CPI aprova convocação de ex-mulher de Jair Bolsonaro


(Reprodução)

Os senadores presentes à reunião da CPI da Pandemia desta quarta-feira (15) mostraram indignação com o depoimento de Marconny Albernaz de Faria, acusado de fazer lobby na negociação de contratos da Precisa Medicamentos com o Ministério da Saúde para venda de vacinas. Em diversas respostas, Marconny foi evasivo, alegou esquecimento ou invocou o direito ao silêncio obtido em habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF). Isso levou o relator Renan Calheiros (MDB-AL) a qualificar o depoimento como o mais "cínico" desde o início da investigação e a mudar a condição de Marconny de testemunha para investigado da comissão.

"As descobertas vão sendo feitas e podem ser resumidas na seguinte imagem: você puxa uma pena e vem um, dois galinheiros", disse o relator. 

Outro desdobramento foi a aprovação da convocação de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro e mãe de um de seus filhos, Jair Renan, em razão de seus vínculos com as atividades de Marconny.

Citada no depoimento de Marconny, Ana Cristina teria intercedido pela nomeação de aliados do lobista da Precisa Medicamentos, de acordo com os senadores.

Além disso, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor do requerimento de convocação, aponta para a ligação da ex-mulher de Bolsonaro com o esquema das "rachadinhas" na Alerj.

Alvo de quebra de sigilo bancário e fiscal pedida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) no caso das rachadinhas do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) - o irmão, Flávio, também é investigado pela mesma prática em outro inquérito -, Ana Cristina voltou aos holofotes há três semanas quando foi revelado que ela e Renan Bolsonaro se mudaram para uma mansão no Lago Sul, região nobre de Brasília.

Segundo o ex-empregado por 14 anos do clã Bolsonaro, Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, Ana Cristina formou patrimônio usando uma série de laranjas. Em entrevista ao UOL, ele disse que a segunda mulher de Bolsonaro usou o dinheiro da venda de um apartamento no Rio de Janeiro para dar entrada na compra da mansão, que teria custado mais de R$ 3 milhões. Ana Cristina e Renan negam, e divulgaram informação de que a casa teria sido alugada por R$ 8 mil. Ana Cristina recebe salário de R$ 8,1 mil como assessora parlamentar da deputada federal Celina Leão (PP-DF).

Respostas vagas

Duas semanas atrás, Marconny havia apresentado um atestado médico para não comparecer à CPI, levando a comissão a ameaçar trazê-lo "sob vara" (coerção judicial).

O depoente foi vago em relação à sua atividade profissional, limitando-se a dizer que tem uma "empresa de assessoramento técnico-político" que faz "análise de estudos de viabilidade política" para empresas privadas. Ao relator Renan Calheiros, ele admitiu que teve parlamentares como clientes, mas alegou o sigilo dos contratos para não revelar nomes.

Marconny negou ser lobista, dizendo que seria péssimo na função, o que levou o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), a gracejar, comparando-o ao personagem Coiote, de desenho animado, que persegue em vão o Papa-Léguas.

Irritado com as evasivas do depoente, Omar Aziz lembrou um vídeo da internet em que Marconny aparece discursando em tom veemente em manifestações pró-governo:

"Para subir em caminhão para falar mal de político, aí é macho. Mas quando o calo aperta, aí o cabra não é mais macho. Vai ao Supremo, tem diarreia, pede atestado médico. Chega aqui, a conversa é diferente", protestou.

De acordo com Omar Aziz (PSD-AM), Marconny pertenceria a um grupo formado pelo deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), pelo ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, pelo ex-secretário da Anvisa José Ricardo Santana e outros, suspeitos de operar em licitações.

'Arquitetura ideal'

Em mensagens de julho de 2020, obtidas pela CPI, Marconny conversa com Santana sugerindo "a arquitetura ideal", aparentemente para direcionar um processo de licitação de compra de testes rápidos contra covid-19, eliminando concorrentes para atingir um resultado desejado. A licitação foi abortada pela Operação Falso Negativo, do Ministério Público do Distrito Federal.

O depoente disse não ter "nenhuma relação" com Roberto Ferreira Dias, embora o chamasse de "Bob" e o tenha recebido em sua casa para tratar da licitação, como demonstram as mensagens.

Em determinado momento, Marconny afirmou não conhecer nenhum senador da República, embora nas mensagens de seu celular ele faça referência a conversas com um "senador". Para esclarecer a questão, Leila Barros (Cidadania-DF) pediu que a Polícia Legislativa levantasse o registro de todas as entradas de Marconny nas dependências do Senado.

Ligações com o clã

Usando as mensagens de posse da CPI, os senadores procuraram estabelecer as relações do depoente com pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro. Em resposta a Alessandro Vieira (Cidadania-SE), Marconny admitiu ter comemorado seu aniversário no camarote de Jair Renan Bolsonaro, filho do presidente, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Quando ressalvou que a festa não era ilegal, Alessandro rebateu:

"A ilegalidade não está na festa, está no que se consegue nas festas. Elucida-se por que vale a pena contratar o Marconny. O Marconny é o cara que vai para o churrasco com a advogada do presidente [Karina Kufa] e que faz a sua festa de aniversário no camarote do filho do presidente."

Um exemplo da atuação de Marconny levantado pelos senadores foi a tentativa de indicar nomes para cargos públicos, em especial a indicação de Márcio Roberto Teixeira Nunes para a diretoria do Instituto Evandro Chagas, de pesquisa biomédica, em Belém. As mensagens apreendidas mostram as gestões do depoente para levar o nome de Nunes a Jair Bolsonaro, por intermédio de Karina Kufa. Nunes foi preso em outubro numa operação da Polícia Federal, que investiga corrupção no instituto.

"O indicado pelo senhor, nos diálogos com Karina Kufa, tem, entre outras coisas: "Já encaminhei o currículo pro presidente", e o currículo que foi encaminhado ao presidente resultou na nomeação depois no Instituto Evandro Chagas", relatou o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Em diferentes momentos, senadores, como Jean Paul Prates (PT-RN) e Otto Alencar (PSD-BA), afirmaram que o depoente mereceria voz de prisão por seu comportamento:

"Não abuse da paciência dos senadores, não zombe da legitimidade dos que o povo elegeu", reforçou Jean Paul.

"Já passou da hora de ganhar uma pulseira", afirmou Otto.

Randolfe Rodrigues respondeu ter cogitado a prisão, mas que seria preciso fazer uma consulta ao Supremo Tribunal Federal.

"Não me falta a vontade de pedir sua detenção por falso testemunho. Isso só não ocorreu porque não temos clareza da limitação do habeas corpus", disse o vice-presidente da comissão.

Relatório

O relator Renan Calheiros não descartou a possibilidade de estender as apurações da CPI caso apareçam fatos novos. Ele afirmou nesta quarta-feira que a proposta de relatório, cuja entrega está prevista para a semana que vem, deve incorporar as contribuições de um grupo externo de personalidades, coordenado pelo jurista Miguel Reale Jr.


Com Agência Senado

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