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Castro recebeu quase 60% dos votos das áreas de milícia

Atualizado: 3 de nov. de 2023

Por Luiz Augusto Erthal


Em estudo inédito acerca do chamado “efeito milícia” sobre os resultados eleitorais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, baseado nos dados apurados pelo TSE e pelo TRE-RJ nas eleições de 2022, pesquisadores do Observatório das Metrópoles concluíram que as chapas encabeçadas pelo então presidente Jair Bolsonaro e pelo ainda hoje governador Cláudio Castro, ambos candidatos à reeleição naquele momento, obtiveram votações significativamente mais expressivas nos territórios controlados por facções milicianas, em relação às outras áreas da capital fluminense.


Chamada de 1ª página da edição impressa do TODA PALAVRA sobre foto de Joédson Alves/Agência Brasil

Mesmo perdendo a faixa presidencial para o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo diante das votações maciças do petista nos estados do Nordeste, Bolsonaro obteve, no primeiro turno, 53,1% dos votos nas regiões controladas pelas milícias cariocas (3,2% a mais do que a sua média de votos em todo território metropolitano). Os pesquisadores também dividiram as regiões por níveis de controle exercido pelos milicianos e estabeleceram uma tendência de crescimento de desempenho de Bolsonaro dentro de uma escala que apurou suas votações nas áreas de baixo controle (51,4%), médio controle (52,4%) e alto controle (53,1%) dos criminosos.

Tabelas reproduzidas do site www.observatóriodasmetropoles.net.br


Cláudio Castro, cujo atual governo enfrenta possivelmente a maior crise da segurança pública no Estado do Rio, foi ainda mais longe: chegou a ter 59,3% dos votos em áreas de milícias (4,3% a mais do que na média). As constantes trocas no comando da segurança pública do estado e atentados milicianos como o que recentemente incendiou mais de 30 ônibus na Zona Oeste da cidade, demonstram, em contrapartida, a flagrante impotência e incapacidade do governador em combater as milícias que dominam as regiões onde ele obteve suas votações mais importantes.


Conduzido pelos professores Orlando Alves dos Santos Junior, Filipe Souza Corrêa e Juciano Martins Rodrigues, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), o estudo cruzou os dados do TSE/TRE com os levantamentos dos mapas das milícias feitos pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI) e pelo Instituto Fogo Cruzado e constatou, ainda, a mesma tendência preferencial pelos candidatos de direita e conservadores a senador e deputados federal/estadual nas áreas sob ocupação miliciana.

Tabela do site www.observatóriodasmetropoles.net.br

De acordo com os pesquisadores, o estudo, realizado ainda no ano passado, “permite dizer que as áreas controladas por esses grupos apresentaram certas tendências políticas diferenciando-se do restante da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Nessas áreas, os candidatos conservadores e suas coalizões políticas, liderados pelo atual [ex] presidente Jair Bolsonaro, receberam proporcionalmente mais votos do que nas demais áreas da metrópole”. A pesquisa completa pode ser lida em https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/voto-e-milicia-as-eleicoes-de-2022-na-regiao-metropolitana-do-rio-de-janeiro/.


Reprise da eleição de 2018

Estudo semelhante foi publicado pelo TODA PALAVRA em fevereiro de 2019, dois meses após a posse do então presidente Jair Bolsonaro, que obteve, da mesma forma que seu filho 01, o também eleito senador Flávio Bolsonaro, as suas maiores votações em metade das 20 zonas eleitorais que haviam sido mapeadas pela Polícia Civil, a pedido do TRE, por estarem localizadas em regiões sob influência política das milícias.O levantamento foi feito pelo cientista social e jornalista – especializado em jornalismo de dados – Fábio Vasconcellos.


Chamada de primeira página da edição impressa do TODA PALAVRA de fevereiro/2018
Eleições de 2018 - primeiro turno / TODA PALAVRA fevereiro/2019

A matéria do jornal também registra que, a dois meses das eleições de 2019, o coordenador da fiscalização de propaganda do TRE-RJ, juiz Mauro Nicolau Júnior, manifestara a sua preocupação com a participação do crime organizado no pleito. Falando a jornalistas no dia 2 de agosto daquele ano, ele disse que cerca de 2 milhões de eleitores votam em áreas consideradas de risco na região metropolitana fluminense. São locais cujas zonas eleitorais têm algum tipo de ameaça à segurança pública, como a atuação de milícias e outras organizações criminosas.


"É um número bastante significativo e que decide qualquer eleição", declarou o magistrado, deixando claro que a atividade criminosa eleitoral se dava em todos os níveis de cargos eletivos.


O então ministro da Justiça, Torquato Jardim, também havia confirmado essa ameaça à democracia brasileira um ano antes das eleições, ao participar do seminário “Eleições 2018: a democracia em debate”, organizado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Segundo anunciou àquela época, a força do crime organizado em comunidades e favelas do Rio de Janeiro, incluindo o tráfico de drogas e milícias, seria um desafio a ser enfrentado no pleito que se aproximava.


“No Rio de Janeiro, o crime organizado está livre para eleger quem quiser. Já está mapeado no TRE daqui, nas 850 zonas de conflito dentro das comunidades cariocas, quais são as seções eleitorais e quem ganha mais votos naquelas seções. Isto está documentado, é desafio para os serviços de segurança, para as eleições no ano que vem, no Brasil e no Rio de Janeiro em particular”, afirmou o ministro em seminário realizado no dia 6 de outubro de 2017, no Rio.


Procurado na época pelo TODA PALAVRA, o TRE-RJ confirmou, através de sua assessoria de comunicação, a existência do levantamento, mas negou acesso às informações, alegando serem de caráter sigiloso.


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