CPI: Araújo implica Bolsonaro na busca por cloroquina


Ex-chefe do Itamaraty, Ernesto Araújo, presta depoimento à CPI da Covid (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Em depoimento à CPI da Covid, o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo afirmou nesta terça-feira (18) que o Itamaraty buscou, sim, ajuda no exterior para a compra de insumos da cloroquina a pedido do Ministério da Saúde. Questionado pelo relator, Renan Calheiros (MDB-AL), se houve participação do presidente Jair Bolsonaro, o ex-chanceler afirmou que "sim". "O Presidente da República, em determinado momento, pediu que o Itamaraty viabilizasse um telefonema dele com o primeiro-ministro [da Índia]", disse Araújo.

Já noutro trecho de seu depoimento, o ex-ministro complica a situação de Bolsonaro ao afirmar que se reunia com ele toda semana, mas nunca recebeu uma ordem para ajudar na aquisição de vacinas com outros países.

A linhas principais da CPI é investigar ações, omissões e negligências do governo Bolsonaro na aquisição de vacinas e na compra e incentivo ao uso da cloroquina, que é cientificamente comprovado como ineficaz para tratamento de pacientes com Covid-19, mas foi insistentemente adotado no Brasil. Desde meados do ano passado, agências de saúde dos Estados Unidos, da União Europeia e de outros países, além da Organização Mundial da Saúde (OMS), condenaram o uso da cloroquina contra a doença causada pelo coronavírus. A própria agência nacional, a Anvisa, também condenou, assim como a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina, este inclusive recomendou seu "banimento".

“Em função de um pedido do Ministério da Saúde foi que nós procuramos ajudar a viabilizar uma importação de insumos para farmacêuticas brasileiras (incluindo a do Exército) produzirem hidroxicloroquina", disse o ex-ministro, demitido no dia 29 de março deste ano após resistir por uma semana a intensas pressões políticas tanto do Congresso Nacional quanto dentro do próprio Itamaraty.

Ernesto Araújo ainda tentou justificar que em março de 2020 "houve uma grande corrida aos insumos da hidroxicloroquina", embora o Brasil tenha continuado a aumentar a produção ao longo do ano.

“Naquele momento, em março, havia uma expectativa de que houvesse eficácia no uso da cloroquina para o tratamento da Covid, não só no Brasil. Havia notícias sobre isso de vários lugares do mundo. Houve uma grande corrida aos insumos da hidroxicloroquina e baixou precipitadamente o estoque de cloroquina. Fomos informados por isso pelo Ministério da Saúde no Brasil”, disse.

CoronaVac e conflito com a China

Araújo negou que tenha causado conflitos diplomáticos com a China que tenham prejudicado a importação de insumos da vacina CoronaVac e ouviu do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da Comissão, que estava mentindo sistematicamente.

Ele admitiu que o Ministério das Relações Exteriores não se envolveu nas negociações para a compra da vacina Coronavac ou de outro imunizante durante a gestão dele e que, ao contrário do que esperava, não recebeu nenhuma ordem do presidente Jair Bolsonaro neste sentido.

"As Vacinas CoronaVac estão sendo importadas pelo Instituto Butantan, e as tratativas, segundo entendo, são diretamente entre o Instituto Butantan e os fornecedores chineses, pelo menos durante a minha gestão foi assim", afirmou.

Em abril do ano passado, Araújo usou os termos "comunavírus", "vírus ideológico" e apontou ameaça de "pesadelo comunista" em texto publicado em seu blog pessoal ao se referir à China. No depoimento à CPI, o ex-chanceler disse que o texto era uma interpretação sua do artigo de outro autor, o renomado filósofo Slavoj Zizek, que já o desmentiu, dizendo que "ele (Araújo) não entendeu a questão".

O ex-chefe do Itamaraty afirmou que suas expressões não foram 'ofensivas'. "Não vejo nada de ofensivo à China".

"Como é que não é ofensivo?", questionou Omar Aziz. "Nossa relação com a China é muito antiga para que a gente jogue tudo por água abaixo", disse o senador.

"O senhor foi a bússola que nos levou para o naufrágio"

A senadora Kátia Abreu (PP-TO) enquadrou Araújo e disse que o ex-ministro das Relações Exteriores foi "uma bússola que nos direcionou para o caos, para o iceberg, para o naufrágio da política internacional".

"O senhor não colocou o Brasil como pária, e sim na posição de irrelevância", disse. "O senhor ajudou a atacar (a China), humilhando... O senhor é um negacionista compulsivo, omisso", afirmou.

"O senhor criticou nossa proximidade com a China, com os Brics... o senhor é muito ousado. Isso colaborou para a compra de vacinas", ironizou.

Sobre os termos ofensivos usados por Araújo contra a China, a senadora também foi contundente.

"Como isso não é ataque?", questionou Kátia Abreu. "Você estava para defender os brasileiros e não a sua posição ideológica. O senhor atacava fortemente a China. Vocês não eram parceiros do governo americano, e sim do Trump. O senhor não entendeu que não somos amigos de presidente, e sim das nações", repreendeu a senadora.

Este é o sétimo dia de depoimentos na CPI. Ernesto foi chamado à CPI na condição de testemunha, na qual o depoente se compromete a dizer a verdade, sob o risco de incorrer no crime de falso testemunho.

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