Debate sobre aulas presenciais: porque não voltar

Em meio à polêmica sobre a conveniência do retorno das aulas presiciais no atual estágio do combate à pandemia de coronavírus, que tem provocado ordens e contraordens judiciais no âmbito da Vara da Infantãncia e da Juventude de Niterói, o TODA PALAVRA abre o debate entre aqueles que estão no centro da questão - os educadores. Quem abre a discussão é a pedagoga da Rede Municipal de Educação de Niterói e Mestre em Educação formada pela UFF, Lucilaine Maria da Silva Reis. Confira também o contraditório, defendendo a volta às aulas nas escolas, no artigo da também pedagoga, psicóloga e Mestre em Gestão Pública Municipal pela UFF, Luiza Sassi.


É assustador ver gente comparando escolas com bares, academias e cinemas


Por Lucilaine Reis


Todas as vezes que vejo alguém comparando a abertura das escolas com a de academias, igrejas e bares, sinto vontade de responder. Depois, quase imediatamente eu desisto. É que, para falar sobre isso a partir desse enquadramento, é preciso dizer uma quantidade tão grande de argumentos,

tão absolutamente óbvios, que é como se eu ofendesse aqueles que leriam a minha resposta.


No entanto, depois de ver o Ministério Público e uma juíza usando esse tipo de argumento para obrigar o retorno às aulas, penso que é necessário fazer coro com as vozes de tantos outros educadores, que têm vindo a público confrontar esse absurdo.


Então vamos lá:


a) Primeiro de tudo, se estamos em meio a uma pandemia mundial, lutando contra a disseminação de um vírus com alto índice de letalidade e as pessoas acusam a contradição de ter academias e bares abertos, enquanto as escolas estão fechadas, não seria de se esperar que a luta fosse para que estes estabelecimentos estivessem igualmente fechados, na medida em que neles é realmente difícil a manutenção dos protocolos de segurança e de afastamento social? Por que então pedir para abrir as escolas, ao invés de fazer o óbvio e lutar para que estabelecimentos, que não são considerados serviços essenciais, continuassem fechados até que seja possível um retorno seguro?


b) Se tudo está aberto, por que as escolas precisam continuar fechadas?

Vamos lá: todo mundo que está em Niterói sabe e sente na pele que o funcionamento das escolas altera drasticamente o fluxo de pessoas e veículos na cidade. Quando saímos às ruas nos primeiros dias das férias escolares, tomamos um susto com o trânsito fluindo fácil e a pouca quantidade de pessoas nas ruas. Quando as aulas voltam, trazem os engarrafamentos e a movimentação. Todos os anos é assim. Para ser ainda mais clara, vou dar como exemplo a minha escola, que, sozinha, é responsável pela movimentação diária de mais (bem mais) de MIL pessoas diariamente pela cidade de Niterói, considerando estudantes, responsáveis e profissionais da Educação. São pessoas que se deslocam do Rio de Janeiro, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá, usando diferentes meios de transporte. Isso sem falar dos estudantes e responsáveis que movimentam os transportes de toda a Região Oceânica e outros que ainda vêm da Região de Pendotiba e outros bairros. Qualquer pessoa que pegue transporte público, em horário escolar, sabe bem do que eu estou falando; que ande em seu próprio carro em horário escolar, também sabe do que estou falando. Dei o exemplo concreto de UMA ÚNICA escola. Agora somem todas as escolas das redes municipais, estaduais e privada. Se você acha que esse número de pessoas circulando TODOS os dias na rua não é assustador, só posso supor que você seja um negacionista do vírus e aí não há argumento que o convença.


c) Antes de falar da dinâmica de funcionamento da escola, quero falar de outro aspecto das unidades de ensino, que são os seus entornos.

Existe um mundo que habita o entorno das escolas, quem mora perto de uma sabe. É lindo ver os responsáveis andando com as crianças pelas mãos, carregando as mochilas nas costas. Vizinhas que vão juntas buscar as crianças, famílias e vizinhos que se organizam em escalas para buscar os estudantes e saem distribuindo várias crianças pelas escolas. Trabalhadores de transporte escolar, que vêm e vão atrapalhando o trânsito. Gente que para nos mercados para comprar lanches com as crianças na mão. Vendedores ambulantes, que ficam ao redor da escola, enchendo as crianças de doces e que são o terror das coordenações de turno. Rapazes que ficam do outro lado da rua, ou mesmo no portão de entrada, paquerando as alunas adolescentes. Estudantes que matam aula e ficam pelas praças e pontos de ônibus, fazendo coisas de adolescentes. Enfim, quanto mais escrevo mais lembro das aglomerações, que ocorrem ao redor das escolas e que, em tempos de normalidade, podem ser mais ou menos adequadas, mas que, nesses dias de pandemia, podem ser extremamente perigosas.


d) O que acontece efetivamente dentro das escolas e que torna o retorno em meio a pandemia uma calamidade?

Para falar sobre isso, antes é preciso dizer que cada realidade escolar é diferente e que não é possível comparar uma Unidade de Educação Infantil com uma Escola de Anos Finais ou Ensino Médio, por isso talvez eu faça alguma generalização, que não se aplique a todas as escolas, mas tenho certeza que se aplica a algumas delas.

A principal diferença entre uma aglomeração, que ocorra numa igreja, numa sala de cinema e teatro, ou numa escola, é a seguinte: os estudantes e profissionais da Educação estarão no ambiente educacional TODOS os dias. Cinco dias por semana. Se você vai à uma sala de cinema, compartilha seu ar e seu equipamento físico com um grupo de pessoas por umas duas horas. Isso é efetivamente um risco (eu realmente não recomendo). Mas você sai dali e não vai mais compartilhar nada com aquele grupo de pessoas novamente.

No caso da escola, das turmas, da sala de aula, o convívio é intenso, diário, cotidiano. Professores e estudantes, às vezes, passam mais tempo com suas respectivas turmas do que com suas famílias, então as chances de contágio entre alunos e professores de uma mesma turma se equipara às chances de contágio entre membros da mesma família, que vive na mesma casa. No entanto, as pessoas de uma mesma família que moram numa mesma casa não vão sair dessa casa e ir para uma outra casa, com outra família a ser contagiada. Mas os estudantes e professores que passaram horas diariamente em um ambiente fechado, convivendo como grupo, sairão dali e voltarão para as suas respectivas famílias para passar outras tantas horas em ambientes fechados. Façam as contas de quantas pessoas podem potencialmente ser infectadas neste convívio, até que alguma delas tenha o diagnóstico de COVID. É importante fazer uma ressalva, mesmo que os estudantes não voltassem todos ao mesmo tempo, e fosse feito o rodízio que está sendo proposto, ainda assim todos os profissionais de Educação estariam fazendo o mesmo deslocamento diário (e somos muitos), e ainda assim o número de estudantes e responsáveis se deslocando diariamente seria muito grande e o resultado final seria desastroso.


Não vou me dedicar neste texto a explicar como crianças pequenas trocam cotidianamente secreções entre si, nem vou narrar como profissionais da Educação Infantil lidam todos os dias com secreções, fluídos e excrementos como parte desse fazer diário. Também não vou me dedicar a narrar como nas escolas de anos finais, estudantes adolescentes se dedicam a testar, infringir e quebrar regras e que, em muitos aspectos, isso pode ser encarado como parte do desenvolvimento deles, tanto quanto zelar pelo cumprimento das regras seria parte do nosso trabalho. Destaco, no entanto, que, em meio a uma pandemia mundial, isso poderia ser tão imensamente perigoso para eles e para nós.


Escrevi esse texto em meio a um imenso cansaço. Estou exausta e estou triste, muito triste, sigo com febre. Em meu 21º dia após ser diagnosticada com COVID, fui a um laboratório fazer alguns exames e praticamente todas as pessoas que estavam lá tinham os sintomas da doença. E a aglomeração na calçada em frente ao laboratório foi uma coisa assustadora. Tenho a impressão (e como quero estar errada) que o discurso econômico venceu o humanitário e que muitas pessoas vão morrer por causa disso. Escrevo não com o desejo de convencer ninguém, não consigo imaginar que alguém deveria ser convencido a proteger a vida de outras pessoas. Escrevo apenas porque a realidade dói e quando a dor fica insuportável no peito, ou eu transbordo, ou enlouqueço.


Lucilaine Reis é Supervisora pedagógica da rede Municipal de Educação de Niterói e Mestra em Educação pela UFF

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