Ciro é lançado pelo PDT e parte para o ataque


Ciro discursa durante a convenção nacional do PDT, no lançamento de sua pré-candidatura (Foto: PDT)

O PDT oficializou nesta sexta-feira (21), durante a convenção nacional do partido, o lançamento da pré-candidatura do ex-ministro Ciro Gomes à Presidência da República. Com um discurso, que durou 55 minutos, o pedetista partiu para o ataque contra seus principais adversários na disputa eleitoral: Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Sergio Moro (Podemos). Ele chamou de "essa ficção fraudulenta" e prometeu acabar com o teto de gastos públicos, medida implementada no governo golpista de Michel Temer e mantida por Bolsonaro. Outras promessas se referem a revisar a reforma trabalhista, taxar grandes fortunas e tributar lucros e dividendos.

"Prometo, portanto, acabar com essa ficção fraudulenta chamada teto de gastos e colocar em seu lugar um modelo que vai tocar o Brasil adiante sem inflação e com equilíbrio fiscal verdadeiro", disse.

“Eu taxarei, sim, as grandes fortunas. Eu cobrarei, sim, imposto sobre lucros e dividendos. Eu modificarei, sim, a estrutura tributária para acabar com a pouca vergonha e a injustiça dos pobres e da classe média brasileira pagarem mais impostos que os ricos”, declarou.

Ciro afirmou que a incompetência de Bolsonaro agravou uma situação que piorava ano após ano.

"Tantos erros, enganação e manipulação grosseira só poderiam resultar nessa tragédia que é o governo Bolsonaro”, disparou.

Com foco na área econômica, o pedetista vinculou o ex-presidente Lula ao presidente Bolsonaro, com uma indagação: "Seria exagero dizer que os presidentes, apesar de diferentes em muitas coisas, foram iguaizinhos em economia, e que o modelo econômico que copiaram uns dos outros nos trouxe a este beco sem saída?", perguntou Ciro.

Após dizer que, ao lado de um grupo de juristas, está elaborando um plano de combate à corrupção, Ciro afirmou que “nele, não haverá espaço para estrelismos e efeitos especiais, nem para espetáculos de conquista de plateias e de eleitores". E, neste momento do discurso, direcionou suas críticas para o ex-juiz da Lava Jato, dizendo que "os que agem desta forma produzem efeitos negativos para a sociedade e também para si mesmo. Proclamam combater a corrupção quando, na verdade, terminam por fortalecer esta hidra de tantas cabeças e de tantos disfarces.”

E ainda continuou: “É o caso do notório Sergio Moro, de glória efêmera como juiz e agora candidato a se derreter em contradições, mentiras e despreparo. Como juiz, semeou nulidades e desrespeito ao processo legal.”


Confira o discurso na íntegra:


Minhas irmãs e meus irmãos,


Eu sou daqueles que gostam de ver o sol nascer.


E de assistir, a subida aos céus, do aro flamejante da esperança.


Eu sou também dos que gostam de ver o sol do meio-dia acender sobre o mundo a chama da rebeldia.


Eu sou daqueles que não usam a noite para dormir, mas para

sonhar e construir a aurora radiante do novo dia.


É por isso que trago hoje para vocês a voz da Rebeldia da Esperança.


Rebeldia e esperança são as duas únicas energias capazes de retirar o Brasil das trevas e da estagnação onde nos encontramos.

Elas têm que estar juntas e aliadas.

Uma separada da outra não consegue, não alcança!

A rebeldia sem esperança é a rebeldia sem causa.

E a esperança sem rebeldia é um sonho que nasce moribundo.


Mas quando se juntam rebeldia, esperança e um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento está firmado um elo inquebrantável.

Uma corrente capaz de eletrizar o Brasil e levá-lo adiante.

Mas esta não é uma tarefa isolada de um presidente.

É de toda uma nação de pé, mobilizada para transformar profundamente o Brasil.

De pé, a cantar um hino de amor à rebeldia e um cântico de fé à esperança.


Meus irmãos e minhas irmãs,


Mesmo que alguns não saibam – e outros tentem esconder – o Brasil foi sempre rebelde e esperançoso.

Mesmo hoje, quando um aparente marasmo parece cobrir tudo, esta mistura de rebeldia e esperança está latente em atitudes e ações de heroísmo individual.


É ela que anima a mãe solteira que se agarra à vida como uma leoa a defender seus filhos.


É ela que dá energia ao trabalhador que acorda na madrugada ainda escura, e parte para o trabalho espremido no metrô ou no ônibus velho e desconfortável.


É ela que move os milhões de empreendedores individuais que enfrentam todos os obstáculos para manter seus negócios e, quando fracassam, recomeçam outra vez.


É ela que dá força ao pequeno produtor rural que se recusa a irrigar sua lavoura com lágrimas e prefere irrigá-la com o suor do seu trabalho honesto.


É ela que alimenta o estudante pobre, ávido de conhecimento, a desafiar, sem medo, a falta de dinheiro e de tempo para estudar.


É ela que energiza o crente em Deus, que lança suas preces ao céu, mas que sabe que a primeira redenção se dá na terra, com o trabalho honesto e produtivo.


Esta poderosa energia vem dos primórdios da nossa história.

Lutamos contra diversos opressores em busca da nossa liberdade.

Lutamos contra a escravidão, em dezenas de rebeliões de negros brilhantes e destemidos.

A esperança nos batizou mesmo antes que nascêssemos!


Ela foi o signo da profecia de que nesta terra nasceria uma nova civilização.

De que aqui seria o laboratório do Espírito Santo.

De que aqui se misturariam todas as raças e todas as culturas dando uma nova feição de humanidade ao mundo.

A parte principal destas profecias ainda está por se cumprir.

Só depende de nós fazer com que tudo isso se materialize mais rápido.

Quero ser o presidente deste lindo povo para juntos, ajudarmos a acelerar o cumprimento destas e outras profecias.

Quero ajudar libertar o Brasil das garras do ódio e da mediocridade paralisante.

Ajudar o Brasil a retomar seu destino e colocá-lo no centro das decisões mundiais.


Quero ser o presidente da Rebeldia da Esperança!


Minhas irmãs e meus irmãos,


São imensos os desafios que o mundo tem pela frente: buscar novas formas de defesa ambiental, novos modelos econômicos, novas formas institucionais para a política, novas formas de relação de trabalho, novas tecnologias, novo modelo de relação entre as nações, além da emergente e imponderável questão sanitária trazida pela pandemia, que parece longe de acabar.

Por força dela, inclusive, estamos fazendo esta nossa convenção de forma virtual.


No Brasil, como nossos políticos não têm rebeldia, nem trazem esperança, estes desafios são particularmente gigantescos.

Muitos dos pretensos líderes vivem imersos em uma bolha de picaretagem, oportunismo e ignorância, o que faz com que não pensem e não formulem novas ideias.


Na verdade, o centro do mundo deles é a subserviência aos seus patrões, que sempre lucram nas costas do povo.

Por isso, mantém há décadas a mesma política econômica que paralisa o país, aumenta a pobreza e amplia a desigualdade.

Eles fazem isso porque têm patrões poderosos, visíveis ou ocultos. Nacionais ou multinacionais.

Trabalham, na verdade, para estes sanguessugas e não para o povo batalhador.

Eu sou bem diferente deles.


Meu patrão é o povo e minha pátria a minha patroa!


Meus irmãos e minhas irmãs,


Nunca vou me cansar de dizer que por mais de 50 anos, de 1930 a 1980, fomos o país que mais cresceu no mundo.

E nunca vou me cansar de dizer que depois disso viemos em progressivo declínio, até que sobreveio a estagnação dos últimos dez anos.

Paramos no tempo e no espaço.

Enquanto boa parte do mundo avançava, nós começamos a andar para trás. Caranguejos atolados no mangue do atraso.

Gosto de lembrar, com amarga tristeza, que em 1980 nosso PIB per capita era 15 vezes maior que o chinês.

Hoje não alcança 79%.


Estamos perdendo nossa grandeza, exaurindo nossas riquezas, destruindo nosso meio ambiente e ampliando nossa pobreza.

E por que tudo isso aconteceu se, como antes, estamos debaixo do mesmo belo céu azul, abençoado pelo Cruzeiro?

Se pisamos a mesma terra fértil e somos o mesmo povo lindo e trabalhador?

A resposta é simples: unicamente por conta da política e dos políticos.


Desde o famigerado Consenso de Washington, em 1989, que poderosos estrangeiros e seus asseclas nacionais conseguiram domesticar a política e encapsular a economia, dos países mais pobres, na camisa de força do neoliberalismo.


E o resultado disso?

Fracasso sobre fracasso, tragédia sobre tragédia.

Desemprego, fome, desmantelamento de indústrias e estados nacionais, explosão de refugiados a vagar perdidos pelo mundo.

Aqui no Brasil, estagnação completa ou crescimentos curtos e enganadores.

Voos de galinha para a renda e consumo do povo e permanentes voos de abutre para os rapinadores.

Lucros imensos para os especuladores financeiros e migalhas para os pobres, em ridículas políticas compensatórias, que, ao invés de os envergonhar, servem curiosamente de orgulho e bazófia para alguns que se dizem de esquerda.


Nos empurraram para o quintal do mundo, e nós aceitamos!

Um quintal, sem tecnologia, sem mão de obra qualificada, sem mercado internacional de manufaturados, com uma indústria nacional enfraquecida. E nós aceitamos!

Nos mergulharam num primitivismo produtivo e educacional. E nós aceitamos!

Sem inclusão produtiva e qualificadora, sem participação nas decisões internacionais. E nós aceitamos!

Sem condições de explorar suas próprias riquezas, sem gerar poupança interna e dependendo sempre do capital especulativo internacional a quem oferecíamos lucros com os maiores juros do mundo.

E nós aceitamos!


Que triste espelho em que nos miramos, que régua estreita com que nos medimos!

Tantos erros, enganação e manipulação grosseira só poderiam resultar nessa tragédia que é o governo Bolsonaro.


Minhas irmãs e meus irmãos,


Hoje estamos entre os países mais desiguais e que menos crescem no mundo.

Com um dos maiores índices de desemprego e com um dos menores níveis de qualidade de ensino do planeta.

Estamos entre os que menos investem em tecnologia, pesquisa e formação de mão de obra.

Estamos entre os menos preparados para ingressar na economia do conhecimento.

Estamos virando analfabetos digitais, tateando no mundo das novas tecnologias e da inteligência artificial.

Paradoxalmente, isso ocorre em um dos países com mais vitalidade cultural e humana, e de mais potencial de crescimento.

A incompetência de Bolsonaro apenas agravou uma situação que piorava ano após ano.

E a pandemia – em si mesma e em sua má gestão – apenas sacudiu instrumentos, políticas e instituições já carcomidas por décadas. E foi potencializada criminosamente pela política genocida que já nos ceifou mais de 620 mil vidas.


Pergunto: é este o legado de longo prazo deixado por partidos de esquerda e centro esquerda que ocuparam o poder por mais de vinte anos?

Seria mesmo nosso destino cair, na sequência, nas mãos de uma direita obscurantista e criminosa, como a de Bolsonaro, que piorou tudo, mas que não pode ser condenada isoladamente?


Seria exagero dizer que os presidentes, apesar de diferentes em muitas coisas, foram iguaizinhos em economia, e que o modelo econômico que copiaram uns dos outros nos trouxe a este beco sem saída?


Seria absurdo mostrar, que, com diferenças apenas de escala e formatos, eles copiaram e repetiram os mesmos projetos e programas na área social, mudando apenas seus nomes?


Seria mentira afirmar que eles, sem exceção, impuseram um tipo de governança que tem o conchavo e a corrupção como eixos?

Não, não é exagero, é pura realidade.


Este desmonte – e repetição do mesmo modelo – já vem de muito tempo.

Collor escancarou a porteira, Fernando Henrique preparou a mesa do banquete e Lula condimentou melhor os pratos.

Depois de servir cerimoniosamente os tubarões, Lula distribuiu, com compaixão de filantropo, as sobras para os mais pobres.


Anos atrás, tínhamos uma política econômica tão selvagem e elitista, que fazia os ricos lucrarem sem parar com a inflação.

Por isso, levaram tantos anos se beneficiando dela e através dela.


A inflação era tributo cobrado dos pobres e dado aos ricos.

Chegaram ao requinte de criar uma moeda para os afortunados: a correção monetária.