CPI: Queiroga cai em contradições e cita dados falsos


Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, depõe na CPI da Covid (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Com declarações contraditórias e outras facilmente desmentidas, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, prestou seu segundo depoimento nesta terça-feira (8) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado. No quesito cloroquina, que voltou ao foco da CPI, o ministro mudou o posicionamento e disse que o medicamento não tem eficácia científica comprovada, contrapondo-se pela primeira vez ao discurso do presidente Jair Bolsonaro. Apesar disso, Queiroga tentou o tempo todo blindar Bolsonaro.

Queiroga disse também à CPI que foi dele a decisão de não nomear a infectologista Luana Araújo para o cargo de secretária no ministério.

Na semana passada, em depoimento aos senadores, Luana disse que Queiroga havia lhe comunicado que seu nome não seria aprovado no governo, por isso ele não a efetivaria.

O próprio Queiroga havia anunciado Luana como a futura secretária da Secretaria de Enfrentamento à Covid. Ela trabalhou 10 dias, e depois recebeu a notícia de que não seria efetivada, ficando claro que ela foi "barrada" pelas ideias contrárias às defendidas por Bolsonaro, como o "tratamento precoce", que não tem eficácia contra a Covid.

Sobre a realização da Copa América no país, ele disse que não gera risco adicional de contaminação porque, segundo ele, não vai gerar aglomeração de pessoas. E citou que competições, como o Campeonato Brasileiro de futebol, não têm gerado risco de contaminação e que "houve apenas um caso positivo" para covid-19, o que é falso.

“Não consta que essa prática [futebol] aumente o risco de circulação do vírus e que possa colocar em risco a vida dos jogadores ou das comissões técnicas”, disse Queiroga. “Esse evento [Copa América] não é de grande proporções, é um evento pequeno, sem um grande número de pessoas. Se os protocolos de segurança apresentados pelo ministério forem cumpridos, não teremos riscos adicionais aos jogadores dessa competição. Essa é a posição do Ministério da Saúde neste momento”, afirmou, sem levar em conta a grande possibilidade que existe de aglomeração de torcedores em locais públicos.

Queiroga acrescentou que o “Campeonato Brasileiro de Futebol aconteceu com mais de cem partidas, dentro de um ambiente controlado, sem público nos estádios, e houve apenas um caso positivo".

No entanto, levantamento feito pela TV Globo mostra que houve 302 casos positivos em jogadores que participaram só da Série A do Campeonato Brasileiro de 2020. Somando os demais profissionais que atuam nos times, o número sobe para 320 infectados. Ainda de acordo com o levantamento, dentre os 20 participantes, mais da metade teve mais de um “time completo” infectado. Vasco e Fluminense foram os "campeões da covid" com 26 profissionais cada um, seguidos do Palmeiras, com 24, e o Flamengo, com 21 casos no elenco.

Além dos casos, houve uma morte durante a competição, do massagista Jorginho, do Flamengo.

'É constrangedor', diz presidente da CPI

“O ministro retorna a essa comissão após uma depoimento repleto de omissões e algumas tentativas de obviamente não responder ao que nos havíamos perguntado, o que tornou a sua volta à CPI inevitável”, afirmou o relator Renan Calheiros (MDB-AL).

Queiroga também foi perguntando sobre o comportamento do presidente Jair Bolsonaro, durante a pandemia. Renan Calheiros mostrou vídeos em que o presidente aparece em aglomerações com apoiadores, sem máscara.

O ministro disse que recomendou o uso de máscara e orientou o presidente, mas que sua função é aconselhar o presidente, não fazer juízo de valor a respeito do comportamento dele. “As imagens falam por si só", disse Queiroga após assistir imagens do vídeo. "Eu estou aqui como ministro da Saúde para ajudar o meu país e não vou fazer juízo de valor a respeito do presidente da República”, disse.

Presidente da CPI, o senador Omar Aziz (PSD_AM) disse que Queiroga estava assumindo um papel “constrangedor”.

“É constrangedor o senhor, como ministro, orientar a população toda a ter os cuidados necessários, e o chefe maior da nação, que deveria ouvir o seu ministro de Saúde, não ouve. Então, é isto que nós queremos saber: como é que pode se fazer uma política, dentro do Ministério da Saúde, se a principal personalidade do Brasil não o ouve? Como é que o senhor pode convencer os outros se não consegue convencer a pessoa que teria de ser convencida primeiramente porque o nomeou?”, questionou Aziz.

Queiroga voltou a dizer que procura fazer a sua parte e que não iria fazer juízo de valor sobre a conduta do presidente.

R$ 126,5 milhões 'sem eficácia'

Sobre o chamado kit covid de tratamento precoce com remédios sem eficácia comprovada para covid-19, como cloroquina, hidroxicloroquina, tamiflu e azitromicina, o ministro desta vez foi explícito ao afirmar que esses medicamentos "não têm eficácia comprovada", ao contrário do primeiro depoimento, quando preferiu omitir opinião visivelmente para não desagradar o presidente.

“Como médico, eu entendo que essas discussões são laterais e nada contribuem para pôr fim ao caráter pandêmico dessa doença. O que vai pôr fim... é ampliar a campanha de vacinação”, contornou.

Durante a pandemia, o governo gastou recursos públicos e mobilizou a estrutura do Estado para incentivar o uso desses medicamentos listados pelo Ministério da Saúde.

Foram gastos, segundo informação da Folha, R$ 126,5 milhões e distribuídos 31 milhões de comprimidos desses remédios para destiná-los a pessoas infectadas. O Tribunal de Contas da União concluiu ser ilegal o uso de verba do SUS para distribuição de remédios sem eficácia a pacientes com a doença.

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