Atingidos de Petrópolis se sentem abandonados pelo Estado

Atualizado: 19 de fev.

Passados três dias das chuvas torrenciais que destruíram Petrópolis, e que deixaram até o presente momento 126 mortos e, ao menos, 218 desaparecidos, a população que perdeu casas e familiares reclama da falta de profissionais atuando na busca por vítimas e se sente abandonada pelo Estado. Embora o governador Cláudio Castro tenha mobilizado 500 militares do Corpo de Bombeiros, o efetivo não tem sido suficiente para cobrir as diversas áreas atingidas.

Famílias buscam parentes desaparecidos sem ajuda dos bombeiros / Redes Sociais

Castro nega e diz que segue orientações de seu corpo técnico. Porém, cenas de moradores em desespero, cavando a lama com as próprias mãos, circulam nas redes sociais e evidenciam o despreparo do estado para enfrentar situações emergenciais de grande impacto como essa.


O funcionário público Roberto Pereira, de 52 anos, resgatou sozinho o corpo da mãe, Helena Ruth Pereira, de 65 anos, do meio dos escombros no bairro do Alto da Serra.


“Eu tirei minha mãe do barro e o bombeiro ficou lá embaixo porque não tinha uma ferramenta. E dizem que ‘a logística está boa’. Eu quero saber do comandante do bombeiro se ele tem condição de ‘pegar’ essa calamidade. Deixa a gente ajudar, tem todo mundo para ajudar. ‘Ah, não pode’. Não pode porque não é a família dele que está lá dentro”, disse ele à Globonews.


Situações semelhantes ocorreram em outros locais da cidade, como a Chácara Flora, Vila Felipe e Caxambu, onde o acesso ficou interrompido e só motocicletas conseguem chegar por trilhas na mata para levar água e comida. Desamparados, os moradores revolveram a terra com parcas ferramentas em busca de sobreviventes. Em vários pontos mais impactados ainda há famílias isoladas e ruas obstruídas por terra e escombros.


Na Chácara Flora, onde um conjunto de casas no alto do morro pode desabar a qualquer momento, os moradores resgataram alguns corpos por conta própria, e contaram que ainda há várias pessoas soterradas, além de famílias angustiadas que querem sepultar seus mortos.


Dois dias após o deslizamento de parte da encosta que destruiu cerca de 80 casas no alto do Morro da Oficina, homens usavam enxadas, marretas e pedaços de madeira para resgatar cinco pessoas da própria família. Sem ajuda de bombeiros, Leandro Menezes, de 36 anos, e seus primos tentavam localizar a tia.


De acordo com os moradores, uma equipe de resgate esteve no local no final da tarde do dia anterior para retirar o corpo de outra mulher, que foi localizado por vizinhos. Agentes da Defesa Civil percorreram a área, mas não tinham equipamentos adequados para fazer o resgate. Na manhã desta sexta, os bombeiros visitaram o trecho, mas também não estavam equipados com material adequado para realizar buscas.


"Eles ficam estudando tudo, mas demoram porque não são os parentes deles que estão aqui", criticou um dos primos.

Reprodução / Redes Sociais

Ajuda externa


Municípios vizinhos ofereceram e/ou enviaram ajuda. O Prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), ainda na noite de terça (15/2), entrou em contato com o prefeito de Petrópolis, colocando equipes à disposição para ajudar no resgate às vítimas. A prefeitura de Niterói enviou na quarta-feira (16/2) um grupo de profissionais da Defesa Civil, composta por engenheiros, geólogos e especialistas em situações de risco, além de profissionais para atuar no resgate e tratamento de animais.


Em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira, o governador Cláudio Castro afirmou que 200 máquinas chegaram à Petrópolis para ajudar na remoção de terra e entulho. Mas continuou afirmando que há equipes suficientes trabalhando nas buscas.


"Não adianta ter gente demais aqui. A imprensa tem cobrado que tenha muitas pessoas aqui. Há um problema sério de trânsito, o terreno está instável. Estamos com um número suficiente de acordo com o que a técnica manda", disse ele.


O secretário geral de Defesa Civil e comandante geral do Corpo de Bombeiros do estado do Rio, Leandro Monteiro, em entrevista à Globonews nesta manhã, também afirmou que é desnecessário aumentar o efetivo. No entanto, contrariando a própria fala, disse que entrou em contato com a Liga Nacional de Bombeiros para solicitar mais cães farejadores e agentes.


"Peço calma às pessoas que perderam parentes. É um momento de angústia, mas estamos fazendo tudo o que é possível. Eu peço que confiem no trabalho dos bombeiros. Toda a estrutura do corpo de bombeiros do Brasil está à nossa disposição. Aos poucos estamos solicitando ajuda", afirmou.

Os estados de Goiás, São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul enviarão homens, cães e equipamentos. O governo federal informou que 820 militares das Forças Armadas irão atuar no apoio à população, na reestruturação da cidade e na estabilização de encostas.


“Foi deslocado o Comando Conjunto Leste para a região. A Marinha já disponibilizou pessoal, hospital de campanha e diversos meios, a força aérea estabeleceu um controle de tráfego aéreo, em virtude da quantidade de aeronaves, o exército colocou tropas, veículos e pessoal para apoiar a população desamparada. Foram deslocadas guarnições de cidades próximas como Juiz de Fora e Rio de Janeiro, solicitamos especialistas em engenharia e construção para identificar as providências necessárias nas áreas de deslizamento", disse o ministro da Defesa, general Braga Netto.


Nesta sexta, o presidente Jair Bolsonaro sobrevoou o município. A União vai liberar R$ 500 milhões para cidades atingidas pelas chuvas, mas ainda não foi anunciado quanto será destinado a Petrópolis.

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