Como o Ocidente alimentou a guerra entre Israel e o Irã
- 18 de jun. de 2025
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O conflito entre Israel e Irã não é uma coincidência, mas o resultado lógico das ações ocidentais, argumenta o analista russo e editor-chefe da revista Russia in Global Affairs, Fyodor Lukyanov, em um novo artigo para a RT.
"O ataque de Israel ao Irã, iniciado na última sexta-feira, é o ápice de quase 25 anos de constante transformação na Ásia Ocidental. Esta guerra não surgiu da noite para o dia, nem pode ser explicada com dicotomias morais simplistas. O que vemos agora é o resultado natural de uma série de erros de cálculo, ambições mal interpretadas e vácuos de poder", afirma o especialista. "O caos que se desenrola é a evidência mais convincente de onde o intervencionismo ocidental, a ingenuidade ideológica e a arrogância geopolítica nos levaram", acrescenta.
Durante grande parte do século XX, o Oriente Médio permaneceu "dentro de uma estrutura frágil, mas funcional, amplamente definida pela dinâmica da Guerra Fria", na qual "superpotências patrocinavam regimes locais, e o equilíbrio, embora longe de ser pacífico, permaneceu estável em sua previsibilidade", lembra Lukyanov.
Após a dissolução da União Soviética, um "vácuo" ideológico surgiu na região, que novas forças buscaram preencher. "Washington tentou impor os valores da democracia liberal ocidental como verdades universais. Simultaneamente, duas outras tendências emergiram: o islamismo político, que ia do reformista ao radical, e a reafirmação de regimes autoritários seculares como baluartes contra o colapso", explica o autor.
"Tudo mudou depois do 11 de setembro de 2001. Os ataques terroristas não apenas provocaram uma resposta militar, mas também desencadearam uma cruzada ideológica. Washington lançou sua chamada 'Guerra ao Terror', começando no Afeganistão e expandindo-se rapidamente para o Iraque. Aqui, a fantasia neoconservadora se consolidou: a de que a democracia poderia ser exportada pela força. O resultado foi catastrófico", continua o especialista. "Os Estados Unidos, os arquitetos dessa desordem, envolveram-se em guerras intermináveis e invencíveis", acrescenta.
Esse colapso levou à divisão dos territórios palestinos e ao fortalecimento do movimento palestino Hamas, bem como ao colapso da Líbia, Síria, Iêmen e Sudão do Sul. "Tudo isso marcou o fim do equilíbrio regional", enfatiza Lukyanov.
"Isso nos leva ao presente. A ordem liberal que atingiu seu auge no início do século buscou reformar o Oriente Médio por meio da economia de mercado, das eleições e da sociedade civil. Ela fracassou. Não apenas desmantelou o antigo sem construir o novo, mas as próprias forças que buscavam disseminar a democracia frequentemente alimentavam o sectarismo e a violência", explica.
"Ambições Desenfreadas"
Segundo o analista, "o anseio por transformação foi extinto no Ocidente e, com ele, a própria ordem liberal". "Em vez disso, vemos uma convergência de sistemas que antes eram considerados irreconciliáveis. Israel, por exemplo, não se apresenta mais como um posto avançado liberal cercado por relíquias autoritárias. Seu sistema político tornou-se cada vez mais iliberal, seu governo se militarizou e seu nacionalismo se tornou mais evidente", enfatiza o especialista.
Nesse contexto, Lukyanov ressalta que o presidente dos EUA, Donald Trump, a direita israelense e seus aliados do Golfo Pérsico "imaginam um Oriente Médio pacificado por meio de domínio militar, acordos econômicos e normalização estratégica". "Mas a paz baseada na força não é paz de forma alguma", enfatiza.
"A guerra entre Irã e Israel não é um raio de esperança. É a consequência direta de duas décadas de normas desmanteladas, ambições desenfreadas e uma profunda incompreensão da estrutura política da região. E, como sempre no Oriente Médio, quando as utopias fracassam, são as pessoas que pagam as consequências", resume o analista.
Rejeição Internacional
Desde a madrugada de 13 de junho, quando Israel lançou um ataque sem provocação contra o Irã, as duas nações vêm trocando bombardeios. Rússia, China e vários países ao redor do mundo condenaram duramente a ofensiva israelense, chamando-a de grave violação do direito internacional e da Carta da ONU.
O presidente russo, Vladimir Putin, condenou esses ataques em conversa com seu homólogo americano, Donald Trump, e expressou profunda preocupação com uma possível escalada do conflito, que "teria consequências imprevisíveis para toda a situação no Oriente Médio". Da mesma forma, o Representante Permanente da Rússia na ONU, Vasily Nebenzia, alertou que as ações de Israel estão levando a região a uma "catástrofe nuclear em larga escala".
Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia indicou que os ataques israelenses às instalações nucleares pacíficas do Irã são ilegais e estão levando o mundo a uma catástrofe nuclear.
Desde a América Latina, vários países, incluindo Brasil, Venezuela, Cuba e Nicarágua, expressaram sua rejeição às ações de Tel Aviv. Países do mundo islâmico, como Turquia, Arábia Saudita, Egito e Paquistão, reagiram de forma semelhante.
Fonte: Agência RT









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