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Elites dependentes garantem lucros dos EUA no Brasil em 2022


Encontro entre Bolsonaro e Biden durante a 9ª Cúpula das Américas, em junho deste ano (Reprodução)

Na última quinta-feira (22), o presidente dos EUA, Joe Biden, confirmou que não participará da posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro em Brasília. A Casa Branca preferiu enviar delegação liderada pela secretária do Interior, Deb Haaland.


A notícia vem na conclusão de um ano um tanto atípico nas relações Brasil-EUA: apesar dos bons números de comércio, o ano de 2022 foi marcado pela disputa entre os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden, que explicitaram suas diferenças ideológicas publicamente. A dificuldade no alto escalão, no entanto, não impediu que as relações nas esferas de comércio e defesa seguissem seu rumo.


"Desde que Biden foi eleito, as relações entre Brasil e EUA entraram em compasso de espera", disse o professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (INEU) Felipe Mendonça à Sputnik Brasil.


Segundo ele, as relações só não foram interrompidas porque "os EUA consideram o Brasil um aliado estratégico, comercial e militar". Em abril de 2022, por exemplo, o Congresso brasileiro ratificou o Acordo de Pesquisa, Desenvolvimento, Teste e Avaliação Brasil-EUA, que visa intensificar a cooperação militar entre os dois países.


Ainda que o barco das relações bilaterais tenha sido capaz de rumar sem seus comandantes, a verdade é que a disputa entre Biden e Bolsonaro passou por momentos um tanto inusitados.


Bolsonaro apoiou explicitamente o adversário de Biden, Donald Trump, durante as eleições presidenciais norte-americanas de 2020.


"Bolsonaro havia oferecido um apoio praticamente incondicional à família Trump", disse o professor de Relações Internacionais da FACAMP Pedro Costa Júnior à Sputnik Brasil. "Qualquer líder internacional que fortaleça o Trump é considerado pela cúpula do Partido Democrata [...] como um inimigo, isso é claro como o sol do meio dia."


Mendonça ainda lembra que "durante muito tempo Bolsonaro não reconhecia Biden como líder, o que não só era uma situação diplomática inadequada, mas também inédita".


O reconhecimento mútuo foi realizado de fato durante o encontro presidencial às margens da Cúpula das Américas, em junho passado, em Los Angeles. Apesar da pompa diplomática, "o encontro não rendeu frutos, tanto que não vemos desdobramentos desta conversa", notou o especialista.


Passados dois anos, Biden deu o troco ao esboçar um apoio ao adversário de Bolsonaro durante as eleições presidenciais brasileiras, "de forma não oficial, mas deixando nas entrelinhas que havia uma preferência à chapa de Lula", disse Mendonça.


Comércio bilateral

Dados preliminares apontam que 2022 foi um ano bastante positivo para o comércio entre EUA e Brasil. No acumulado de janeiro a novembro, o comércio bilateral atingiu marca recorde de US$ 80 bilhões (cerca de R$ 413 bilhões), um aumento de 28,6% em relação ao mesmo período do ano passado.


A política externa de Bolsonaro pode ter auxiliado o bom desempenho das exportações norte-americanas para o Brasil, retirando barreiras tarifárias que dificultavam o acesso de determinados produtos dos EUA ao mercado brasileiro.


"O Brasil cedeu em muitas áreas que eram de interesse para a reeleição de Donald Trump, derrubando barreiras tarifárias a produtos oriundos de estados nos quais Trump precisava de um bom desempenho eleitoral, os chamados 'swing states'", nota Costa Júnior.


Por outro lado, a pauta de exportação brasileira para os EUA se destaca por ser 55% composta de produtos de valor agregado e serviços, o que foge ao padrão comercial brasileiro. Assim como o Brasil, os EUA são grandes produtores de commodities, e impõem barreiras significativas a produtos do agronegócio brasileiro.


"A pauta comercial brasileira em relação aos EUA é, paradoxalmente, de nível mais elevado do que a que temos com a China, para quem exportamos basicamente commodities", notou Mendonça. "Mas os EUA são superavitários na sua relação comercial com o Brasil, o que é um caso raro na América Latina."


Os EUA ainda são uma fonte significativa de investimento externo direto para o Brasil, o que faz com que "os empresariados de ambos os países tenham uma relação praticamente umbilical", notou Mendonça.


"O Brasil tem elites dependentes [dos EUA], que historicamente optam por uma relação de servidão voluntária, se colocando com muito voluntarismo na direção da política externa norte-americana. Aí a mão encontra a luva", declarou Costa Júnior. "As elites são subalternas e dependentes, e parecem gostar desse papel."

Presidente eleito Lula recebe Jake Sullivan em um hotel, no início de dezembro (Foto: Divulgação/PT)

Governo Lula 3

Os EUA de Biden parecem aliviados pela derrota de Bolsonaro, um aliado de Trump na América do Sul. O entusiasmo norte-americano foi evidenciado pela visita do assessor de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, ao Brasil, no início de dezembro.


"Quando presidente eleito, Bolsonaro também recebeu o [então assessor de Segurança Nacional dos EUA] James Bolton. A diferença é que Bolsonaro recebeu o norte-americano em sua casa, a pão com leite condensado, e bateu continência para ele", relembra Costa Júnior.


No caso de Lula, Jake Sullivan foi recebido em um hotel, para uma conversa de quase duas horas, durante a qual o convidou para comparecer à Casa Branca, ainda em 2022. Lula declinou o convite, preferindo se reunir com Biden após a sua posse.


Costa Júnior relata que Lula prefere visitar Washington quando estiver em condição de igualdade de cargos com Biden, e evitar eventual pressão do norte-americano sobre o processo de transição de governo e escolha de ministros.


De acordo com Mendonça, as relações entre Brasil e EUA devem se aprofundar em pautas de interesse comum, como meio ambiente, desigualdade racial e defesa dos direitos humanos.


"Por outro lado, Lula e Biden vão continuar discordando quando o assunto for China ou Ucrânia, que são assuntos com relevância estratégica para os EUA", considerou Mendonça. "Mas isso é do jogo. A diferença é que o Brasil voltará a ser um dos jogadores."


De acordo com Costa Júnior, a equipe de política externa do próximo governo tem a expectativa de que Lula vá a Washington já no primeiro trimestre de governo. De Washington o líder brasileiro deverá seguir viagem rumo à China, sinalizando a pluralidade dos contatos internacionais do Brasil.


"Teremos, sim, mudanças significativas no relacionamento bilateral [...] Se inaugura uma relação de respeito, mas não mais de submissão aos EUA", concluiu Pedro Costa Júnior.


Em 2022, o fluxo de comércio entre Brasil e EUA bateu recorde no acumulado entre janeiro e novembro, atingindo US$ 80 bilhões (cerca de R$ 413 bilhões), o número representa uma alta de 28,6% em relação ao mesmo período do ano passado, conforme informou a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia do Brasil.


Fonte: Agência Sputnik

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