Capela do Maruí: história escondida por tijolos

Por Ana Clara Paiva


Diversos prédios da cidade de Niterói se encontram em situação de abandono devido ao impasse entre poderes municipal, estadual e federal quanto às ações de preservação e manutenção da arquitetura histórica. Assim como o Palácio da Praia Grande, na Rua Marechal Deodoro, e o prédio que abrigou o TCE, na Avenida Jansen de Mello, a Capela de São Pedro do Maruí — localizada dentro do Cemitério do Maruí e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) — se encontra em estado avançado de degradação e acúmulo de dejetos.


Recentemente, a construção teve suas janelas e portas vedadas por tijolos, uma estratégia da prefeitura de Niterói para evitar invasão. Em geral, a medida é utilizada por proprietários de imóveis tombados que estão abandonados, em especial quando se trata de prédios históricos que pertencem ao poder público. Nesse caso, os governos são, ao mesmo tempo, fiscalizadores e responsáveis pela preservação, o que acaba gerando demora ou falta de ação e, como consequência, a deterioração.

Foto: Reprodução / Facebook

No caso do conjunto histórico do Maruí, o cemitério, que é municipal, é gerido pela prefeitura da cidade. A capela, porém, por ser tombada pelo IPHAN, fica sob a tutela do governo federal, o que causa um problema em relação à responsabilidade por sua conservação.


Para o advogado e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói, Antônio Seixas, o abandono dessas estruturas significa apagar a memória e o valor artístico da cidade.


Reprodução / Facebook

“O Cemitério do Maruí é uma rica fonte de pesquisa para a história de Niterói. Já a Capela de São Pedro é representativa das edificações religiosas setecentistas, daí o seu tombamento enquanto bem de valor artístico. Para se preservar os túmulos de valor histórico e a capela, o município precisa de um plano de gestão, elaborado em conjunto com IPHAN. O município alega que a responsabilidade por conservar os jazigos perpétuos é das famílias, mas a conservação dos de valor histórico deve ser assumida pela prefeitura. Do contrário, teremos perdas para a memória da cidade”, afirmou ele.


De acordo com Prefeitura Municipal de Niterói, há um projeto de recuperação da capela em andamento sendo finalizado pela Secretaria de Obras, mas ainda precisará de um aval do IPHAN para ser realizado.


Memória de pedra e cal


A capela com características do estilo rococó foi idealizada pelos irmãos Francisco Vitoriano Pereira e José Pereira Correia, proprietários da fazenda São Pedro, localizada na enseada do Maruhy. Sua autorização para funcionamento foi concedida pelo Bispo do Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1751. A propriedade original foi vendida ao Governo Provincial em 1850, para a construção de um cemitério público, o que fez com que nenhum vestígio da casa grande da fazenda fosse preservado.


Reprodução / Fcebook

Mesmo com as obras não finalizadas, o cemitério recebeu seu primeiro funeral em 1º de novembro de 1855, durante a epidemia de cólera. Os sepultamentos em cemitérios passaram a ser obrigatórios através do Decreto nº 776, de 19 de setembro de 1855.


No cemitério do Maruí, que fica ao redor da capela, encontram-se os mausoléus do poeta romântico Fagundes Varella, do escritor francês Charles Ribeyrolles e do General Fonseca Ramos, que defendeu a cidade durante a Revolta da Armada, em 1893. Nele estão, também, os jazigos do ex-governador Roberto Silveira e do ator Leopoldo Fróes. O cemitério e a capela foram tombados duas vezes pelo IPHAN: a primeira, em 1938, quando foram inscritos no Livro Tombo das Belas Artes; e, em 1948, no Livro Tombo Histórico.






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