Bolsonaro envergonha o Brasil na ONU

Por Luiz Augusto Erthal

Usando a prerrogativa do Brasil de abrir anualmente, desde 1955, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York - herança de um passado virtuoso da política externa brasileira e do Itamaraty -, o presidente Jair Bolsonaro envergonhou o país diante do mundo nesta terça-feira, 21, com um discurso temperado pelo negacionismo, reafirmado na defesa do tratamento precoce contra a covid-19, por um ufanismo esquizofrênico e pela paranoia anticomunista.

Bolsonaro discursa na abertura da 76a Assembleia Geral das Nações Unidas / ONU

Diante das revelações escandalosas sobre os indícios de um grande esquema de corrupção enraizado no Ministério da Saúde, com ramificações na Câmara dos Deputados e possivelmente até no Palácio do Planalto, trazidas à tona pela CPI da Covid no Senado, Jair Bolsonaro apresentou, logo no início do discurso com que abriu a 76a Assembleia Geral da ONU, uma fantasiosa imagem de moralidade do seu governo. Segundo ele, desde que assumiu a presidência o Brasil não registra casos de corrupção, sendo ele próprio e seus filhos alvos de investigações judiciais por essas práticas.


O presidente reivindicou para si a façanha lunática de haver impedido a implantação do comunismo no Brasil, que estaria “à beira do socialismo” quando assumiu o governo, mesmo tendo recebido a faixa presidencial das mãos do ultraconservador Michel Temer, responsável, inclusive, pela inauguração da chamada “reforma trabalhista” - continuada por Bolsonaro - que alijou os trabalhadores brasileiros de direitos conquistados durante os governos trabalhistas de Getúlio Vargas e João Goulart.


Ele tergiversou sobre a questão climática - um dos temas mais caros atualmente à comunidade internacional -, manipulando dados estatísticos para atribuir falsamente ao seu governo uma capacidade de reversão do desmatamento da Amazônia, camuflando a maior redução da cobertura florestal da história, ocorrida durante a sua gestão, marcada pelo incentivo às queimadas e à derrubada da floresta, favorecendo a grilagem e a expansão agropastoril.

Às vésperas do registro trágico de 600 mil mortes no Brasil pela covid, Bolsonaro se insurgiu mais uma vez contra as medidas de isolamento social, atribuídas por ele a governadores e prefeitos brasileiros, e defendeu o tratamento precoce da doença, condenado pela Organização Mundial da Saúde.

Boris Johnson dise que tomou as duas doses / PR

Alvo de críticas e deboches desde que chegou a Nova York, condenado pela opinião pública brasileira e internacional, questionado até mesmo por líderes mundiais, como o primeiro ministro britânico, Boris Johnson, que o constrangeu durante encontro entre os dois, segunda-feira, por não ter tomado a vacina contra a covid, Bolsonaro manifestou novamente seu desprezo pela imprensa, desta vez generalizando seu ataque a veículos de todo o mundo.


Ele fez o de sempre: manipulou a realidade, seguindo a doutrina preconizada pelo nazista Joseph Goebbels, de que uma mentira sistematicamente repetida se torna verdade; menosprezou as boas práticas civilizatórias e, ao contrário de mostrar ao mundo um Brasil que teria recuperado a credibilidade, como disse, conseguiu mais uma vez ruborizar o país. Transformou por alguns minutos a tribuna da Assembleia Geral da ONU em um palanque político tosco e vergonhoso.

Veja a íntegra do discurso de Bolsonaro:

"Senhor Presidente da Assembleia Geral, Abdullah Shahid,

Senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres,

Senhores Chefes de Estado e de Governo e demais chefes de delegação,

Senhoras e senhores,

É uma honra abrir novamente a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões.

O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019.

Estamos há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção.

O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e seus militares, valoriza a família e deve lealdade a seu povo.

Isso é muito, é uma sólida base, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo.

Nossas estatais davam prejuízos de bilhões de dólares, hoje são lucrativas.

Nosso Banco de Desenvolvimento era usado para financiar obras em países comunistas, sem garantias. Quem honra esses compromissos é o próprio povo brasileiro.

Tudo isso mudou. Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada.

O Brasil possui o maior programa de parceria de investimentos com a iniciativa privada de sua história. Programa que já é uma realidade e está em franca execução.

Até aqui, foram contratados US$ 100 bilhões de novos investimentos e arrecadados US$ 23 bilhões em outorgas.

Na área de infraestrutura, leiloamos, para a iniciativa privada, 34 aeroportos e 29 terminais portuários.

Já são mais de US$ 6 bilhões em contratos privados para novas ferrovias. Introduzimos o sistema de autorizações ferroviárias, o que aproxima nosso modelo ao americano. Em poucos dias, recebemos 14 requerimentos de autorizações para novas ferrovias com quase US$ 15 bilhões de investimentos privados.

Em nosso governo promovemos o ressurgimento do modal ferroviário.

Como reflexo, menor consumo de combustíveis fósseis e redução do custo Brasil,

em especial no barateamento da produção de alimentos.

Grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico. O maior leilão da história no setor foi realizado em abril, com concessão ao setor privado dos serviços de distribuição de água e esgoto no Rio de Janeiro.

Temos tudo o que investidor procura: um grande mercado consumidor, excelentes ativos, tradição de respeito a contratos e confiança no nosso governo.

Também anuncio que nos próximos dias, realizaremos o leilão para implementação da tecnologia 5G no Brasil.

Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional.

Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa.

Nosso Código Florestal deve servir de exemplo para outros países.

O Brasil é um país com dimensões continentais, com grandes desafios ambientais.

São 8,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 66% são vegetação nativa, a mesma desde o seu descobrimento, em 1500.

Somente no bioma amazônico, 84% da floresta está intacta, abrigando a maior biodiversidade do planeta. Lembro que a região amazônica equivale à área de toda a Europa Ocidental.

Antecipamos, de 2060 para 2050, o objetivo de alcançar a neutralidade climática. Os recursos humanos e financeiros, destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais, foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal.

E os resultados desta importante ação já começaram a aparecer!

Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior.

Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?

Os senhores estão convidados a visitar a nossa Amazônia!

O Brasil já é um exemplo na geração de energia com 83% advinda de fontes renováveis.

Por ocasião da COP-26, buscaremos consenso sobre as regras do mercado de crédito de carbono global. Esperamos que os países industrializados cumpram efetivamente seus compromissos com o financiamento de clima em volumes relevantes.

O futuro do emprego verde está no Brasil: energia renovável, agricultura sustentável, indústria de baixa emissão, saneamento básico, tratamento de resíduos e turismo.

Ratificamos a Convenção Interamericana contra o Racismo e Formas Correlatas de Intolerância.

Temos a família tradicional como fundamento da civilização. E a liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e expressão.

14% do território nacional, ou seja, mais de 110 milhões de hectares, uma área equivalente a Alemanha e França juntas, é destinada às reservas indígenas. Nessas regiões, 600.000 índios vivem em liberdade e cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades.

O Brasil sempre participou em Missões de Paz da ONU. De Suez até o Congo, passando pelo Haiti e Líbano.

Nosso país sempre acolheu refugiados. Em nossa fronteira com a vizinha Venezuela, a Operação Acolhida, do Governo Federal, já recebeu 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana.

O futuro do Afeganistão também nos causa profunda apreensão. Concederemos visto humanitário para cristãos, mulheres, crianças e jovens afegãos.

Nesses 20 anos dos atentados contra os Estados Unidos da América, em 11 de setembro de 2001, reitero nosso repúdio ao terrorismo em todas suas formas.

Em 2022, voltaremos a ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Agradeço aos 181 países, em um universo de 190, que confiaram no Brasil. Reflexo de uma política externa séria e responsável promovida pelo nosso Ministério de Relações Exteriores.

Apoiamos uma Reforma do Conselho de Segurança ONU, onde buscamos um assento permanente.

A pandemia pegou a todos de surpresa em 2020. Lamentamos todas as mortes ocorridas no Brasil e no mundo.

Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, em especial, nos gêneros alimentícios no mundo todo.

No Brasil, para atender aqueles mais humildes, obrigados a ficar em casa por decisão de governadores e prefeitos e que perderam sua renda, concedemos um auxílio emergencial de US$ 800 para 68 milhões de pessoas em 2020.

Lembro que terminamos 2020, ano da pandemia, com mais empregos formais do que em dezembro de 2019, graças às ações do nosso governo com programas de manutenção de emprego e renda que nos custaram cerca de US$ 40 bilhões.

Somente nos primeiros 7 meses desse ano, criamos aproximadamente 1 milhão e 800 mil novos empregos. Lembro ainda que o nosso crescimento para 2021 está estimado em 5%.

Até o momento, o Governo Federal distribuiu mais de 260 milhões de doses de vacinas e mais de 140 milhões de brasileiros já receberam, pelo menos, a primeira dose, o que representa quase 90% da população adulta. 80% da população indígena também já foi totalmente vacinada. Até novembro, todos que escolheram ser vacinados no Brasil, serão atendidos.

Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina.