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Carta deixada por Getúlio é um chamado aos brasileiros

Há 68 anos, no dia 24 de agosto de 1954, faltando 15 minutos para as 9 da manhã, Getúlio Vargas cometeu suicídio. Com um tiro no peito, o presidente morreu em seu quarto, no Palácio do Catete, no Rio que era, então, a capital da República. A notícia abalou o país, causando forte comoção. Milhões de pessoas saíram às ruas em protesto. Houve quebradeira nas sedes de jornais, rádios e empresas que se opunham a ele e muitos fugiram do país: deputados golpistas da UND, os donos da mídia, militares envolvidos no golpe e também Carlos Lacerda, o pivô da traição.

Reprodução

O líder da revolução de 30 sofria ataques contra seu governo nacionalista, trabalhista e democrático. O mesmo governo que deu aos brasileiros empresas como a Petrobras e a Eletrobras, as leis de proteção ao trabalhdor e aos pobres. A herança política de Getúlio foi deixada a homens como Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e outros trabalhistas que abraçaram as suas ideias em defesa da democracia e da igualdade.


A descontrução recente de seu legado pelo governo entreguista de Bolsonaro - a começar pelas reformas nas leis do trabalho, que beneficiam empresários e precarizam trabalhadores - coloca em risco a vida de milhões de pessoas, condenando-as ao desalento e à fome, além ameaçar a soberania do Brasil.


A carta-testamento deixada por ele na mesa de cabeceira é um alerta contra a exploração do povo e a espoliação das riquezas do país. Um chamado a homens e mulheres para que não esmoreçam na luta por seus direitos.


Passados 68 anos, o texto continua a expressar a mesma urgência de antes. As últimas palavras escritas por Getúlio, carregadas de amor e respeito incondicional ao país e aos brasileiros, nunca foram tão necessárias como agora.

Lei a carta na íntegra:


“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.


Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci.


Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.


A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.


Eu vos dei a minha vida.


Agora ofereço a minha morte


Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre, não querem que o povo seja independente.


Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.


Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.


Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.


Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.


Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.


Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.


Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”


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