que tenham identificação com a linha tática e filosófica do clube (como foi a chegada de Xavi atualmente). Ou mesmo o próprio Abel Ferreira no Palmeiras, que mesmo quando criticado pelo futebol "feio" apresentado em alguns momentos, manteve sua filosofia e padrão tático, conquistando duas libertadores seguidas e uma Copa do Brasil. E para isso se materializar, manter o português "nas vitórias e nas derrotas" (como no Mundial, onde o Palmeiras não passou de um 4º lugar), se fez fundamental. É acreditando na filosofia que não se cancelará um trabalho antes do tempo por apenas um jogo ou um momento.


Assim, pensar em um nome que estabeleça esse projeto a longo prazo de forma coerente, se faz urgente para o Flamengo conseguir fazer com que esse elenco alcance as glórias esperadas com menos oscilação. Agora, é necessário saber que nem todo projeto materializará resultados a curto prazo como foi no trabalho de Jorge Jesus. Se entenderem que um determinado nome é o ideal, deve-se estabelecer um planejamento de metas e mudanças a longo prazo, visando tais conquistas. É isso que garantirá a constância do sucesso dentro de campo que o clube passou a conviver desde 2019. Quando uma filosofia de jogo for internalizada dentro desse projeto maior, o treinador em si nunca mais será um problema para as conquistas futuras que idealiza o Clube de Regatas do Flamengo.

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