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EDITORIAL | A cor que falta na nossa bandeira


Luiz Augusto Erthal*


A maior riqueza do nosso país não está nos veios de ouro que brotam da terra; ou no verde das matas que cobrem grande parte do nosso território; ou no azul do céu onde brilha o Cruzeiro do Sul.


A representação cromática da nossa bandeira haveria de ser diferente se quisesse refletir, de fato, aquilo que temos de mais valioso. Sobre as cores do nosso pavilhão deveríamos ter também - assim como o branco que simboliza a paz - as nuances negras da nossa gente.


Mais do que o ouro, mais do que as florestas, mais do que o azul do céu e o brilho das estrelas, o povo brasileiro, cujo trabalho constrói a prosperidade do Brasil, é a maior riqueza do nosso país. Ele é a razão de tudo e para a sua plenitude propugnamos Ordem e Progresso.


Negra é a cor predominante da gente brasileira. Os matizes da pele do povo africano, por tanto tempo humilhado e supliciado em nossas terras, sobrepujaram a escravidão e se impuseram na miscigenação das raças como preponderantes, com toda a riqueza que carregam e que nos legaram.


Por eles somos bons de bola, temos samba no pé e cantamos ao mundo a alegria e a liberdade duramente conquistadas, dia a dia.


Em nome dessa liberdade tão preciosa e para que o reconhecimento e o respeito à igualdade racial sejam, mais que lei, sejam, de fato, um dogma coletivo da nossa civilização é que comemoramos, neste 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra.


Mas a construção permanente dessa consciência se impõe à sociedade brasileira como uma missão cuja perpetuação é a única meneira de purgar nossas culpas e fechar as cicatrizes desse passado que ainda nos assombra, como também de um presente que nos afronta. Como escreveu o antropólogo Darcy Ribeiro, que estaria agora completando 100 anos:


“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos.”


A cor que falta à nossa bandeira é a chama que precisamos manter acesa em nossas consciências na busca pela conquista de uma sociedade justa, fraterna e igualitária.


Viva o povo brasileiro, nossa maior riqueza, e viva a presença do sangue negro que corre em suas veias.


*Editor Executivo do Jornal e da Rádio Toda Palavra

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