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Embaixada americana convoca mineradoras brasileiras para seminário

Por Osvaldo Maneschy


Apesar de o governo brasileiro ter recusado a proposta dos Estados Unidos de participar da aliança de cerca de 50 países, sob a liderança da Casa Branca, para quebrar o controle chinês sobre a oferta de terras raras no comércio mundial - minerais estratégicos para uso de novas tecnologias como  mísseis, satélites, trens super rápidos, celulares, carros elétricos, etc - na semana passada e sem levar em conta a posição anunciada por Brasília, foi anunciado o investimento de meio bilhão de dólares da Casa Branca na empresa Serra Verde, norte-americana e inglesa, que  desde 2024 explora terras raras no Norte de Goiá.


Lavra de terras raras da Serra Verde no Norte de Goiás / Divulgação
Lavra de terras raras da Serra Verde no Norte de Goiás / Divulgação

Também em explícita contestação à anunciada posição do governo Lula, a Embaixada americana o país está convocando as diferentes mineradoras que atuam no Brasil para um seminário sobre a exploração de  terras raras que pretende realizar em março próximo, em São Paulo, juntamente com o Instituto Brasileiro de Mineralogia (Ibram), organização privada, lobista, que reúne as mineradoras que operam no Brasil.

 

As terras raras são 17 elementos químicos fundamentais para a produção também de tecnologias de ponta como turbinas eólicas, baterias, veículos elétricos e equipamentos militares. Embora o nome sugira escassez, os elementos são considerados “raros” pela complexidade de sua extração e separação em estado puro, que exige tecnologia complexa só dominadas por uns poucos países, tendo a China à frente.  O Brasil já domina o ciclo de produção de alguns desses elementos, mas apenas em laboratórios acadêmicos, não em escala industrial como a China e uns poucos países desenvolvidos.

 

Segundo a proposta do vice-presidente dos EUA, JD Vance, apesentada semana passada, é intenção dos EUA criarem uma reserva de mercado de terras raras para o seu país, hoje dependente da China que, em reação ao tarifaço do presidente Trump contra produtos chineses – decidiu não mais vender terras raras para os EUA. Mas se o Brasil atender à convocação de Vance, automaticamente limitaria a sua soberania e autonomia sobre as terras raras que, devidamente separadas com o uso de sofisticadas e complexas tecnologias que apenas dominamos parcialmente e em laboratório – acrescentam valor agregado fantástico a essas matérias primas.  

 

Lula e Donald Trump devem discutir esse tema no encontro de cúpula que terão marcado para março, em Washington. Terras raras são um dos itens incluídos na pauta de discussão, embora o anúncio, pela empresa Serra Verde do aporte de investimento maciço do governo norte-americano em suas atividades em Goiás, já seja desdobramento do anúncio feito, no último dia 04/2, pelo vice-presidente Vance, do projeto americano de avançar mundialmente na exploração das jazidas desses minérios, onde eles estejam no mundo. O projeto dos EUA engessa a exploração dos minérios brasileiros perpetuando a atual assimetria no setor. A Argentina aceitou participar do pacto a favor dos EUA, como outros 13 países.

 

 Outra questão que incomoda o Brasil é que os EUA querem os países parceiros acelerem os licenciamentos de exploração, desregulamentando prazos e processos. Ainda segundo  o vice-presidente Vance, também é preciso que os “governos parceiros” mapeiem suas reservas e forneçam os dados para os EUA.

 

Segundo Guilherme Boulos, secretário-geral da presidência, ao receber no Planalto uma comitiva de trabalhadores de Goiás preocupados com a desenvoltura da empresa Serra Verde na região, é fundamental que o Brasil não se torne mero fornecedor de matéria-prima na exploração das terras raras. Tanto que o governo brasileiro pretende costurar um acordo sobre terras raras com a Índia, semana que vem, na visita oficial de Lula a Nova Delhi. A Índia, como o Brasil, faz parte dos BROCS e isto incomoda, e muito, o governo dos Estados Unidos.

 

A mina da Serra Verde, de capital fechado, é rica em terras raras pesadas, ao contrário de outros depósitos ocidentais. O produto da Serra Verde apresenta elevada concentração de disprósio e térbio - dois minerais críticos. A empresa iniciou a produção comercial no início de 2024 em Minaçu,em Goiás, e ainda não atingiu a produção total, que deve ser de cerca de 6.500 toneladas (brutas) de óxidos de terras raras por ano, até 2027, exportadas exclusivamente para a China, onde é feita a separação dos elementos de terras raras.

 

A Serra Verde é propriedade dos grupos Private Equity Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, liderado pelo ex-diretor da Xstrata, Mick Davis, também ex-executivo da Mineral Fields que detinha direitos minerários no Zaire. A partir de 2027, a sua produção deverá – dentro da nova política dos EUA – ser direcionada para os Estados Unidos, onde poderá ser feita esta separação de elementos raros, fundamental para agregar valor às terras. Tecnologia que o Brasil domina em laboratório, mas não dispõe de nenhuma planta industrial para isto até o momento.

 

Na reunião com os lavradores de Goiás, Boulos anunciou também que o Palácio do Planalto não aceita a iniciativa do governador de Minas Gerais,  Romeu Zema (Novo), que sem ser de sua competência autorizou a exploração de terras raras nos municípios de Caldas e Caldas Novas, ricas no minério em estado bruto. A região tem despertado interesse de empresas estrangeiras, especialmente australianas, que já possuem contratos de venda desses minerais para os Estados Unidos. Segundo Boulos, o assunto é da competência da União.

 

Segundo informações do jornalista Jamil Chade, do ICL, Trump vem negociando diretamente com Zema e Ronaldo Caiado, de Goiás, dois governadores de oposição ao governo Lula, para articular a exploração, por empresas norte-americanas, das terras raras do Brasil, apesar da a legislação brasileira reservar exclusivamente à União a propriedade sobre o subsolo do país, por força de lei promulgada nos anos 30 pelo presidente Getúlio Vargas.


“O presidente Lula determinou que toda discussão sobre terras raras seja conduzida no âmbito da Presidência da República. Foi criado um grupo estratégico para tratar desse assunto, e qualquer tentativa de atropelar esse processo nacional será inócua”, argumentou Boulos, recebendo o grupo de trabalhadores levados ao ministro por uma deputada mineira. A deputada também conseguiu uma audiência dessas pessoas com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

 

CLUBE DE ENGENHARIA

 

O Clube de Engenharia, fundado em 1880,  e o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (IBEP), preocupados com a questão da soberania brasileira sobre as suas jazidas de terras raras, reuniu na sede da entidade, no Rio de Janeiro, especialistas no assunto que, em seminário, alertaram  para a importância do Brasil cuidar de suas jazidas e impedir que mais uma vez nos tornemos exportador de material bruto em benefício de nações desenvolvidas.  Também, no debate, se discutiu o “ataque descarado” à soberania brasileira devido ao interesse dos Estados Unidos em controlar as jazidas brasileiras. O tema geral do seminário foi “Terras Raras, Soberania e Desafios Tecnológicos”.


O debate reuniu o geólogo Marcelo Esteves de Almeida, do Serviço Geológico do Brasil, que falou sobre “Produtos direcionados para a produção de terras raras”; o pesquisador titular do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), Ysrael Marrero Vera, especializado em processos metalúrgicos,  que explicou o tema “Cadeias produtivas das terras raras”; e por último falou o professor da UFRJ Atlas Vasconcelos Correa Neto, sobre “Olhar Crítico sobre os recursos brasileiros de terras raras”.  O presidente do Movimento em Defesa da Economia Nacional (Modecon), Lincoln Pena, entidade fundada pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho, fez parte da mesa presidida por Francis Bogossian, presidente do Clube.


No vídeo reproduzido no final da matéria, de cerca de duas horas de duração, contendo a íntegra do seminário do Clube de Engenharia, a diretor do Clube de Engenharia explica os motivos que levaram Bogossian, presidente da entidade, a solicitar a divisão técnica de Geologia e Mineração, do Clube, a realizar o evento.  Ela explica o que são as terras raras e para que servem, acrescentando quais são os principais desafios tecnológicos para o Brasil, oportunidades e riscos relacionados à exploração dessas terras raras abundantes no Brasil.

 

Marcelo Almeida, do Cetem, inicia a sua palestra acompanhada de diversas imagens mostrando a distribuição, pelo território brasileiro, de jazidas de terras raras, entre outras riquezas minerais. Fala também da falta de recursos para estudos geológicos, fundamentais para a viabilização da exploração dessas jazidas já mapeadas, comparando com recursos dispendidos por outros países que valorizam essas descobertas e não possuem jazidas; citando também a extrema necessidade de aumentar o número de geólogos no Brasil, por conta de sua dimensão continental, já que atualmente cada geólogo em atividade no CETEM, por exemplo, tem área equivalente ao território de Portugal, para trabalhar. 

 

Ele fez uma comparação entre as terras raras em estado bruto, o seu valor, em relação a tonelada de minério de ferro, por exemplo; e o imenso valor agregado quando elementos alguns dos 17 elementos fundamentais das terras raras são processados. Ele lista os seis mais importantes investimentos de lavra e o estágio de beneficiamento, até a produção de imãs fundamentais. Explica também que a empresa Serra Verde, que vai receber aporte milionário do governo Trump, é hoje  a mais importante na exploração de terras raras no Brasil. Ele lembrou também que a Companhia Brasileira de Pesquisas Mineirais (CBPM) avançou na rota tecnológica da produção de imãs, mas teve o seu caminho interrompido, limitando-se agora a exportação de concentrados sem qualquer beneficiamento.

 

No Brasil, afirmou, faltam investimentos para levantamentos geológicos e políticas e investimentos para agregar valor as terras raras, vendidas sem qualquer beneficiamento – o que representa perdas imensas para o Brasil, em valor agregado e em tecnologia. Ele frisa bem este ponto nas conclusões finais de sua palestra.

 

Ysrael Veras, do CETEM,  detalha o que é necessário, em termos técnicos, para transformar terras raras nos 17 elementos valorizadíssimos que tocam novas tecnologias nas áreas mais desenvolvidas do conhecimento humano, extremamente dinâmicas. Ele explica a complexidade da separação desses elementos e porque só os países desenvolvidos, hoje, tem capacidade para fazer esse trabalho – patamar que o Brasil almeja em alcançar, mas que para isto é fundamental que o Estado brasileiro invista recursos públicos com este objetivo.  Explicou também que há uma corrida no mundo por esses elementos e isto é sentido no Brasil onde, atualmente, há cerca de 28 novos projetos que deram entrada ano passado, para a exploração de novas jazidas. Ele cita que junto com a exploração do nióbio há, também, a extração de elementos de terras raras. Que sáo exportados de forma bruta e sem qualquer valor agregado.

 

Importante ver, no vídeo, nas conclusões finais de Ysrael, a sua argumentação das razões do Brasil se tornar personagem no fornecimento das terras raras que o mundo precisa, e não apenas mero fornecedor.

 

A palestra do professor Atlas destaca a desinformação dos brasileiros através da grande mídia sobre a importância da luta para que as terras raras existentes no país beneficiem a população, e não empresas estrangeiras.  “O refino dessa riqueza mineral é fundamental”, destacou, já que o valor agregado por ele, faz toda a diferença.  Ele se estende sobre a  importância dessa questão, quando conclui a sua palestra.

 

Fechando o seminário, o presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian, anuncia que o presidente Lula o incluiu no chamado “Conselhão” da sociedade civil e que ele, a par dos detalhes levados pelos especialista ao Clube naquele evento, pretende levar o assunto à Brasília e defender, onde for necessário, a importância do Brasil desenvolver a indústria de beneficiamento de terras raras para que elas, repetindo antigo ciclos econômicos, não sejam exportadas sem trazer quase nenhum benefício aos brasileiros. A fala de Bogossian durou quatro minutos.


Assista o debate no Clube Engenharia na íntegra:


 
 
 

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