Conflitos entre vizinhos aumentam na pandemia

Por Ana Clara Paiva


Em março do ano passado, quando a pandemia começou, ninguém fazia ideia do que estava por vir. Além dos efeitos colaterais da crise sanitária, como o desemprego, a insegurança e o medo, o distanciamento social por um período tão prolongado revelou outro fator de desestabilização das famílias: a convivência. A covid-19 acirrou as brigas domésticas, a violência entre cônjuges e até mesmo os atritos entre vizinhos.

Imagem: Pixabay

De acordo com a Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios (AABIC) houve um aumento de 300% nas brigas em condomínios residenciais no país, gerando muita reclamção e dificuldade para resolver as questões. Por isso, alguns administradores decidiram buscar cursos de mediação de conflitos, alguns deles encontrados gratuitamente na internet.


Em Niterói, os administradores de condomínio estão sendo desafiados por essa nova realidade. Cláudia Silva, secretária da administração do condomínio Almirante Sylvio de Noronha, em Santa Rosa, diz que o trabalho não apenas aumentou durante a pandemia, mas passou a se estender também a outras funções antes inimagináveis, como prestar apoio emocional aos moradores, por exemplo.


“A administração precisou fazer um trabalho psicológico com os condôminos, pois alguns não estavam acostumados a ficar presos em casa por tanto tempo e, às vezes, entravam em contato apenas para desabafar”, diz ela.

Cláudia Silva, síndica do condomínio Almirante Sylvio de Noronha / Arquivo Pessoal

“A parte mais difícil é contar com o bom senso e a paciência de todos. São crianças trancadas em casa porque as áreas comuns estão fechadas. São professores tentando dar aula com obra rolando. Algumas pessoas adotaram novos hábitos que incomodam outros vizinhos, como deixar os sapatos no corredor ou as sacolas de lixo nas portas”, relata Cláudia.


A administradora de um conjunto de 424 apartamentos em Niterói, que prefere não ter o nome citado, afirma que outra dificuldade é fazer os moradores colaborarem com as normas sanitárias.


“O número de entregas de encomendas e comida aumentou muito e precisamos intensificar o controle de entrada e saída no condomínio. Às vezes, o entregador vem sem máscara e o morador se nega a descer por estar com roupas de dormir. Sem contar os próprios moradores que se recusam a andar de máscara” desabafa.


Quem confirma os mesmos relatos é o representante do Sindicato dos Empregados de Edifícios de Niterói (SEEN), José Juvino. Ele afirma que já houve situações em que o sindicato precisou intervir.


“Tivemos que prestar assistência jurídica através do setor de recursos humanos, pois houve casos de trabalhadores sendo humilhados por moradores em condomínios”, conta Juvino.


Ele também apontou crescimento no volume de correspondência — mercadorias enviadas pelo correio, na maioria — e a intensificação de protocolos de segurança que alteraram a rotina da administração e dos moradores nos 2,3 mil condomínios associados.

José Juvino, representante do Sindicato dos Empregados de Edifícios de Niterói / Divulgação

“Quase tudo hoje é comprado pela internet. Então, precisa ser protocolado quando é recebido na portaria, para depois ser distribuído nas unidades. Muitos condomínios ainda não têm um local adequado para armazenar os diversos itens que chegam com frequência, de compras de supermercado a objetos de maior valor, como computadores", explica.


Outro aumento preocupante é o da violência contra a mulher no ambiente doméstico. De acordo com dados da Coordenadoria de Direitos da Mulher do município de Niterói (CODIM), a procura por ajuda nesses casos aumentou cerca de 20% entre janeiro e dezembro de 2020. Neste intervalo, quando o sistema remoto foi adotado, foram realizados 1.131 atendimentos pela equipe técnica do Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM), também da prefeitura. O aumento chama atenção na comparação entre os dados do ano passado e os números no mesmo período de 2019, quando foram realizados 219 atendimentos.

Espaço Mediar


A Secretaria Municipal de Direitos Humanos informou em nota que os registros da Polícia Civil, da Defensoria Pública e do Centro de Cidadania indicam aumento expressivo de agressões, violência doméstica, ameaças e brigas de vizinhança na cidade, mas não forneceu os números. Para tentar conciliar as partes e evitar que pequenas desavenças se transformem em agressões, a prefeitura criou o Espaço Mediar.

Imagem: Pixabay

A iniciativa da SDH Niterói já estava prevista pra integrar o programa municipal de Mediação de Conflitos (criado pelo Decreto 13380, de 2019), mas teve sua inauguração antecipada para março deste ano devido ao aumento da demanda durante a pandemia.


Mediadores capacitados pelo Tribunal de Justiça proporcionam uma alternativa de diálogo em um ambiente neutro e adequado para a identificação das verdadeiras necessidades daqueles que buscam apoio.


O espaço atende casos de brigas de vizinhos, disputas familiares e conflitos comunitários com o intuito de diminuir a judicialização. Quando se trata de violência doméstica, a equipe atua como instrumento de prevenção ou reconstrução de laços. Porém, caso haja um crime, é necessário o acompanhamento pelos canais institucionais, como a Delegacia da Mulher.


O atendimento no Espaço Mediar pode ser agendado pelo telefone (21) 96992-9577.




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