Dia dos Namorados: o amor nos tempos de isolamento

Atualizado: 5 de jun. de 2021

Por Ana Clara Paiva


O Dia dos Namorados está chegando, mas será que essa data, tão saborosa, pode ainda ser desfrutada da mesma forma em tempos de pandemia? Como o isolamento e todos os demais protocolos impostos pela necessidade de contenção do coronavírus interferem no namoro nos dias de hoje? Será que o medo do contágio pode conter o amor e o carinho?


Seja um abraço, um beijo ou um simples entrelace das mãos, o toque sempre foi uma característica marcante no processo de socialização das comunidades latinas, principalmente a brasileira. Ele está presente na nossa rotina desde uma saudação a um amigo até na forma de demonstrar carinho e respeito com alguém especial. Então, como as pessoas estão amando durante uma pandemia que se estende por mais de um ano?

Casal começou a namorar durante a pandemia de coronavírus
Juliana e Flavio começaram a namorar durante a pandemia / Arquivo Pessoal

Para entender como a covid-19 afetou os relacionamentos amorosos, o jornal TODA PALAVRA procurou casais e solteiros para saber o que mudou na rotina deles. Todos os entrevistados relataram alguma mudança no comportamento com seus parceiros.


Mas, apesar de tudo, o comércio aposta em um crescimento significativo das vendas para o Dia dos Namorados deste ano e os casamentos não pararam de acontecder, mesmo que em cerimônias virtuais. Em Niterói, lugares tradicionalmente frequentados pelos casais continuam sendo procurados pelos namorados, como o Parque da Cidade e outros recantos ao ar livre. São provas de que, como confirma o senso comum, o amor sempre vence.


Para Carlos Matos, 28, a instabilidade nos números de novos casos e mortes no país o fizeram desanimar de conhecer pessoas novas.


“Terminei um longo relacionamento durante a pandemia e queria conhecer alguém, mas não tenho saído muito, exceto quando vou à casa de quem já conheço. Ainda quero conhecer esse 'alguém', sabe? Mas a situação atual do Brasil realmente me deixa muito retraído” desabafa o criador de conteúdo.


Para a designer de moda Juliana Guimarães, 26, e o estudante Flávio Filho, 21, que começaram a namorar durante a pandemia, escolher fazer atividades ao ar livre e recusar os convites de amigos para ambientes aglomerados foram algumas das mudanças.


“Nós sempre escolhemos fazer coisas como ir ao Parque da Cidade, andar no calçadão da praia de Camboinhas ou comer em restaurantes mais vazios, que tenham mesas do lado de fora” afirmam os dois.


Há também aqueles que decidiram se isolar de seus parceiros, como o engenheiro de produção Pedro Henrique Motta, 27, e a fonoaudióloga Raquel Mendonça, 29, que estão juntos há quase sete anos e ficaram nove meses sem se ver, pois ambos trabalham em ambientes hospitalares.


“Além do isolamento se fazer necessário e ser muito importante para todos — pois se tivesse sido assim talvez não estivéssemos em uma situação tão crítica, mas sim, no final disso tudo — sou portadora de uma doença imunossupressora e por isso precisei ter cuidado triplicado. Precisei me afastar do trabalho, pois sou da área da saúde; e do Pedro, meu namorado, que trabalha em ambiente hospitalar”, conta Raquel.


“Foi um momento muito difícil. Era uma saudade sem fim. Nos falávamos todos os dias por chamada de vídeo para amenizar a distância”, diz o engenheiro.


Passada a quarentena, os dois voltaram a se encontrar uma vez por mês, mantendo os cuidados de segurança, após Pedro ter tomado as duas doses da vacina contra a covid-19.


O casal de namorados ficou nove meses sem se encontrar, em quarentena prolongada
Rachel e Pedro ficaram nove meses sem encontros presenciais / Arquivo Pessoal

Como celebrar o dia dos namorados?


O casal Juliana e Flávio é unânime em dizer que os melhores presentes são aqueles que impactam emocionalmente e surpreendem.


“Caso não possam se encontrar, acho legal que entreguem os presentes por delivery com declarações em forma de bilhetes e coisas que o outro goste” sugere Flávio.


“Eu sou meio brega nessas horas e apelo para o emocional (risos), acho interessante marcar momentos bons, mostrar o que aquela pessoa simboliza pra você” diz Juliana.


Eles pretendiam jantar juntos, em casa, no dia 12. Mas Flávio contraiu covid-19 recentemente e resolveram adiar.

Casal adiou o jantar do Dia dos Namorados porque um deles foi tonaminado pelo coronavírus
O casal resolveu adiar o jantar programado para o Dia dos Namorados / Arquivo Pessoal

Expectativa do comércio em Niterói


De acordo com pesquisa da Câmara de Dirigentes de Lojistas de Niterói (CDL), realizada entre os dias 25 e 30 de maio, apesar da crise econômica e do alto índice de desemprego o ato de presentear ainda é uma importante demonstração de afeto. A expectativa de vendas desse ano é 5,3% maior em relação ao ano passado.


Dentre mais de mil participantes da pesquisa 55% pretendem comprar um presente, sendo 63% casados e 34% namorados, gastando uma média de R$ 200. Os artigos mais escolhidos foram roupas (40%), perfumes e cosméticos (30%), calçados (20%) e flores (7%), sendo a maioria das compras feita online (35%).


Os dados mostram também que 57% dos casais, principalmente os casados, vão comemorar a data em suas residências, assim como os aqui entrevistados.


Amor em um clique


Em 2017, quando não se fazia ideia da covid-19, a Universidade McGill de Montreal, no Canadá, realizou um estudo analisando se o comportamento das pessoas mudaria em relação aos seus relacionamentos amorosos se elas estivessem preocupadas com o risco de doenças infecciosas.


A pesquisa aponta que a hesitação em encontrar outras pessoas é atribuída a um elemento da nossa psique chamado “sistema imunológico comportamental”.


Os patógenos sempre representaram uma ameaça à nossa sobrevivência ao longo da história humana. Assim, alguns psicólogos acreditam que os seres humanos desenvolveram um conjunto de respostas subconscientes que se manifestam quando estamos preocupados com a presença de uma doença infecciosa. Essas respostas nos levam a adotar padrões de comportamento que reduzem a probabilidade de contaminação.


Em entrevista para a BBC em janeiro deste ano, a cientista comportamental Logan Ury, diretora de ciência do relacionamento no aplicativo de encontros Hinge, também notou a mudança na forma como as pessoas estão lidando com os relacionamentos virtuais. Antes da pandemia, era comum usarem o aplicativo para pular frequentemente de pessoa para pessoa.


Mas, conforme as restrições sociais foram aumentando, as pessoas começaram a passar mais tempo conhecendo seus possíveis parceiros antes do primeiro encontro. Dessa forma, quando finalmente conseguem se conhecer pessoalmente, o encontro passa a ter mais importância na cabeça deles.


“A pandemia significa que cada encontro se torna mais precioso”, afirma Ury.


O casamento virtual tem sido a opção de muitos noivo durante a pandemia
Casamentos virtuais custam menos e permitem que casais invistam mais na lua-de-mel / Reprodução da Internet

E os noivos?


Muitos casais tiveram que adiar seus planos durante 2020 e 2021. Isso fez com que o mercado de eventos tivesse que se reinventar. Por isso, um formato de casamento mais intimista ainda que um mini-wedding (mini-casamento) foi muito procurado: o enlopement wedding.


O termo vem da palavra inglesa elope, que significa "fugir", e antigamente era usada para se referir aos casamentos em que os noivos fugiam para se casar sem o consentimento dos pais.


Hoje, o estilo é indicado para os casais que não querem gastar muito na cerimônia — pois preferem investir em outros objetivos, como uma viagem — mas não querem deixar a data passar em branco.


Esse tipo de casamento é bem mais econômico porque não tem convidados. Os maiores gastos são com o vestido da noiva, o bolo e a decoração, além de um celebrante e fotografia.