Ciência, Existência e Insciência


Por Waldeck Carneiro

Deputado estadual (PT) e professor da UFF


O mestre Álvaro Vieira Pinto, em sua primorosa obra “Ciência e Existência”, revela com sabedoria os nexos entre o conhecimento científico e a melhoria das condições de vida das pessoas. Antes dele, o genial Bertold Brecht já afirmara que “a única finalidade da ciência está em aliviar a miséria da existência humana”. Ora, essa premissa que faz confluir os dois pensadores está sob grave ataque no governo obscurantista de Jair Bolsonaro, com o próprio presidente na liderança da politização desqualificada da ciência, dando sequência aos seus sucessivos ataques a pesquisas, pesquisadores e instituições científicas.

Com quase 163.000 óbitos pela COVID-19, o Brasil ostenta o dramático segundo lugar em mortes causadas pela pandemia do novo coronavírus, perdendo apenas para os Estados Unidos. Ora, nesse cenário desolador, o governo brasileiro deveria ser um dos mais interessados em apoiar pesquisas sobre a produção de uma vacina capaz de imunizar as pessoas contra o contágio por esse vírus traiçoeiro e letal. Todavia, o governo neofascista de Bolsonaro, negacionista assumido, decidiu atrapalhar os testes efetuados no Brasil pelo Instituto Butantã, renomada entidade científica paulista, que, ao lado de outras valorosas instituições de pesquisa brasileiras (Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Vital Brazil, entre outras), tem feito esforços memoráveis para produzir uma vacina cientificamente confiável e eficaz na prevenção à COVID-19.

Com efeito, a partir de uma postura subalterna em relação à política externa de Donald Trump, recentemente derrotado em sua tentativa de reeleição nos EUA, a bem das instituições democráticas e das relações respeitosas entre os países, o governo brasileiro decidiu escalar a China como adversária, a despeito das opulentas parcerias comerciais que o Brasil mantém com aquela potência asiática, que já estão em queda, com graves prejuízos à frágil economia nacional.

Em parceria com o laboratório chinês Sinovac, o Instituto Butantã, órgão vinculado ao Estado de São Paulo, vinha avançando na produção da vacina CoronaVac, já tendo inclusive iniciado os testes em humanos. Ora, alegando, sem respaldo técnico fundamentado, a ocorrência de episódio grave que teria relação com os testes, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) suspendeu os testes da vacina, sem sequer dialogar com a direção do Instituto Butantã. Contudo, a morte de um voluntário das pesquisas sobre a vacina, episódio alegado pela ANVISA para justificar tão drástica decisão, segundo os registros policiais, teria sido suicídio, portanto, sem qualquer vínculo com os testes da CoronaVac.

Na sequência, o presidente da República deu declarações grotescas. Em primeiro lugar, brandindo a morte como trunfo, afirmou que “Jair Bolsonaro tinha vencido mais uma”, fazendo alusão a uma peleja em que ele é o adversário da vacina. Em segundo lugar, referiu-se à atitude de prevenção e temor face à pandemia como postura de um país de “maricas”, pois, segundo ele, todos vamos morrer um dia e, logo, não se justificam as medidas preventivas e os investimentos em pesquisa para produzir uma vacina, que, no entanto, é desejada no mundo inteiro.

Não há surpresa na conduta de Jair Bolsonaro! Desde o início da pandemia, por ele classificada como “gripezinha”, o obscuro presidente sempre minimizou a tragédia sanitária e humanitária, fez (e segue fazendo) pouco caso das mortes de brasileiros vitimados pelo novo coronavírus e está há meses incitando a população a não se prevenir, com gestos e palavras, verdadeiros maus exemplos, que têm responsabilidade direta sobre o número de óbitos e de pessoas acometidas de COVID-19 no Brasil: mais de 5 milhões e 700 mil casos confirmados! Também não surpreende a atitude negacionista e depreciativa do próprio presidente em relação à ciência e à produção científica nacional. Se tivesse orgulho próprio, seu ministro da Ciência e Tecnologia, totalmente sumido, literalmente perdido no tempo e no espaço, deveria pedir demissão do cargo.

Dada a gravidade do episódio, o próprio Supremo Tribunal Federal já determinou que a ANVISA explique as razões de sua abrupta decisão, mesmo tendo recebido do Instituto Butantã duas notificações sobre a morte do voluntário, esclarecendo que a ocorrência nada tinha a ver com a pesquisa sobre a vacina.

Misturam-se nesse cenário três elementos: a politização da ciência feita por Jair Bolsonaro, que entrou em colisão com o governador de São Paulo, seu apoiador nas eleições presidenciais de 2018, visto que o Instituto Butantã é uma entidade científica vinculada à administração estadual paulista; o obscurantismo que caracteriza o governo Bolsonaro e que se expressa por uma forte postura negacionista em relação à ciência, colocando pesquisadores e instituições científicas como frequentes alvos da sanha terraplanista; por fim, o alinhamento subalterno à política externa de Donald Trump, o que faz do Brasil um país inexpressivo na cena internacional, sem preocupação com a sua própria soberania e sequer com as relações econômicas internacionais que interessam à indústria e à produção agrícola nacional.

Além de lutar e resistir, cabe-nos também esperançar, como dizia Paulo Feire, ou seja, praticar uma espera ativa, na expectativa de que os ventos do norte, que derrotaram a patética referência bolsonarista, soprem também no Brasil, em breve tempo.


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