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Como Índia e Brasil buscam estreitar laços para driblar tarifaço de Trump

  • 24 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

O líder indiano, Narendra Modi, foi recebido por Lula em Brasília, em julho deste ano (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
O líder indiano, Narendra Modi, foi recebido por Lula em Brasília, em julho deste ano (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Rodrigo Durão Coelho

(Do Brasil de Fato)

Brasil e Índia, os dois países mais tarifados pelo presidente Donald Trump pretendem estreitar laços comerciais. Analistas acreditam que a parceria é uma das que reservam maior potencial para mitigar os efeitos das sanções que elevam em 50% as exportações dos países para os Estados Unidos.


“Acredito que reforçar os laços com a Índia é central nesse momento de tarifaço e protecionismo, ampliando parcerias que têm potencial de ganho econômico para o empresariado brasileiro”, disse, ao Brasil de Fato, Fernanda Nanci, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj).


“A Índia apresenta mercados interessantes para o empresariado brasileiro, sobretudo em alimentos e energia”, aponta. Ela lembra que, por ser um país populoso, com mais de um bilhão de habitantes, existe a preocupação com a segurança alimentar. “O Brasil tem um setor dinâmico de agronegócio que está sendo impactado pelos americanos. No ramo da energia, a Índia está em crescimento econômico, necessitando suprir sua demanda.”


Os indianos também podem se beneficiar de um acesso mais amplo ao mercado brasileiro, em especial em fármacos e tecnologia. “A relação comercial entre os países tem potencial de ser ampliada, no cenário em que ambos estão buscando diversificar parceiros e lidar com o tarifaço, mas para ambos os lados não substituem o peso do mercado dos Estados Unidos.”


Tarifas

Em abril, o presidente dos EUA anunciou tarifas sobre importações da maioria dos países do mundo, com o Brasil recebendo o patamar mais baixo, 10%, e a Índia, 25%. Mas, no fim de julho, o percentual subiu para 50%, em uma tentativa de chantagear o Judiciário brasileiro para eximir de responsabilização criminal o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).


Já a Índia sofreu, em 6 de agosto, tarifas extras de 25%, elevando o total para 50%, sob a justificativa de comprar petróleo russo – país sancionado devido à guerra contra a Ucrânia e que exporta petróleo, direta ou indiretamente, para inúmeras nações, inclusive o Brasil. Cerca de 70% do diesel importado pelo Brasil é russo, o que coloca o Brasil como potencial alvo de ainda mais sanções dos Estados Unidos.


Para mitigar os efeitos do tarifaço, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) procurou parceiros do BRICS, grupo de países de mercado emergente fundado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O presidente chinês, Xi Jinping, declarou estar disposto a trabalhar com o Brasil na defesa da soberania e de interesses legítimos do país. O líder indiano, Narendra Modi, recebeu um telefonema do brasileiro um dia após o anúncio das tarifas extras estadunidenses, no qual os líderes se comprometeram a trabalhar mais juntos e aumentar o fluxo comercial entre os dois países.


O comércio bilateral com a Índia foi de US$ 12 bilhões (R$ 65 bi) em 2024, com vantagem para a Índia. O governo brasileiro espera aumentar sensivelmente esse fluxo nos próximos cinco anos – mais de 70 missões comerciais brasileiras foram à Índia desde 2023 –, superando a marca de US$ 20 bilhões (R$ 108 bi) já em 2030.


Entre os setores mais estratégicos para parcerias, estão o farmacêutico, o agrícola – em particular a troca de tecnologia genética – e, principalmente, o de comércio energético. O Brasil vende óleo bruto à Índia e compra dela óleo refinado. Com a maior população do mundo (quase 1,5 bilhão) e jovem, o que aumenta a força de trabalho, o país tem hoje a quarta maior economia, com perspectivas de chegar ao terceiro posto em 2032. É um país com sede crescente de combustíveis fósseis para sustentar esse crescimento.


“A Índia tende a aumentar sua renda per capita, consumir mais produtos brasileiros, como o café, por exemplo”, diz à reportagem Giorgio Romano Schutte, coordenador do curso de pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).


Ele explica que o processo de aproximação entre os países já existia antes de Trump, seja no âmbito de fóruns, como o Brics e o Mercosul, mas, com os ataques tarifários do estadunidense, “ganham força, encontram mais outro motivo para estimular suas complementaridades econômicas, incentivar os empresários de seus países”.


Fernanda Nanci diz que o alinhamento com o Sul Global é positivo tendo em vista que os países enfrentam “os mesmos desafios e podem advogar por causas semelhantes, acionando a OMC [Organização Mundial do Comércio], pressionando os EUA, abrindo novas frentes em diferentes foros internacionais”.


Schutte acredita que “a tendência é que o Brasil explore cada vez mais os mercados asiáticos, como a Índia”. Nesse sentido, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, vai à Nova Déli, capital indiana, em outubro. Já Lula deve retribuir, no começo de 2026, a visita de Estado realizada por Modi em julho.

 
 
 

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