Bolsonaristas investigados apoiam invasão do Capitólio

Atualizado: Jan 11



Fonte: Agência Pública


Por Ethel Rudnitzki, Laura Scofield


“A população conservadora no mundo está de olho no que está acontecendo ali e de fato isso vai impulsionar muito”, alertou o youtuber Italo Lorenzon durante a cobertura do canal Terça Livre sobre as manifestações de apoiadores de Donald Trump em Washington DC. “Esse vai ser um ano de grandes manifestações. Podem escrever o que eu estou dizendo”, continuou.

O canal é um dos investigados pelo Supremo Tribunal Federal em inquérito que apura a organização de atos contra instituições democráticas brasileiras em meados de 2019. Na última quarta-feira (06/01) eles apoiaram também a invasão ao Congresso norte-americano por parte de apoiadores de Donald Trump. Eles pediam pela recontagem de votos sob a falsa acusação de fraude eleitoral.

Além do Terça Livre, outros 30 perfis investigados endossaram as manifestações nos EUA, com lives e postagens inflamadas no Twitter, segundo levantamento da Agência Pública.

Desses, sete são políticos da base de Bolsonaro. O levantamento também identificou que mensagens de apoio à invasão ao Capitólio tomaram conta de grupos de WhatsApp bolsonaristas. “Aqui no Brasil temos que fazer como os americanos, ir pra rua e pedir fora STF”, diz uma das correntes.


Uma das correntes que circulou em grupos bolsonaristas no WhatsApp / Reprodução WhatsApp

Conflito importado

Em uma live que durou mais de oito horas, o canal de Fernando Lisboa, em parceria com o canal Vida Gringa, fez uma cobertura das manifestações pró-Trump em Washington.

“COBERTURA COMPLETA: O Dia Mais importante começou em Washington D.C”, era o título do vídeo que foi posteriormente excluído pelo próprio canal, que é investigado por associação a atos antidemocráticos no Brasil.

Lisboa também comentou os acontecimentos através de seu Twitter, retuitando mensagens (inclusive de Donald Trump) que acusavam as eleições de fraude, e associando Joe Biden a comunistas e anarquistas. O youtuber chegou a publicar imagem da guerra da secessão norte-americana com bandeiras dos estados confederados, cuja principal pauta era a não abolição da escravidão no país.

Também investigado, o canal Universo, de Roberto Boni, fez uma live com Maurício Galante, um empresário brasileiro que tem um campo de golfe nos EUA, sobre a invasão do Capitólio.

Na live, que teve 13.683 visualizações, Maurício afirmou que a eleição norte-americana foi fraudada. “Tem meio milhão de votos mandados pelos correios e os estados não querem autorizar fazer a verificação dessas assinaturas”. Em outro trecho, diz: “A Suprema Corte tá se calando para o maior roubo da história. Pelas evidências”.

No Twitter, o influenciador Bernardo Küster também sugeriu que houve fraude. Com uma imagem da multidão apoiadora de Trump questionou: “Quem ganhou as eleições americanas?”.

Já o Terça Livre dedicou oito vídeos à cobertura dos acontecimentos nos EUA, além de postagens no site e redes sociais. O youtuber Allan dos Santos, fundador do canal, fez a cobertura direto de Washington, enquanto outros colaboradores do canal comentavam em uma bancada de Brasília. Entre eles, era consenso que as eleições americanas foram fraudadas, mesmo sem evidências.

Allan dos Santos em transmissão ao vivo de Washington para o canal Terça Livre / Reprodução Instagram

Em certo momento, o comentarista Max Cardoso comparou a situação com o Brasil: “O que de fato é certo é que as pessoas estão revoltadas com a fraude que está acontecendo e com todo o cinismo desses políticos. Só que aqui as pessoas estão mais acostumadas com esse tipo de cinismo. Lá parece que eles não estão dispostos a deixar que levem isso adiante, essas fraudes.”

Enquanto isso, nos comentários dos vídeos, usuários pediam que a situação de Washington se repetisse em terras brasileiras: “Vamos invadir o STF. Quem topa?”, sugeria um dos comentários.

Comentários na live do canal Terça Livre incitavam revolta de brasileiros / Reprodução YouTube

50 grupos de WhatsApp

A reportagem identificou mensagens de apoio aos americanos pró-Trump em mais de 50 grupos públicos de WhatsApp que reúnem apoiadores do presidente. “A China dominará o mundo com ajuda do esquerdista Biden”, dizia uma das correntes. Outras traziam os acontecimentos americanos para o contexto brasileiro: “Ou apoiamos Bolsonaro ou teremos que aprender chinês”.

Imagem com suposta fala de Trump sobre a China circulou em grupos de WhatsApp brasileiros / Agência Pública

Para o pesquisador de mídias digitais, David Nemer, através das redes sociais, os bolsonaristas “trouxeram o conflito americano para o Brasil”. “Eles trouxeram isso como se fossem especialistas já falando que é fraude, que é um atentado contra a democracia, contra o Trump e tal, para um público que não seria muito interessado, mas acabou ficando interessado porque eles criaram essa guerra retórica”, disse. A intenção seria manter a base de seguidores agitada. “Se não tem ninguém energizado ninguém vai entrar no Youtube deles, ninguém vai fazer nada no canal deles para consumir. O caos faz isso, por isso que eles o promovem”, explicou.

De acordo com Nemer, os manifestantes que em 2020 protestaram contra o Supremo e o Congresso Nacional “foram motivados e continuaram sendo motivados pelos deputados e por esses blogueiros [bolsonaristas]”.


Deputados federais elogiam invasão

Na última quarta-feira, os deputados Bia Kicis, Carla Zambelli, Caroline De Toni, Daniel Silveira, General Girão e Paulo Eduardo Martins – todos investigados por associação a atos antidemocráticos no Brasil – demonstraram apoio à invasão do Capitólio por parte dos conservadores americanos, sugerindo que houve fraude nas eleições dos EUA.

“Diante das fortes evidências de que fraudaram as eleições americanas, o povo americano, tomado de um sentimento de justa indignação e inconformismo, hoje, no dia da certificação das eleições, realizou um grande protesto e este, infelizmente, descambou em violência”, publicou De Toni.

“Quando esses políticos assumem esse papel e começam a fazer esses pronunciamentos oficiais as pessoas acabam tomando isso não como uma ordem, mas como um ato de organização, é como se estivessem institucionalizando o protesto”, critica Nemer.


Ministro Barroso é visto como vilão

“Se nós não tivermos o voto impresso em ’22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”, afirmou o presidente Bolsonaro no dia seguinte aos acontecimentos no país norte-americano.

A fala do presidente engajou os influenciadores no contexto da invasão ao Capitólio, que já sugerem que as próximas eleições para presidente serão fraudadas. “Oi Brasil, tá vendo o que tá rolando com Trump? Pois é, se preparem, 2022 será bem aqui em terras de tupiniquim”, tuitou a influenciadora Bárbara Zambaldi, do canal Te Atualizei, logo depois da declaração de Bolsonaro. Ela é investigada como parte de “um mecanismo coordenado de criação e divulgação” de notícias falsas, segundo inquérito do STF.

“Pelo andar da carruagem a melhor coisa a fazer é nem votar mais”, sugeriu o influenciador bolsonarista Leandro Ruschel, também investigado por disseminação de desinformação.

Allan Lopes, do Terça Livre, usou o momento para relembrar a acusação de fraude em 2018. Afirmou que defender que Biden venceu as eleições, seria “a mesma coisa de você tentar me convencer que Haddad teve 47 milhões de votos em 2018”. Biden já foi certificado como presidente e as fraudes nas últimas eleições presidenciais estão descartadas.

No WhatsApp circularam correntes e até figurinhas pedindo pelo voto impresso. “2022 não vai prestar! voto impresso já!”

Figurinhas de WhatsApp em grupos bolsonaristas pedem pelo voto impresso / Reprodução WhatsApp

O pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense (UFF), monitora grupos de WhatsApp e redes bolsonaristas desde 2018. Para ele, a narrativa pelo voto impresso vem sendo construída com foco no futuro e pode ser usada para “deslegitimar o resultado das urnas, em uma possível derrota de Bolsonaro”.

Outra narrativa que vem com a falsa acusação de fraude são ataques ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Luís Roberto Barroso. “Esses blogueiros têm o Barroso como um vilão”, diz David Nemer.

Depois da invasão ao Congresso norte-americano, que colocou novamente o tema em pauta, o ministro voltou a ser alvo de ataques. O magistrado se pronunciou em seu Twitter sobre os acontecimentos chamando de “ameaça à democracia”. Em resposta, bolsonaristas acusaram o ministro de parcialidade e associação com a esquerda. “Ministro só reclama quando acontece algo na direita”, acusou a deputada Carla Zambelli.

Deputado General Girão também criticou posicionamento do ministro Barroso / Reprodução Twitter

David Nemer analisa que um dos objetivos principais dos blogueiros bolsonaristas é “justamente já ir preparando para 2022.”

“Se Bolsonaro perder as [próximas] eleições eles não vão aceitar, vai acontecer a mesma coisa”, prevê.


“Censura” nas redes

Após o Twitter, Facebook e Instagram imporem restrições a conteúdos com falsas alegações sobre as eleições, a começar pela conta oficial do presidente Donald Trump, bolsonaristas criticaram as medidas das plataformas para evitar a disseminação de desinformação.

“Estamos vivendo um período em que a liberdade de expressão é um privilégio da esquerda”, acusou Alan Lopes, um dos participantes das lives do Terça Livre sobre os acontecimentos nos EUA, no Twitter.

“Jack Dorsey (CEO do Twitter) e Zuckerberg (CEO do Instagram e Facebook) já não escondem que são comunistas”, dizia uma corrente de WhatsApp.

No WhatsApp, bolsonaristas criticaram medidas das redes sociais contra desinformação / Reprodução WhatsApp

https://apublica.org

 Conheça a nova Scooter Elétrica

Não precisa de CNH, sem placa e sem IPVA

1/3
300x250px - para veicular a partir do di
Leia também: