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Big techs devem substituir USAid para espalhar narrativas pró-EUA

  • 7 de fev. de 2025
  • 3 min de leitura

Elon Musk espalhou fake news sobre a agência USAid (Foto: Angela Weiss)
Elon Musk espalhou fake news sobre a agência USAid (Foto: Angela Weiss)

Por Duda Blumer e Rodrigo Durão Coelho

(Do Brasil de Fato)

O provável desmantelamento definitivo da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAid) não deve interromper a difusão de narrativas pró-EUA no Sul Global. Para analistas ouvidos pelo Brasil de Fato, o papel exercido pela agência deve ficar a cargo de outras ferramentas, incluindo as big techs, como o X [antigo Twitter] de Elon Musk, integrante da administração Trump.


Nildo Ouriques, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC, diz que "a premissa da ajuda humanitária é só parte do cinismo dos distintos governos dos Estados Unidos", sejam eles republicanos ou democratas. "A USAid é um braço ideológico do imperialismo estadunidense", disse ao Brasil de Fato.


Já Marco Fernandes, do Instituto Tricontinental, afirmou que "para amolecer corações e mentes, agora eles têm as big techs, não precisam de programinhas dos anos 1960, herança da Guerra Fria".


"O império vai encontrar outros instrumentos. Tendo o algoritmo, Meta, Instagram, não precisam da USAid", disse, durante o programa O Estrangeiro, podcast de política internacional do Brasil de Fato.


Ajuda e propaganda

Oficialmente, a USAid financia projetos necessários em regiões em desenvolvimento. Entre os projetos que realmente trazem benefícios, mas foram descontinuados nesta semana, está o que fornece medicamentos para pessoas que vivem com o HIV na África. A suspensão deve atingir cerca de 20 milhões de pacientes no continente.


No Brasil, a agência financia projetos, em especial na Amazônia, de ONGs como o Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN), Instituto Ouro Verde (IOV), a WWF-Brasil e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).


Mas, paralelamente a programas realmente benéficos, a organização é conhecida por ter sido usada, desde sua fundação, em 1961, por vários governos estadunidenses para financiar ações intervencionistas e desestabilizadoras na América Latina e em outras regiões do mundo. Ouriques afirma que a Usaid "serviu para o terrorismo de Estado em toda a América Latina", como a reforma universitária de 1968 no Brasil, durante a ditadura militar.


Para realizar suas interferências, o financiamento da USAid não visa apenas a oposição política, mas frequentemente apoia veículos de comunicação, programas educacionais e ONGs que promovem narrativas pró-ocidentais. Na Europa Oriental e nos antigos estados da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), as atividades da USAid foram além da ajuda humanitária, servindo como uma ferramenta para promover interesses geopolíticos.


Outro exemplo foi a admissão em 2021 de que a USAid havia fingido fornecer ajuda à Venezuela em 2019, quando na verdade buscava apoiar a oposição ao governo de Nicolás Maduro.


Então por quê?

Apesar de ser essencialmente uma ferramenta do imperialismo, a USAid entrou na mira de Trump e Musk. O dono do X disse que a agência seria um "ninho de vermes" e que ela deveria ser fechada.


Já Marco Rúbio, nomeado por Trump para comandar a USAid, afirmou que acabaria com sua "insubordinação" à agenda do presidente de extrema direita. "Em muitos casos, a USAid participa de programas que vão contra o que tentamos fazer com nossa estratégia nacional", disse ainda. Uma das críticas da administração de extrema direita é que a agência defenderia "ideologia de gênero" e o "feminismo".


O professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC) Giorgio Romano lembra ao Brasil de Fato que a estrutura da USAid é "basicamente democrata", rivais dos republicanos do atual governo.


"É uma questão política. O Trump não quer braços do Estado controlados por uma burocracia democrata. Ele deve fazer uma limpeza, assim como deve cortar o financiamento do Banco Mundial, também nas mãos de democratas", explica Romano.


Já o historiador Luís Eduardo da Rocha Fernandes, doutor no tema, diz que o desmantelamento da USAid é medida que visa mobilizar a base eleitoral do republicano, que tem "claramente um projeto de extrema direita em uma articulação internacional".


"Várias agências e órgãos dos EUA vão fazer reformas para se afinarem com essa concepção estratégica de maior proximidade com a extrema direita, núcleos neofascistas pelo mundo."


"Não temos que ter ilusão que isso seja uma boa notícia, porque o orçamento para as ditas 'ajudas humanitárias' pode ser realocado para outras articulações de extrema direita, mais alinhadas com o projeto conservador de Trump, como combater o direito ao aborto pelo mundo, por exemplo", finaliza.

 
 
 

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