Boicote da prefeitura ameaça biblioteca 'smart' de Friburgo

Depois da tragédia vivida com enchentes e deslizamentos em 2011, a cidade de Nova Friburgo quer renascer para o futuro. E se apóia na cultura para trazer a autoestima de volta aos friburguenses. Na ocasião das fortes chuvas, a Praça do Suspiro, um dos cartões postais da cidade, ficou totalmente destruída e coberta de lama. Agora, no mesmo local, um projeto do secretário da Casa Civil da prefeitura, Pierre Moraes, pretende devolver vida ao espaço, com a construção da Biblioteca Internacional Machado de Assis (Bima).

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Com um conceito altamente inovador, busca ressignificar as bibliotecas e já foi reconhecido por organismos internacionais como a primeira 'smart-physical library' do mundo, modelo a ser replicado globalmente.


A Bima está amparada pela Lei Municipal 4.857, de 23 de dezembro de 2021, aprovada pela unanimidade dos vereadores. Em abril deste ano de 2022 o projeto conceitual da Bima foi apresentado ao presidente da Alerj, André Ceciliano (PT-RJ), que prontamente o apoiou, sem qualquer contrapartida de cunho eleitoral. A partir daí, desenhou-se um convênio junto à Funarj em valor de R$ 6 milhões, destinado a cobrir etapas essenciais de implementação do projeto. O envolvimento de Ceciliano, todavia, parece ter atraído a antipatia de forças contrárias.


Boicote


Buscando uma forma de respaldar o descarte do projeto, a prefeitura abriu uma consulta pública relâmpago pela internet, perguntando aos moradores qual seria a melhor utilização para o espaço, justamente em período de férias escolares e de desmobilização do principal público-alvo do aparelho. O prazo para votação foi de apenas uma semana e encerra amanhã (terça-feira, 2/8). Quem quiser participar, basta clicar aqui.


Na consulta, a prefeitura apresenta três opções para uso da Praça do Suspiro. A primeira delas, a instalação da Bima. A segunda é a construção de um Beer Garden, ou Praça da Cerveja, cujo projeto pretende criar um ponto de convergência para o turismo cervejeiro e a cultura dos povos colonizadores de Friburgo, por meio de quiosques padronizados, um memorial da produção cervejeira na região, espaço para shows e uma fonte. E o terceiro, destinar o terreno para a realização de eventos e apresentações artísticas e culturais como o recente 'O Amor sobe a Serra', realizado em junho por ocasião do Dia dos Namorados, e o Festival de Inverno que acabou de acontecer.


Em relação às críticas em relação à forma como foi submetida a consulta, a prefeitura alega que a enquete pública é “uma forma democrática e inclusiva, de caráter inteiramente consultivo, com o objetivo de reunir opiniões e resguardar o interesse público”. As colaborações são feitas por um formulário eletrônico e os interessados precisarão apenas de um e-mail para participar, “o que deve garantir a isonomia e o real interesse popular”. “Com essa iniciativa, a população poderá auxiliar o poder público na tomada de decisão sobre qual projeto existente atenderá melhor Nova Friburgo”, explicou a prefeitura em nota.


Veja o vídeo de apresentação

Marco simbólico


Segundo Pierre Moraes, o município está abatido até hoje e precisa "de um marco simbólico, um projeto proporcional aos sacrifícios, às dores e às ousadias que fizeram parte de nossa jornada". Um projeto, conforme explica, "que relembre e valorize a nossa história, e que sintetize o tipo de contribuição que uma cidade tão multicultural tem a dar ao Brasil, aos nossos povos formadores, e a todos os povos que acreditem no sonho de uma convivência pacífica e colaborativa entre culturas diferentes”.


O projeto da Bima já existe há alguns anos. Em visita à Brasília, o prefeito Johnny Maycon, juntamente com sua comitiva, apresentou a proposta ao então secretário Especial de Cultura do Governo Federal, Mário Frias. Mas surgiram contestações em relação à real necessidade de um equipamento como esse, diante das reais necessidades da população.


“Na mesma viagem visitamos diversos ministérios, secretarias e gabinetes de parlamentares, levamos projetos e demandas para todas as frentes da gestão municipal. Os orçamentos da União e dos estados são divididos em várias pastas. A obtenção de recursos para incentivar a Cultura ou o Turismo, por exemplo, de modo algum comprometem os esforços para o aprimoramento das redes públicas de Saúde ou Educação", defendeu Pierre.


Fontes de inspiração


Para Pierre Moraes, a Bima só poderia ser construída em Nova Fribrugo, berço de grandes nomes da cultura e lugar que marcou vida e obra de tantos outros, como Joaquim Nabuco, Heitor Villa-Lobos, Lygia Pape, Rui Barbosa, Alberto da Veiga Guignard, Casimiro de Abreu, Benito di Paula, Carlos Drummond de Andrade, e, claro, Machado de Assis.


A escolha do nome de Machado não foi somente pelo peso de sua obra, e por ter sido influenciado pela cidade, mas principalmente porque o escritor é a síntese do brasileiro excluído que ultrapassou as barreiras e se firmou como referência na cultura.


"Nascido pobre e mulato numa sociedade escravocrata, Machado era gago e epilético. E, contra todas as probabilidades, tornou-se o maior autor da literatura brasileira", diz ele.


Além disso, segundo ele, a história friburguense sempre foi marcada por ousadia e superação.


"Nova Friburgo sempre foi uma cidade acolhedora, que recebeu emigrados de inúmeras nações em tempos distintos, e também uma cidade educadora, que recebeu alunos vindos de vários cantos do país. Um município que, por essas e outras características, marcou de maneira decisiva a trajetória de alguns dos personagens mais proeminentes da sociedade brasileira nos últimos dois séculos”, ressaltou ele.

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A Biblioteca Internacional Machado de Assis


Desde que foi criado, o projeto da Bima vem passando por aprimoramento constante. A próxima etapa será a elaboração de um projeto executivo detalhado, que considere todas as especificidades da biblioteca e torne sua construção mais rápida e eficiente.


“Importante destacar que a Bima será pública mas terá personalidade jurídica privada. Sua gestão se dará através de uma fundação e terá um fundo próprio, a fim de assegurar a transparência e a autonomia necessárias, evitando que sua continuidade fique condicionada à boa vontade de administrações futuras. Isso é muito importante, porque a biblioteca não é um projeto de governo, mas de Estado”, frisou.


“Os projetos de lei necessários ao andamento do projeto serão remetidos à Câmara Municipal no tempo devido. A ideia da Bima vem ganhando apoio e materialidade a cada dia, e estamos à disposição dos mais variados setores da sociedade, bem como da Câmara Municipal, para o agendamento de apresentações detalhadas do projeto sempre que se fizerem necessárias”, completou.


O prédio e os espaços


O projeto arquitetônico da Bima tem forma elíptica que se expande, através de quatro andares, em forma de engrenagem.


“O projeto conceitual foi enfaticamente elogiado por um dos principais engenheiros responsáveis pela construção do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. A Bima será uma engrenagem para Nova Friburgo e referência cultural para o mundo”, disse Pierre.


Em seu primeiro piso, cercado por um espelho d’água em parte turvo e em parte claro, simbolizando o renascimento da cidade justamente numa das localidades mais atingidas pelas chuvas de janeiro de 2011, haverá a Sala Carlos Drummond de Andrade, um auditório, com aproximadamente 70 lugares, onde poderão ser ministradas aulas e palestras, sediar eventos de e-games, como forma de incrementar a receita e atrair jovens para um ambiente literário.


O segundo piso abrigará o Cineteatro Benito di Paula, com capacidade para aproximadamente 100 pessoas, onde ocorrerão apresentações musicais, teatrais e audiovisuais. No mesmo andar também terá uma loja de aparelho eletrônicos e souvenirs.


A Biblioteca Internacional ocupará o terceiro andar e contará com livros físicos e digitais nas línguas nativas dos 193 países que integram a Organização das Nações Unidas, bem como de seus dois observadores, sem esquecer dos idiomas indígenas brasileiros, dos livros em braile ou dos audiolivros. O projeto prevê piso em led, alternando trechos literários nos mais variados idiomas.


Também no terceiro andar terá um espaço dedicado à imprensa escrita e uma réplica da prensa de Johannes Gutenberg. No quarto andar haverá uma espaço aberto para leitura e contemplação, margeado pelo Jardim das Primaveras, em homenagem a Casimiro de Abreu, onde haverá um café e serão servidas refeições executivas.


O projeto prevê ainda a supressão da rua que atualmente contorna a Praça do Suspiro, dando origem a um grande boulevard para apresentações culturais com capacidade para 12 mil pessoas. A necessidade de vagas para estacionamento será suprida com a construção de um edifício garagem em localidade próxima, cuja receita será parcialmente direcionada ao fundo que reunirá os recursos necessários à manutenção da Bima.


“Além disso, ela se desdobrará, no futuro, em pequenas bibliotecas distritais voltadas a promover o hábito da leitura em todas as localidades friburguenses,” explicou Pierre.


*Com informações de A Voz da Serra.